sábado, outubro 30, 2010

Partilha 103

féerie terciária


quero ser uma bola
entre verdasco e nadal
a ser mártir que seja por razão sexual
uma antígona esmagada
escrevendo uma valsa pornográfica
que principia assim:
as linhas paralelas só se encontram no infinito

a verdade é que me quero casar
com toda a gente que quero foder
a política
é dizer o mesmo a todos:
como não consigo ganhar
tudo aquilo que servi
entra em mim e na minha vida como um f.m.i.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Soigne ta gauche

Quando, durante o debate nacional em torno da questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, Agustina Bessa-Luís defendeu uma previsível posição conservadora, houve quem lhe tivesse respondido com insultos ao seu trabalho literário. Do estilo: essa senhora, que nem sequer é boa escritora, não tem autoridade para dizer tal enormidade.

Não incorrerei em igual baixeza neste post. Por isso, começo por confessar que nunca li a obra do poeta Ferreira Gullar, e que a minha vontade de objectar a uma ideia pela qual ele pugnou numa entrevista conduzida pela jornalista Alexandra Lucas Coelho, resulta de um exercício de cidadania e não se confunde com qualquer crítica literária. A sua eventual excelência como escritor não está aqui em causa.

O que me incomodou, na já mencionada entrevista, foi o facto de o autor brasileiro ter defendido que, após o falhanço das ditaduras comunistas, ninguém se podia considerar "de esquerda". Não me deterei nas suas ideias sobre Lula da Silva, pois ele terá muito mais autoridade do que eu para as defender, já que vive numa proximidade com a política do seu país com a qual eu não posso competir. Por outro lado, o tema "esquerda" é suficientemente lato para exigir a generosidade de um denso livro que o tente abarcar. Pretendo apenas formular uma razão pela qual vale a pena, hoje, manter aquela filiação ideológica, uma razão que tem tudo a ver com o Brasil.

Quando eu continuo a dizer que sou "de esquerda", pretendo, entre muitas outras coisas, fazer finca-pé na ideia de que as sociedades africanas e americanas que foram colonizadas pelos europeus após a brecha aberta pela expansão ultramarina portuguesa não só não eram sociedades inferiores aos seus visitantes opressores, como foram irremediavelmente prejudicadas pela colonização.

Parece-me evidente que o mundo europeu tinha algumas superioridades: a nível bélico (o apogeu disso foi atingido em Hiroxima, um grande orgulho, sim senhor), a nível científico (e contudo, é constrangedor que a sofisticação da ciência não tenha conseguido anular o fundamentalismo religioso no mundo ocidental, tendo nós hoje de assistir à miséria intelectual do criacionismo), a nível do pensamento abstracto. No entanto, a antropologia, a sociologia e a história já provaram que muitas dessas sociedades de "primitivos" viviam uma espécie de equilíbrio cívico notável que os europeus não foram capazes de compreender.

As vidas dos índios da Amazónia seriam vidas duras, já que a natureza com a qual tinham de se confrontar não era passível de uma dominação fácil, mas decorriam em ambientes de ética sofisticadíssima. Na tribo dos Bororo, por exemplo, a ausência de sistemas institucionalizados de punição criminal era paralela a uma quase ausência de crime na comunidade. No ocidente, após páginas e páginas e milénios e milénios de religião, moral e direito, o que podemos constatar é uma espécie de imparável esplendor da corrupção, aberta a todas as mutações e a todos os requintes. Basta dizer que, nos Estados Unidos da América, ainda existe a pena de morte...

Não quer dizer que essas sociedades fossem perfeitas (os aztecas, por exemplo, faziam sacrifícios humanos), nem que tivéssemos de nos rever nas suas culturas. Agora, o facto de nelas existir um equilíbrio comunitário notável é um facto insofismável. Não eram mundos que precisassem de ser corrigidos.

A minha sobrinha de catorze anos disse-me que, se o Brasil era uma potência em ascensão, isso se devia aos portugueses, que o descobriram e o livraram do seu primitivismo. É claro que ela terá tempo para adquirir uma outra consciência cívica, mas, para as Helenas Matos deste mundo, que se preocupam com a terrível lavagem ao cérebro ideológica que a escola pública faz às criancinhas, este falhanço na doutrinação deve ser um alívio. E de facto, os negros africanos, depois de séculos de sujeição à escravatura, até nem se estão a dar mal. As merdas de nações nas quais o colonialismo os fez desembocar poderiam cheirar muito pior. Teriam direito a isso. De resto, os milagres económicos que aí se anunciam (Brasil, Índia, China, Angola) são o passo decisivo e último da colonização. Temo o pior: para os paralíticos que começam a andar (basta ver a total falta de inteligência económica da exploração da Amazónia; mas o capitalismo, que baseia o seu dinamismo nas estratégias do lucro, não contempla, por definição, a preocupação com o longo prazo), e para os caminhantes a quem vão partir as pernas (parece que é preciso que os europeus voltem a ser pobres para se tornarem competitivos).

