quarta-feira, setembro 29, 2010

Galeria 51



Emily Dickinson

Fragmentário de Miss Dickinson

"I dwell in Possibility -
A fairer House than Prose -

More numerous of Windows -

Superior - for Doors -"


"I lost a World - the other day!

Has Anybody found?

You'll know it by the Row of Stars

Around its forehead bound."


"It was given to me by the Gods -

When I was a little Girl -
They give us Presents most - you know -

When you are new - and small."



"Parting is all we know of heaven,
And all we need of hell."


"Success is counted sweetest
By those who ne'er succeeded.

To comprehend a nectar

Requires sorest need."


"That Love is all there is,

Is all we know of Love;"


"The Grass so little has to do -

A Sphere of simple Green -
With only Butterflies to brood

And Bees to entertain -"



"The Soul selects her own Society -

Then - shuts the Door -

To her divine Majority -

Present no more -"



"Why - do they shut Me out of Heaven?

Did I sing - too loud?"

segunda-feira, setembro 27, 2010

Dickinson, um pouco mais complexa

Emily Dickinson não encontrou, neste mundo, uma satisfação capaz de se comparar à intuição que a Natureza dá de um Paraíso. No entanto, não era uma mulher de fé. Não posso jurar pelo seu ateísmo ou por um eventual agnosticismo, mas tenho pelo menos a certeza de que uma firme crença religiosa não era compatível com o seu tipo de orgulho intelectual. O que fazer, então, com a convicção do absoluto, com esse presságio sensório de uma Inteireza que talvez não passe de mitologia colossal? Compreendo-a como ninguém.

A sua resposta biográfica a este problema (decidiu, a partir de certa idade, não mais abandonar a sua casa - literalmente!) não me parece isenta de alguma patologia psíquica. A sua poesia, contudo, quase não pactua com essas zonas de sombra. Ao contrário do que acontece com Rimbaud, para quem o inferno quase constante foi também uma estação por comparação com, não há imundície nem vagabundagem no lirismo da celibatária de Amherst. Apenas uma rebeldia de criança lúcida, uma imaginação espontânea e inesgotável, e um conhecimento ignorante da vida que nos abala até à mais desarmada sinceridade.



"This is my Letter to the World,
That never wrote to Me -
The simple News that Nature told -
With tender Majesty"

sábado, setembro 25, 2010

domingo, setembro 19, 2010

"Design for living" - imagem

O INACTUAL 51

"Design for living" - Ernst Lubitsch (1933)


Exactamente ao contrário de "Angel", este filme do expatriado alemão em Hollywood propõe um retrato de mulher a partir dos retratos que ela pretende traçar. A obra começa, aliás, com a tentativa de Gilda esboçar desenhos dos dois desconhecidos cuja vida ela em breve revolucionará. Ora, quem é na verdade retratado é a própria Gilda (uma divertidíssima Miriam Hopkins), já que os dois homens não passam de clichés. E é o retrato de uma mulher que pretende viver a sexualidade contra os pressupostos da moral convencional. Com uma leveza de puro júbilo.

Também como no anterior Lubitsch programado pelo Teatro do Campo Alegre, o que aqui se encena é a fantasia do ménage à trois. No entanto, o que releva em "Design for living" é a constatação de que não se pode mudar de contexto social mantendo o mesmo esquema de moralidade. Note-se que não digo "classe social", porque esta é apenas parte do contexto a que me refiro. A verdade é que também há uma alta sociedade debochada e uma miséria puritana. Mas o que Lubitsch sinaliza é que cada conjunto de valores está directamente dependente do ecossistema que o produziu, e por isso não pode ser levianamente transportado sem se diluir: logo que um dos homens tem sucesso, o trio deixa de ser possível.

O grande interdito do filme é, claro, o casamento. Naquela que será uma das mais brilhantes cenas da fita (que não deve pertencer ao texto dramático de Noel Coward que está na base do argumento, de tal modo ela é típica do realizador), vemos Gilda e o seu futuro marido entrarem numa montra e decidirem da compra de uma cama após terem medido a largura de cada um dos seus corpos. Haverá maior ausência de erotismo do que esta pantomima, e no entanto, não é ela que cria no espectador a convicção de que um matrimónio está na calha?

