quarta-feira, outubro 06, 2010

O INACTUAL 52

"L'avventura" - Michelangelo Antonioni (1960)



Uma das motivações que estão por trás da originalidade visual do trabalho de Antonioni é a necessidade que ele sentiu de problematizar a relação do humano com o seu cenário de digressão, qual figure in a landscape. Ao contrário da sensibilidade clássica de John Ford ou da mise en scène alegórica de Theo Angelopoulos, o cineasta italiano não pretende atingir imagens de harmonia. Muito pelo contrário, o que se pretende destacar é a especificidade frágil do homem em contraste com as maciças evidências das construções que o circundam. Daí a célebre inventividade dos enquadramentos (comparável à de um Godard), constantemente obrigando o espectador a tomar consciência da dissonância antropológica.

Em "L'avventura", os personagens deambulam por entre as construções de e para Deus. Na localidade de Noto, Sandro menciona que os edifícios religiosos do passado eram levantados com o propósito de durarem séculos. Mas a magnífica ilha selvagem onde aporta o grupo de ociosos em cruzeiro é uma construção divina destinada a durar ainda mais tempo do que a própria arquitectura devocional (noutros filmes, Antonioni falará da paisagem contemporânea). Ora, a modernidade que o realizador pretende registar caracteriza-se pela extrema efemeridade de todas as ambições e concretizações humanas. A pintura antonioniana retira assim a sua razão generativa desta décalage temporal.

Mas por que motivo já não conseguem os homens erigir catedrais? A ficção que o filme desenvolve revela a impossibilidade do presente dar resposta à questão do desaparecimento. É claro que, meio século passado sobre esta obra-prima, o cinema continua a anacronicamente resolver todos os mistérios policiais para os quais o empurram os seus ditames mercantis. Mas Antonioni não explica o que aconteceu a Anna. O seu desaparecimento, apesar de se confundir metaforicamente com a magnificência da já mencionada ilha, não tem qualquer solução à vista.

Ora, a partir do momento em que os homens deixam de considerar metafisicamente o conceito de ausência, a presença adquire um poder de persuasão tirânico. A quase felliniana cena em que dezenas de homens tresloucados perseguem uma prostituta de luxo demonstra de forma exemplar esta forma de ignorância profundamente nova. Perdida a ciência da ausência, o amor torna-se impossível: o filme atinge uma espécie de surrealismo discreto ao mostrar, de forma absurda, como bastam uns instantes sem o corpo supostamente amado, para que o corpo supostamente amante encontre novo interesse relacional.

Não quer isto dizer que Antonioni advogue um regresso à fé religiosa. A sua ideologia impediria esse saudosismo. A sua vaga proposta de solução surgirá no filme "Blow up", na deslumbrante cena da partida de ténis sem bola, em que o autor defende que o sentido deve ser, acima de tudo, vontade de sentido. A ausência pode ser, portanto, um instrumento de trabalho. Como Rimbaud, talvez Antonioni tenha pressintido que o amor precisa de ser reinventado. No fim de "Identificazione di una donna", uma nave espacial parte em aventura: poderemos descobrir-inventar um artigo que não seja definido nem indefinido?

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