Acima de tudo, ser de esquerda é ter a certeza, ao contrário do que dizem os militantes de direita, de que outras sociedades são possíveis. Dizem-nos que não, que só há o capitalismo, e que só o capitalismo funciona, mas essas outras sociedades existiram, e funcionaram, e bem. Geralmente, a devoção assanhada ao capitalismo deve-se ao medo do comunismo. Meus caros, eu não enfio tal carapuça: os comunistas são copinhos de leite perante a intuição de liberdade que eu trago no meu pensamento.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Partilha 102

não se deite logo após a ceia


diz-se
que por causa da grécia
(é sempre a mesma desculpa)
nos vão tirar o décimo terceiro mês
e o subsídio de férias
mas eu preferia perder o natal
(ou as agências de viagem)

não sei
se a associação americana de psiquiatria
já considera uma doença mental
o desejo de beber água
quando há quarenta graus à sombra
mas é mais dia
.............................menos âncora



Nota: como é óbvio, este texto foi esboçado há vários meses atrás.

segunda-feira, outubro 18, 2010

A partir de agora...

... vou animar um terceiro site pessoal: três escrínios.

Será o espaço de pré-publicação de um livro de poesia composto por uma série de cem variações a partir de um poema em prosa de Jean-Arthur Rimbaud.

Embora pressinta que esteja a abusar da disponibilidade dos meus eventuais leitores, agradeço desde já as visitas que possam fazer ao texto.

sábado, outubro 16, 2010

My Darling Clementine (Barber & Church Dance Scenes)

"My darling Clementine" - imagem

O INACTUAL 53

"My darling Clementine" - John Ford (1946)



Fala-se mais do 25 de Abril que do 26 de Abril, mais do 27 que deste último, e assim sucessivamente, até chegarmos aqui sem sabermos por que aqui estamos. John Ford, fazedor de westerns, optou por contrariar a podridão que sempre se apodera de um estado de coisas burguês precisamente através do recuo até aos momentos fundadores da sua nação.

Shakespeare in Tombstone significa uma cirurgia médica realizada nos aposentos de um saloon, ou os esqueletos de uma igreja e de um baile montados sobre a aridez de um descampado. Estou certo de que qualquer anarquista compreenderá, mesmo que com isso não concorde, este poder de evidência que os primeiros esforços de uma ordem trazem consigo. O desejo rimbaldiano de dilúvio só difere no timing da esperança de civilização.

"My darling Clementine" é um filme em que os personagens têm de aprender a distinguir os duelos aparentes (entre Wyatt e Doc, entre Clementine e Chihuahua) daqueles que, de facto, implicam uma oposição (a família Earp contra a família Clanton). Os primeiros resolvem-se à conversa, os outros, não. De qualquer modo, a crueldade épica de Ford é tanta que todo o negativo que existe na pequena cidade desejosa de urbanismo tem de ser erradicado, mesmo que esse negativo esteja destituído de um dolo: Doc Holliday, o fascinado pela morte, tem de falhar e tem de morrer. A construção, a caminhada não pode parar.

A mais bela cena do filme é a caminhada do ainda-não-par Wyatt e Clementine em direcção ao baile no adro da ainda-não-igreja. Só isso: caminhada que tanto revela uma convicção firme como a inaptidão para a solenidade. Aliás, o humor fordiano não funciona como mero comic relief, antes sinaliza a resistência do humano a toda a institucionalização. São pessoas que ali estão, pessoas de verdade, tão imperfeitas quanto disponíveis.

O filme apoia-se na magistral composição de Henry Fonda, muito mais expressivo do que todos os John Waynes: rudeza sem maldade, timidez, sageza não literata, ética sem vacilação. O outro trunfo de "My darling Clementine" é o virtuosismo do cineasta na construção de cenas de género. Mesmo que este seja um dos seus filmes de argumento mais clássico (como "Stagecoach" ou "The man who shot Liberty Valance"), a sua poesia deve muito mais à indulgência que Ford mostrou naquelas obras em que quase só acumula, de forma semi-invertebrada, as acções antropológicas que o apaixonam (desde a cena de pancadaria até ao cortejo fúnebre). Tudo se resolve na força da encenação.