Lubitsch é um propagandista. Um propagandista da amoralidade no prazer ("Ninotchka" ridiculariza a União Soviética precisamente por causa do seu cinzentismo sensual). Recentemente vi o muito interessante filme "Go get some rosemary" dos irmãos Safdie, e nele, a ausência de comportamento burguês por parte do protagonista masculino era vista como um interdito à possibilidade de levar uma vida satisfatória. Tratava-se de um personagem encantador, é certo, mas com o qual era praticamente impossível conviver. O que teremos perdido desde o cinema anterior aos anos quarenta? O que terá mudado? Ter-nos-emos tornado todos conservadores, ou este mundo de democracia liberal nos mantém encerrados numa armadilha invisível? Enfim, no presente estamos condenados a ver "Design for living" como uma brincadeira leve, quando, na verdade, o filme contém uma proposta experimental, de verdadeiro design da vida.

Partilha 98

voz de bruno ganz



(e=76)

e então, deus teve de cobrir o mundo



mas como deus é um senhor
quis cobri-lo com método e elegância
e perguntou deus:
o mar, como hei-de cobri-lo................................
com hijab ou com niqab?................................
(e viu deus que a pergunta era boa
e que era bom dizer aquelas palavras)
é o mar só cabelo e pescoço................................
ou rosto inteiro à excepção do olhar?................................

e como há-de deus cobrir a imagem
de mademoiselle caroline rivière
a olhar para nós há mais de dois séculos
desde as galerias do musée du louvre?
(assunto bem sério, este)
talvez um chador de ar puro e fresco
para adiar a burqa durante um ano mais...

[e hei-de eu deixar que me cubram a alma
como se ela fosse carne para canção?
ou tenho o rasgo de um anti-christo
e dou à luz a revelação?]


quarta-feira, setembro 15, 2010

I had not thought song had undone so many

Espero conseguir escrever este post sem cair na misantropia do Vasco Pulido Valente ou no puritanismo do Diácono Remédios. Não o garanto.

Quando a cabeça me pede um descanso radical numas termas de vazio, vejo televisão. E como nada do que é televisivo é estranho ao humano, também já passei os olhos pelo fenómeno "Ídolos".

A primeira impressão que me sobressalta é a de haver tanta, mas tanta gente, cujo sonho é o estrelato pop. Se eu já acho que há demasiadas baratas a andarem de volta da tontice da poesia, actividade com tão fraco prestígio, estas inesgotáveis multidões de arrivistas da voz criam em mim a convicção de que o tão celebrado acto de sonhar está sujeito às mesmas enfermidades que as suas muito menos consensuais realizações.

Depois há toda aquela aura de autoridade que nimba as mediáticas cabeças dos quatro cavaleiros da selecção. Não faço a menor ideia se eles têm autoridade ou não (até porque nada sei sobre música pop, e por isso não me posso arrogar o papel de crítico da crítica). Dizem-me que Laurent Philippe é um excelente músico, e eu acredito. Agora o que eu sei é que, mais do que representarem uma autoridade à qual as pessoas parecem sentir prazer em se submeter, o que eles representam é o mito da autoridade, em versão televisiva (e como eu gostava de ter o talento de Roland Barthes para dizer isto de maneira mais sisuda).

Não me incomoda em demasia que a maioria das pessoas não conviva com poesia-de-tesão, já passei a fase do proselitismo. Mas tenho algumas inquietações a morderem-me a cabeça. Será que aquelas hordas de adolescentes cheios de vida e encanto pactuam conscientemente com o engano instituído? Ou é mesmo gente enganada? Não saberão eles que, independentemente da voz, do palmo de rosto, dos ensinamentos de qualidade que lhes sejam doados, que independentemente até da inteligência e cultura que julguem possuir, se a vida não fizer deles cantores (e é meter bastante corno, cotovelo e demais severidades na palavra vida), eles não o serão?

quinta-feira, setembro 09, 2010

Alguém traduziu um texto meu

montaña


cohete desactivado
por ser demasiado antiguo
pero se mantiene apuntando
al cielo
como un castigo

***

la montaña
es de tal modo celeste
avant la lettre
que antes mismo de perder
la gravedad de la nieve
ya de sus hangares
se desprenden imágenes:
paisages
lunares


***


si la montaña
no va al sol
se desliza el sol en la montaña
con una auténtica profecia:
Es finita la fuga
de luz


(Tradução de Joan Navarro de um poema do livro sonetos para-infantis)


O original e uma tradução para catalão podem ser lidos aqui.

"Angel" - imagem

O INACTUAL 50

"Angel" - Ernst Lubitsch (1937)



Nada será tão prejudicial a um realizador de cinema como a sua capacidade para filmar tudo, ou seja, para funcionar como um excelente profissional. O que normalmente faz a diferença numa obra é precisamente aquela sua porção que o autor, por não a conseguir dominar, contorna através de uma afirmação excessiva das suas verdadeiras competências. Claro que essa incompetência parcial é sempre fruto de uma opção, ainda que se trate de uma opção apenas semi-consciente e usualmente descoberta de forma bastante gradual. É uma vaidade que, de resto, o falsário desconhece.

