quarta-feira, outubro 27, 2010

Soigne ta gauche

Quando, durante o debate nacional em torno da questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, Agustina Bessa-Luís defendeu uma previsível posição conservadora, houve quem lhe tivesse respondido com insultos ao seu trabalho literário. Do estilo: essa senhora, que nem sequer é boa escritora, não tem autoridade para dizer tal enormidade.

Não incorrerei em igual baixeza neste post. Por isso, começo por confessar que nunca li a obra do poeta Ferreira Gullar, e que a minha vontade de objectar a uma ideia pela qual ele pugnou numa entrevista conduzida pela jornalista Alexandra Lucas Coelho, resulta de um exercício de cidadania e não se confunde com qualquer crítica literária. A sua eventual excelência como escritor não está aqui em causa.

O que me incomodou, na já mencionada entrevista, foi o facto de o autor brasileiro ter defendido que, após o falhanço das ditaduras comunistas, ninguém se podia considerar "de esquerda". Não me deterei nas suas ideias sobre Lula da Silva, pois ele terá muito mais autoridade do que eu para as defender, já que vive numa proximidade com a política do seu país com a qual eu não posso competir. Por outro lado, o tema "esquerda" é suficientemente lato para exigir a generosidade de um denso livro que o tente abarcar. Pretendo apenas formular uma razão pela qual vale a pena, hoje, manter aquela filiação ideológica, uma razão que tem tudo a ver com o Brasil.

Quando eu continuo a dizer que sou "de esquerda", pretendo, entre muitas outras coisas, fazer finca-pé na ideia de que as sociedades africanas e americanas que foram colonizadas pelos europeus após a brecha aberta pela expansão ultramarina portuguesa não só não eram sociedades inferiores aos seus visitantes opressores, como foram irremediavelmente prejudicadas pela colonização.

Parece-me evidente que o mundo europeu tinha algumas superioridades: a nível bélico (o apogeu disso foi atingido em Hiroxima, um grande orgulho, sim senhor), a nível científico (e contudo, é constrangedor que a sofisticação da ciência não tenha conseguido anular o fundamentalismo religioso no mundo ocidental, tendo nós hoje de assistir à miséria intelectual do criacionismo), a nível do pensamento abstracto. No entanto, a antropologia, a sociologia e a história já provaram que muitas dessas sociedades de "primitivos" viviam uma espécie de equilíbrio cívico notável que os europeus não foram capazes de compreender.

As vidas dos índios da Amazónia seriam vidas duras, já que a natureza com a qual tinham de se confrontar não era passível de uma dominação fácil, mas decorriam em ambientes de ética sofisticadíssima. Na tribo dos Bororo, por exemplo, a ausência de sistemas institucionalizados de punição criminal era paralela a uma quase ausência de crime na comunidade. No ocidente, após páginas e páginas e milénios e milénios de religião, moral e direito, o que podemos constatar é uma espécie de imparável esplendor da corrupção, aberta a todas as mutações e a todos os requintes. Basta dizer que, nos Estados Unidos da América, ainda existe a pena de morte...

Não quer dizer que essas sociedades fossem perfeitas (os aztecas, por exemplo, faziam sacrifícios humanos), nem que tivéssemos de nos rever nas suas culturas. Agora, o facto de nelas existir um equilíbrio comunitário notável é um facto insofismável. Não eram mundos que precisassem de ser corrigidos.

A minha sobrinha de catorze anos disse-me que, se o Brasil era uma potência em ascensão, isso se devia aos portugueses, que o descobriram e o livraram do seu primitivismo. É claro que ela terá tempo para adquirir uma outra consciência cívica, mas, para as Helenas Matos deste mundo, que se preocupam com a terrível lavagem ao cérebro ideológica que a escola pública faz às criancinhas, este falhanço na doutrinação deve ser um alívio. E de facto, os negros africanos, depois de séculos de sujeição à escravatura, até nem se estão a dar mal. As merdas de nações nas quais o colonialismo os fez desembocar poderiam cheirar muito pior. Teriam direito a isso. De resto, os milagres económicos que aí se anunciam (Brasil, Índia, China, Angola) são o passo decisivo e último da colonização. Temo o pior: para os paralíticos que começam a andar (basta ver a total falta de inteligência económica da exploração da Amazónia; mas o capitalismo, que baseia o seu dinamismo nas estratégias do lucro, não contempla, por definição, a preocupação com o longo prazo), e para os caminhantes a quem vão partir as pernas (parece que é preciso que os europeus voltem a ser pobres para se tornarem competitivos).

Acima de tudo, ser de esquerda é ter a certeza, ao contrário do que dizem os militantes de direita, de que outras sociedades são possíveis. Dizem-nos que não, que só há o capitalismo, e que só o capitalismo funciona, mas essas outras sociedades existiram, e funcionaram, e bem. Geralmente, a devoção assanhada ao capitalismo deve-se ao medo do comunismo. Meus caros, eu não enfio tal carapuça: os comunistas são copinhos de leite perante a intuição de liberdade que eu trago no meu pensamento.

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