sábado, outubro 16, 2010

O INACTUAL 53

"My darling Clementine" - John Ford (1946)



Fala-se mais do 25 de Abril que do 26 de Abril, mais do 27 que deste último, e assim sucessivamente, até chegarmos aqui sem sabermos por que aqui estamos. John Ford, fazedor de westerns, optou por contrariar a podridão que sempre se apodera de um estado de coisas burguês precisamente através do recuo até aos momentos fundadores da sua nação.

Shakespeare in Tombstone significa uma cirurgia médica realizada nos aposentos de um saloon, ou os esqueletos de uma igreja e de um baile montados sobre a aridez de um descampado. Estou certo de que qualquer anarquista compreenderá, mesmo que com isso não concorde, este poder de evidência que os primeiros esforços de uma ordem trazem consigo. O desejo rimbaldiano de dilúvio só difere no timing da esperança de civilização.

"My darling Clementine" é um filme em que os personagens têm de aprender a distinguir os duelos aparentes (entre Wyatt e Doc, entre Clementine e Chihuahua) daqueles que, de facto, implicam uma oposição (a família Earp contra a família Clanton). Os primeiros resolvem-se à conversa, os outros, não. De qualquer modo, a crueldade épica de Ford é tanta que todo o negativo que existe na pequena cidade desejosa de urbanismo tem de ser erradicado, mesmo que esse negativo esteja destituído de um dolo: Doc Holliday, o fascinado pela morte, tem de falhar e tem de morrer. A construção, a caminhada não pode parar.

A mais bela cena do filme é a caminhada do ainda-não-par Wyatt e Clementine em direcção ao baile no adro da ainda-não-igreja. Só isso: caminhada que tanto revela uma convicção firme como a inaptidão para a solenidade. Aliás, o humor fordiano não funciona como mero comic relief, antes sinaliza a resistência do humano a toda a institucionalização. São pessoas que ali estão, pessoas de verdade, tão imperfeitas quanto disponíveis.

O filme apoia-se na magistral composição de Henry Fonda, muito mais expressivo do que todos os John Waynes: rudeza sem maldade, timidez, sageza não literata, ética sem vacilação. O outro trunfo de "My darling Clementine" é o virtuosismo do cineasta na construção de cenas de género. Mesmo que este seja um dos seus filmes de argumento mais clássico (como "Stagecoach" ou "The man who shot Liberty Valance"), a sua poesia deve muito mais à indulgência que Ford mostrou naquelas obras em que quase só acumula, de forma semi-invertebrada, as acções antropológicas que o apaixonam (desde a cena de pancadaria até ao cortejo fúnebre). Tudo se resolve na força da encenação.

Não conheço ninguém, não conheço mesmo ninguém, para quem uma ideologia seja menos relevante do que a generosidade ética na execução de um pensamento. Estamos todos presos aos clubismos das nossas convicções apriorísticas. John Ford obriga-me a ser melhor: ele é um conservador, pela sua cabeça andarão Deus-pátria-família e outras fórmulas que não estimo, e, no entanto, eu preferiria que as rédeas do meu país lhe fossem entregues a ele, e não a Pier Paolo Pasolini.

Ford sabia que não há início que não seja fundado sobre uma perda, sobre uma tristeza. O amor de Wyatt e Clementine começa por uma separação.



Obs.: Sem querer branquear excessivamente a sua obra, parece-me que o racismo perante o povo índio latente em alguns dos filmes de Ford se deve essencialmente à normatividade do western e ao desejo de caracterizar com fidelidade os personagens da época desse género. De qualquer modo, o autor realizou algumas obras dedicadas à dignidade dos nativos norte-americanos.

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