domingo, agosto 15, 2010

O INACTUAL 49

"La ragazza con la valigia" - Valerio Zurlini (1961)


A evidência da alteridade é um condimento essencial nos relacionamentos sentimentais. No entanto, raramente os humanos cruzam a fronteira daquela que seria uma verdadeira alteridade (racial, cultural, social, etc.), tendo esta de ser alimentada de forma fantasmática para que o erotismo funcione. Soren Kierkegaard dá uma imagem impiedosa dos homens heterossexuais no seu ensaio "In vino veritas": o desejo destes aparece como dependente da misoginia, porque a relativa diabolização da mulher foi a forma menos imaginativa que o género masculino encontrou para outrar culturalmente o seu género-alvo durante uma infinidade de séculos.

O cinema é pôr gente gira a fazer coisas giras, disse Truffaut com outra desenvoltura, o que quer dizer que ele é de tal modo the stuff that dreams are made of que dificilmente consegue escapar ao onirismo erótico. "La ragazza con la valigia" é uma espécie de fantasia extrema da alteridade. O seu par amoroso alimenta o desejo mútuo a partir da grande distância das suas posições. Ela é uma mulher adulta, pobre, vivida. Ele é um imberbe adolescente da alta sociedade. A tendência para os planos em contreplongé e a opção fotográfica por uma profundidade de campo exemplar não deixam margem para dúvidas quanto ao objectivo de Valerio Zerlini.

A história é velha e segue os trâmites normais: no fim, eles têm de se afastar um do outro. No entanto, é com imensa subtileza que Lorenzo acaba por ir assumindo a imagem da impossibilidade de pureza da masculinidade (o único homem que não quer abusar de Aida é um homem que ainda não o é). Note-se, aliás, que o dinheiro que ele lhe deixa na sequência final tanto pode ser lido enquanto um último gesto de generosidade como enquanto o primeiro pagamento no âmbito da prostituição. Talvez até seja as duas coisas: Lorenzo perdeu todos os três que tinha para perder. Ao contrário dos estetas de Kierkegaard, as mulheres sempre tiveram de aguentar uma alteridade real no comportamento moral dos seus companheiros.

Zerlini utiliza o cinema para convocar duas fantasias sexuais: a vontade que o adulto tem de dormir com um adolescente (se calhar, hoje o filme seria mais maldito do que na época, sacerdócio católico oblige) e os sonhos provocados pelas stars que essa mesma arte engendrou. O que Lorenzo faz a Aida (comprar-lhe roupa bonita, dar-lhe um cenário de glamour) é equiparável ao trabalho do realizador de cinema com a actriz por quem está apaixonado (nada disto é necessariamente literal; nem sequer conheço a biografia do autor). Este filme está para Claudia Cardinale como "The lady from Shanghai" está para Rita Hayworth. De facto, todos nos tornamos de novo adolescentes perante aqueles grandes planos maiores do que a vida dos actores e actrizes que se impuseram como os deuses do século vinte.

Mas volto à questão do dinheiro. O cinema é uma indústria. Nele, a diferença entre amor e publicidade é sempre demasiado ténue. A ética será um corpo de sonho, ou não será.

3 comentários:

petit paysan disse...

Zurlini?!
Pronto, já percebi, o stock de filmes está a chegar ao fim e tem de ser renovado.
Vamos a isso!

;)

abraço!

Pedro Ludgero disse...

Porquê "Zurlini"? Pelo "Z" ou porque achas o filme mau?

Eu bem tento aceder à legendagem das tuas fornadas, mas não consigo... Shame on me!

Gostei muito do "Sayat Nova", mas continuo a achar que o teria percebido melhor se tivesse conseguido ler os intertítulos...

petit paysan disse...

:)

estava a ser mauzinho para o Zurlini
(que não é ZZ top, quand même).

isso das legendas tem solução.
os intertítulos do sayat nova não me lembro bem, mas tenho ideia que não é por aí que se percebe melhor. talvez melhorzinho... :)