Não conheço ninguém, não conheço mesmo ninguém, para quem uma ideologia seja menos relevante do que a generosidade ética na execução de um pensamento. Estamos todos presos aos clubismos das nossas convicções apriorísticas. John Ford obriga-me a ser melhor: ele é um conservador, pela sua cabeça andarão Deus-pátria-família e outras fórmulas que não estimo, e, no entanto, eu preferiria que as rédeas do meu país lhe fossem entregues a ele, e não a Pier Paolo Pasolini.

Ford sabia que não há início que não seja fundado sobre uma perda, sobre uma tristeza. O amor de Wyatt e Clementine começa por uma separação.



Obs.: Sem querer branquear excessivamente a sua obra, parece-me que o racismo perante o povo índio latente em alguns dos filmes de Ford se deve essencialmente à normatividade do western e ao desejo de caracterizar com fidelidade os personagens da época desse género. De qualquer modo, o autor realizou algumas obras dedicadas à dignidade dos nativos norte-americanos.

domingo, outubro 10, 2010

Irritações

1. Um dos argumentos evocados por aqueles que pretendiam evitar a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo era o facto de a maioria dos portugueses não estar de acordo com esse passo jurídico. Curiosamente, embora esta mudança tenha, de facto, repercussões culturais de alguma dimensão (por minha parte, considero-as benéficas), a verdade é que ninguém fica obrigado a um casamento homossexual, nem a ser homossexual, nem sequer a simpatizar com homossexuais: basta uma atitude de respeito dentro dos limites da legalidade. Ora, no caso das recentes medidas de austeridade económica anunciadas pelo Primeiro Ministro, os conservadores dizem agora que elas têm de ser impostas a despeito de todas as greves gerais, por mais expressivas que elas sejam. Para além da incoerência ética desta maneira de relativizar o respeito pela suposta vontade dessa entidade de costas largas que é o povo, parece que é quando uma disposição governativa tem de facto, e de modo inequívoco, repercussões na vida das pessoas, que a vontade destas deixa de ser relevante.


2. Temos ainda hoje a impressão de que haveria alguma forma de harmonia política na Atenas mítica do passado. Nunca saberemos se tal harmonia não terá sido bem mais mítica do que real, mas temos textos (verbais e não só) suficientes para podermos reconhecer nessa civilização uma inteligência de vida em comum assaz surpreendente. Há, contudo, um dado que nunca costuma ser salientado quando se fala da Grécia antiga: é que a unidade colectiva era a cidade, e não o país. A dimensão é um problema ao qual os pensamentos não têm concedido grande relevo e, no entanto, ele parece ser mais decisivo na vida efectiva do que muitos outros factores. Numa cidade (de dimensão moderada, claro, Atenas não era as actuais São Paulo ou cidade do México), o homem é capaz de cobrir fisicamente todo o espaço público e de contactar, pelo menos a um nível visual, com todos os indivíduos que compõem a comunidade. O número reduzido de pessoas tentando viver juntas, a especificidade dos problemas que lhes são colocados, a flexibilidade ágil com que as soluções podem ser experimentadas, são factores nada despiciendos do sucesso potencial de qualquer projecto. Tente-se resolver os problemas de dez pessoas e tente-se resolver os problemas de mil... Na época da Aldeia Global, eu vou fundar um partido bizarro: o Partido das Cidades-Estado. Se ele há maluquinhos a pugnar pela monarquia, por que não hei-de eu defender um colectivo ao alcance do indivíduo?


3. As tecnologias exercem um poder de sedução rápido, brutal, tirânico mesmo. A sua utilidade é inquestionável: como pudemos alguma vez viver sem electricidade? Eu, que adoro cinema e escrevo num blogue, sou o último a poder denegrir a importância da tecnologia. Mas, francamente, parece-me hoje que o futurismo foi um movimento intelectual bem mais ingénuo do que o surrealismo. Precisamente por que a máquina é viciante, sufocante no seu apelo, como as drogas duras ou o tabaco, aderimos a cada novo passo em frente na tecnologia sem pensarmos duas vezes. Ou seja, como tudo na vida, a tecnologia só é verdadeiramente benéfica se utilizada com a devida moderação. Que o automóvel tenha feito as distâncias mais pequenas, isso é belo como a Vitória de Samotrácia! Mas que nos tenha facilitado a propensão para uma preguiça totalmente desadequada à nossa verdade biológica, que tenha poluído o mundo em níveis absolutamente escandalosos, que tenha destruído toda a noção de comunidade física (podemos hoje trabalhar, dormir e descontrair em locais que distam quilómetros uns dos outros), que nos obrigue a uma infinidade de (mais) créditos bancários, nada disso será defensável para a maioria das pessoas, se por acaso tomarem algum tempo para reflectir. Só que as distopias de ficção científica não falam do futuro: as máquinas já mandam, agora, em todos nós. Gostaria de ouvir o que o Marinetti teria hoje para dizer...

