quinta-feira, setembro 09, 2010

O INACTUAL 50

"Angel" - Ernst Lubitsch (1937)



Nada será tão prejudicial a um realizador de cinema como a sua capacidade para filmar tudo, ou seja, para funcionar como um excelente profissional. O que normalmente faz a diferença numa obra é precisamente aquela sua porção que o autor, por não a conseguir dominar, contorna através de uma afirmação excessiva das suas verdadeiras competências. Claro que essa incompetência parcial é sempre fruto de uma opção, ainda que se trate de uma opção apenas semi-consciente e usualmente descoberta de forma bastante gradual. É uma vaidade que, de resto, o falsário desconhece.

Ao longo da evolução da sua carreira, Ernst Lubitsch foi-se tornando mestre da incapacidade para mostrar. Tudo o que em "Angel" é putativa exibição de sinceridade redunda em diálogos de um sentimentalismo assaz medíocre. Em compensação, quando o realizador mostra os bastidores, os reflexos, os ecos ou os contracampos da acção principal, o seu cinema atinge um grande nível de intocada originalidade.

Quero crer que o "Lubitsch's touch" não se refere tanto à sofisticação geralmente atribuída ao cineasta (equívoco que se deve ao seu virtuosismo na encenação das classes sociais mais altas), mas a este sistema plenamente dominado de apenas filmar a tangente de um filme, mais do que o filme em si. De qualquer modo, a referência à alta sociedade é essencial para entender estes personagens que só se conseguem exprimir realmente através de um sistema de códigos tão ritualizados quanto resistentes ao confronto efectivo.

Em "Angel", a estratégia está ao serviço de uma leitura de Marlene Dietrich. A obra prolonga a imagem que Josef von Sternberg havia criado no seu ciclo com esta vedeta, que é a imagem da mulher dupla, ou mesmo dúplice, a mulher que destrói a rigidez das evidências morais entre as quais balança. Faz parte da cultura do homem religioso e/ou burguês a profunda falta de imaginação e de liberdade para lidar com uma tensão eterna: a necessidade de construir uma relação sentimental estável e a violência da fidelidade sexual. O binómio puta/virgem terá sido a resposta mais imbecil que foi encontrada. No seu glorioso último filme, "Cet obscur objet du désir", Luis Buñuel ironiza este preconceito ao ponto de fazer a sua personagem feminina ser representada por duas actrizes diferentes. Ora, "Cet obscur objet du désir" é uma releitura do mesmo romance que inspirou "The devil is a woman", de von Sternberg, com a Dietrich.

Muito antes da ousadia do surrealista espanhol, Lubitsch assume não filmar a mulher (Marlene é apenas um ícone de cinema) e cinde a projecção da sua moralidade nos dois personagens masculinos que a olham. Um dos homens entende a mulher em questão como sendo uma esposa sem contencioso, o outro vê-a como um anjo de perfeição. Na verdade, trata-se de uma mulher negligenciada pelo marido que recorre a bordéis chiques para tentar compensar a frustração. Estão ambos errados, e o erro em que ela tem de viver tem a autoria plena dos homens que a inventam contra a sua própria vontade.

Há um momento no filme em que a personagem de Marlene pede ao seu marido para ele não querer saber a verdade toda sobre o enredo em que ambos se ensarilharam, de modo a poderem continuar a viver a mentira do casamento. Mas não é bem isso que Lubitsch pretende. Ele quer fazer-nos aceitar uma saudável amoralidade, para que o casamento não seja uma mentira mas sim uma tolerância sem ilusão. No último plano do filme, Marlene avança para junto do marido, sem ouvirmos o som da a porta que ela teve de abrir e fechar, e sem ouvirmos os seus passos. Ela tornou-se, de facto, um anjo, porque os anjos têm sexo para o amor.

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