Ao longo da evolução da sua carreira, Ernst Lubitsch foi-se tornando mestre da incapacidade para mostrar. Tudo o que em "Angel" é putativa exibição de sinceridade redunda em diálogos de um sentimentalismo assaz medíocre. Em compensação, quando o realizador mostra os bastidores, os reflexos, os ecos ou os contracampos da acção principal, o seu cinema atinge um grande nível de intocada originalidade.

Quero crer que o "Lubitsch's touch" não se refere tanto à sofisticação geralmente atribuída ao cineasta (equívoco que se deve ao seu virtuosismo na encenação das classes sociais mais altas), mas a este sistema plenamente dominado de apenas filmar a tangente de um filme, mais do que o filme em si. De qualquer modo, a referência à alta sociedade é essencial para entender estes personagens que só se conseguem exprimir realmente através de um sistema de códigos tão ritualizados quanto resistentes ao confronto efectivo.

Em "Angel", a estratégia está ao serviço de uma leitura de Marlene Dietrich. A obra prolonga a imagem que Josef von Sternberg havia criado no seu ciclo com esta vedeta, que é a imagem da mulher dupla, ou mesmo dúplice, a mulher que destrói a rigidez das evidências morais entre as quais balança. Faz parte da cultura do homem religioso e/ou burguês a profunda falta de imaginação e de liberdade para lidar com uma tensão eterna: a necessidade de construir uma relação sentimental estável e a violência da fidelidade sexual. O binómio puta/virgem terá sido a resposta mais imbecil que foi encontrada. No seu glorioso último filme, "Cet obscur objet du désir", Luis Buñuel ironiza este preconceito ao ponto de fazer a sua personagem feminina ser representada por duas actrizes diferentes. Ora, "Cet obscur objet du désir" é uma releitura do mesmo romance que inspirou "The devil is a woman", de von Sternberg, com a Dietrich.

Muito antes da ousadia do surrealista espanhol, Lubitsch assume não filmar a mulher (Marlene é apenas um ícone de cinema) e cinde a projecção da sua moralidade nos dois personagens masculinos que a olham. Um dos homens entende a mulher em questão como sendo uma esposa sem contencioso, o outro vê-a como um anjo de perfeição. Na verdade, trata-se de uma mulher negligenciada pelo marido que recorre a bordéis chiques para tentar compensar a frustração. Estão ambos errados, e o erro em que ela tem de viver tem a autoria plena dos homens que a inventam contra a sua própria vontade.

Há um momento no filme em que a personagem de Marlene pede ao seu marido para ele não querer saber a verdade toda sobre o enredo em que ambos se ensarilharam, de modo a poderem continuar a viver a mentira do casamento. Mas não é bem isso que Lubitsch pretende. Ele quer fazer-nos aceitar uma saudável amoralidade, para que o casamento não seja uma mentira mas sim uma tolerância sem ilusão. No último plano do filme, Marlene avança para junto do marido, sem ouvirmos o som da a porta que ela teve de abrir e fechar, e sem ouvirmos os seus passos. Ela tornou-se, de facto, um anjo, porque os anjos têm sexo para o amor.

domingo, setembro 05, 2010

Galeria Murnau 7

E agora, um pouco de vida real

Nos últimos anos, o Ministério da Educação pautou a sua gestão do ensino artístico, no ramo da música, por uma filosofia de democratização progressiva. O que, teoricamente, tem toda a lógica. Neste sentido, o ensino dos alunos que frequentam o chamado regime articulado, ou seja, que substituem algumas disciplinas do currículo regular (como Educação Visual e Tecnológica) por disciplinas técnicas de música ministradas em escolas especializadas, tem vindo a ser financiado quase na íntegra pelo Estado.

Esse financiamento (e a expectativa da sua continuidade) foi fundamental para que as escolas de ensino particular e cooperativo do ramo musical pudessem crescer enquanto instituições. Ainda nos últimos meses do ano lectivo que findou em Julho, o Ministério estava a fornecer instruções sobre a admissão de novos alunos em regime articulado nessas escolas. Centenas de alunos foram admitidos, dezenas de professores contratados, tudo para preparar atempadamente o ano escolar 2010/2011.

