segunda-feira, setembro 27, 2010

Dickinson, um pouco mais complexa

Emily Dickinson não encontrou, neste mundo, uma satisfação capaz de se comparar à intuição que a Natureza dá de um Paraíso. No entanto, não era uma mulher de fé. Não posso jurar pelo seu ateísmo ou por um eventual agnosticismo, mas tenho pelo menos a certeza de que uma firme crença religiosa não era compatível com o seu tipo de orgulho intelectual. O que fazer, então, com a convicção do absoluto, com esse presságio sensório de uma Inteireza que talvez não passe de mitologia colossal? Compreendo-a como ninguém.

A sua resposta biográfica a este problema (decidiu, a partir de certa idade, não mais abandonar a sua casa - literalmente!) não me parece isenta de alguma patologia psíquica. A sua poesia, contudo, quase não pactua com essas zonas de sombra. Ao contrário do que acontece com Rimbaud, para quem o inferno quase constante foi também uma estação por comparação com, não há imundície nem vagabundagem no lirismo da celibatária de Amherst. Apenas uma rebeldia de criança lúcida, uma imaginação espontânea e inesgotável, e um conhecimento ignorante da vida que nos abala até à mais desarmada sinceridade.



"This is my Letter to the World,
That never wrote to Me -
The simple News that Nature told -
With tender Majesty"

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