quarta-feira, outubro 06, 2010

PUB

"L'avventura" - imagem

O INACTUAL 52

"L'avventura" - Michelangelo Antonioni (1960)



Uma das motivações que estão por trás da originalidade visual do trabalho de Antonioni é a necessidade que ele sentiu de problematizar a relação do humano com o seu cenário de digressão, qual figure in a landscape. Ao contrário da sensibilidade clássica de John Ford ou da mise en scène alegórica de Theo Angelopoulos, o cineasta italiano não pretende atingir imagens de harmonia. Muito pelo contrário, o que se pretende destacar é a especificidade frágil do homem em contraste com as maciças evidências das construções que o circundam. Daí a célebre inventividade dos enquadramentos (comparável à de um Godard), constantemente obrigando o espectador a tomar consciência da dissonância antropológica.

Em "L'avventura", os personagens deambulam por entre as construções de e para Deus. Na localidade de Noto, Sandro menciona que os edifícios religiosos do passado eram levantados com o propósito de durarem séculos. Mas a magnífica ilha selvagem onde aporta o grupo de ociosos em cruzeiro é uma construção divina destinada a durar ainda mais tempo do que a própria arquitectura devocional (noutros filmes, Antonioni falará da paisagem contemporânea). Ora, a modernidade que o realizador pretende registar caracteriza-se pela extrema efemeridade de todas as ambições e concretizações humanas. A pintura antonioniana retira assim a sua razão generativa desta décalage temporal.

Mas por que motivo já não conseguem os homens erigir catedrais? A ficção que o filme desenvolve revela a impossibilidade do presente dar resposta à questão do desaparecimento. É claro que, meio século passado sobre esta obra-prima, o cinema continua a anacronicamente resolver todos os mistérios policiais para os quais o empurram os seus ditames mercantis. Mas Antonioni não explica o que aconteceu a Anna. O seu desaparecimento, apesar de se confundir metaforicamente com a magnificência da já mencionada ilha, não tem qualquer solução à vista.

Ora, a partir do momento em que os homens deixam de considerar metafisicamente o conceito de ausência, a presença adquire um poder de persuasão tirânico. A quase felliniana cena em que dezenas de homens tresloucados perseguem uma prostituta de luxo demonstra de forma exemplar esta forma de ignorância profundamente nova. Perdida a ciência da ausência, o amor torna-se impossível: o filme atinge uma espécie de surrealismo discreto ao mostrar, de forma absurda, como bastam uns instantes sem o corpo supostamente amado, para que o corpo supostamente amante encontre novo interesse relacional.

Não quer isto dizer que Antonioni advogue um regresso à fé religiosa. A sua ideologia impediria esse saudosismo. A sua vaga proposta de solução surgirá no filme "Blow up", na deslumbrante cena da partida de ténis sem bola, em que o autor defende que o sentido deve ser, acima de tudo, vontade de sentido. A ausência pode ser, portanto, um instrumento de trabalho. Como Rimbaud, talvez Antonioni tenha pressintido que o amor precisa de ser reinventado. No fim de "Identificazione di una donna", uma nave espacial parte em aventura: poderemos descobrir-inventar um artigo que não seja definido nem indefinido?

sábado, outubro 02, 2010

Partilha 101

teia de aranha



gostava
que a minha poesia suasse
como melodia de nino rota
tocada numa tiorba
durante o lento banho
da imperatriz
yang kwei-fei

eu e a adília lopes
escrevemos poesia
de grande teor sexual
mas desconfio
(embora não tenha a certeza)
de que em ambos os casos será mais a viuvez branca
do que a pândega real

Partilha 100

em obras (setembro)



com essa caixa de ressonância
pareces uma puta sem patrão
da rua de betelgeuse

(tr)
ah, não fosse eu estar num desconserto
e preparava-te essa cona

como manda a lei de titius-bode

p'ra a manuela araújo
(professora do conservatório)
tocar cravo
era o mesmo que bater punhetas a grilos
ora, segundo a minha poética
estes chistes são menos cómicos
do que líricos


(tr - abreviatura de "assobio segundo a estilística do trolha")

Partilha 99

menu de degustação



certos rapazes são relíquias
aqui deixadas por heróis, por santos ou por deuses
(dada a solar proximidade
uma madeixa site specific,
rebentação do céu no olhar,
um sexo ao alto que convida
a uma promessa em genuflexão)

como é difícil
a arte de fazer lacinhos
sempre admirei aquelas mulheres
que com recurso a uma simples tesoura
fazem, das fitas, ornamentos
das fugalaças
paramentos