No entanto, a 3 de Agosto, quando os estabelecimentos de ensino estavam encerrados e os docentes se encontravam de férias, o Ministério voltou atrás na sua palavra, e decidiu deixar de apoiar o crescimento das escolas de ensino especializado de música. Provavelmente porque, dada a enorme incompetência de quem tem responsabilidades governativas, não foi feita uma estimativa realista dos custos que esse crescimento, num contexto nacional, teria para os cofres de Estado. O que, numa situação de crise económica em que esse Estado se vê obrigado a controlar o seu défice, é, de facto, problemático.

Ainda não falei com nenhum colega que não concordasse com a necessidade de abrandar o financiamento deste tipo de escolas. Ninguém é mercenário. No entanto, nada disto justifica que esta legislação recente tenha saído depois das escolas terem organizado o seu ano lectivo seguinte.

Neste momento, a maior parte dos estabelecimentos de ensino estão na iminência de ter de rejeitar os alunos novos que aceitaram no fim do mês de Julho! O que criará um problema de credibilidade a essas escolas. Ao mesmo tempo, muitos professores que tinham deixado os seus postos de trabalho (alguns no sector público) para virem dar aulas no ensino particular e cooperativo, foram abruptamente forçados ao desemprego. Por sorte, a situação não me afectou.

O momento é dramático. Mas volto a dizer: ninguém queria receber um financiamento para o qual o Estado não tivesse capacidade. Queríamos apenas uma gestão que tivesse competência, capacidade de antevisão, boa-fé (sobretudo isto), e uma linha de rumo compreensível e estável. Assim não é porreiro, pá.

Dois projectos para outrem, em torno da voz

1. Recentemente, ao falar com uma colega de trabalho que é cantora e está grávida de cerca de sete meses, perguntava-lhe se não havia nenhuma ópera escrita para a sua condição. Não há. Segundo ela confessou, ainda consegue cantar lied, mas o género operático já está para além das suas forças físicas. Sugiro que, a partir de uma rigorosa investigação médica e acústica, um compositor se lance na tarefa de compor um papel de ópera para uma solista grávida em fim de tempo. É um pouco como escrever para piano preparado. As transformações de um instrumento (e neste caso, a metamorfose está prenhe de sentido e emoção) só podem contribuir para o encontro inesperado de novas sonoridades.


2. Projecto de um filme: uma cantora profissional tenta desesperadamente salvar o seu casamento. Ao longo da obra, as manobras de controlo dos estragos relacionais dependerão do uso virtuoso da voz: numa cena, terá de falar num agudo pianíssimo (talvez para proteger um segredo), numa outra terá de dizer um imenso discurso sem respirar, ainda noutra será preciso fazer um grande crescendo dentro da mesma sílaba, etc. Falhadas todas as tentativas, o filme terminaria com a apresentação da mulher em concerto, cantando a ária "Sposa son disprezzata" de Giacomelli (depois aproveitada por A. Vivaldi). Não em estilo equilibrado, mas à maneira exibicionista de Cecilia Bartoli:


Caderno de encargos

1. Em breve, começarão a ser publicados neste blogue os poemas da segunda parte do meu work in progress "quarenta graus à sombra"; essa segunda parte chamar-se-á "poemas para serem ditos no cinema (estudos para uma dicção menos armada)". Nenhum dos textos terá título, mas será encabeçado pela indicação da voz específica concebida para a sua declamação. As vozes seleccionadas pertencem a actores e cantores míticos. Mas a selecção prende-se unicamente com o timbre da voz (e as características de cada intérprete enquanto falante), e não com o sentido, o passado ou a mitologia (a armadura) desses intérpretes. Por exemplo, o primeiro texto será dedicado à voz de Bruno Ganz. Independentemente dos filmes ou peças de teatro que Ganz tenha feito, mas só por causa da sua idiossincrasia vocal. Claro que essas vozes são ideais, na medida em que a maioria dos intérpretes já estão mortos ou não falam português.



2. Depois de vários anos de silêncio nessa área, recomecei ontem a escrever ficção. Título: "o conto bem temperado". Ao contrário do que fiz anteriormente, a superfície dos textos será bastante clássica, sem o ser profundamente. A verdade é que desconfio um pouco do tipo de vanguarda mais à flor da escrita (cortes, saltos, incongruências, neologismos), e prefiro escarafunchar na essência da narratividade para a tentar desafiar num plano mais estrutural. Por exemplo, no conto em que estou a trabalhar, "A morte é uma flor que só abre uma vez" (o título é um verso de Paul Celan), estou a tentar parodiar a ideia de omnisciência.

quinta-feira, setembro 02, 2010