domingo, setembro 19, 2010

O INACTUAL 51

"Design for living" - Ernst Lubitsch (1933)


Exactamente ao contrário de "Angel", este filme do expatriado alemão em Hollywood propõe um retrato de mulher a partir dos retratos que ela pretende traçar. A obra começa, aliás, com a tentativa de Gilda esboçar desenhos dos dois desconhecidos cuja vida ela em breve revolucionará. Ora, quem é na verdade retratado é a própria Gilda (uma divertidíssima Miriam Hopkins), já que os dois homens não passam de clichés. E é o retrato de uma mulher que pretende viver a sexualidade contra os pressupostos da moral convencional. Com uma leveza de puro júbilo.

Também como no anterior Lubitsch programado pelo Teatro do Campo Alegre, o que aqui se encena é a fantasia do ménage à trois. No entanto, o que releva em "Design for living" é a constatação de que não se pode mudar de contexto social mantendo o mesmo esquema de moralidade. Note-se que não digo "classe social", porque esta é apenas parte do contexto a que me refiro. A verdade é que também há uma alta sociedade debochada e uma miséria puritana. Mas o que Lubitsch sinaliza é que cada conjunto de valores está directamente dependente do ecossistema que o produziu, e por isso não pode ser levianamente transportado sem se diluir: logo que um dos homens tem sucesso, o trio deixa de ser possível.

O grande interdito do filme é, claro, o casamento. Naquela que será uma das mais brilhantes cenas da fita (que não deve pertencer ao texto dramático de Noel Coward que está na base do argumento, de tal modo ela é típica do realizador), vemos Gilda e o seu futuro marido entrarem numa montra e decidirem da compra de uma cama após terem medido a largura de cada um dos seus corpos. Haverá maior ausência de erotismo do que esta pantomima, e no entanto, não é ela que cria no espectador a convicção de que um matrimónio está na calha?

Lubitsch é um propagandista. Um propagandista da amoralidade no prazer ("Ninotchka" ridiculariza a União Soviética precisamente por causa do seu cinzentismo sensual). Recentemente vi o muito interessante filme "Go get some rosemary" dos irmãos Safdie, e nele, a ausência de comportamento burguês por parte do protagonista masculino era vista como um interdito à possibilidade de levar uma vida satisfatória. Tratava-se de um personagem encantador, é certo, mas com o qual era praticamente impossível conviver. O que teremos perdido desde o cinema anterior aos anos quarenta? O que terá mudado? Ter-nos-emos tornado todos conservadores, ou este mundo de democracia liberal nos mantém encerrados numa armadilha invisível? Enfim, no presente estamos condenados a ver "Design for living" como uma brincadeira leve, quando, na verdade, o filme contém uma proposta experimental, de verdadeiro design da vida.

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