quinta-feira, julho 22, 2010

O INACTUAL 47

"Die Marquise von O" - Eric Rohmer (1976)

"Oh, minha amada,
Que olhos os teus!
Se Deus houvera,
Fizera-os Deus;"
Vinicius de Moraes


É bem fecunda a dimensão alegórica do texto de Heinrich von Kleist no qual se baseia este filme maior de Rohmer. Um dos seus vectores de sentido conjuga toda a dificuldade que existe para se restabelecer uma ética da normalidade após um período de guerra.

No entanto, penso que Rohmer será mais sensível ao flirt que a novela do alemão mantém com o chamado culto mariano. O texto parece querer desmontar o valor sublime que associamos à paixão amorosa: o conde Graf comporta-se como um praticante do amour fou, mas, na verdade, apenas quer redimir um sentimento profundo de culpa (ele abusou sexualmente da Marquesa enquanto esta estava adormecida sob o efeito de sedativos, provocando nela uma gravidez). Numa obra onde se alude, em surdina, à inquietante desconfiança deste mundo poder ter sido gerado por um Deus que desconhecemos, o conde ocupa o papel irónico do Salvador (ele libertara a Marquesa de uns agressores, pouco tempo antes de a violar), como se o Amor fosse apenas a contrapartida divina para o facto de termos sido criados (ou, por outras palavras, fodidos). O mais sagrado dos assuntos terrenos (que o cineasta não se cansou de glosar) seria uma espécie de pedido de desculpas por parte do Demiurgo.

Rohmer entendeu tal inquietação alegórica, e colocou a sua sinalização nas mãos dos intérpretes do filme. Os actores debitam o texto como se fossem intelectuais num simpósio helénico, debatendo as peripécias da narrativa com a máxima tranquilidade informada que elas permitem (o que não se confunde com frieza). O que está em jogo é demasiado alto: o suspense omnipresente não se refere ao instinto de auto-conservação (como acontece no cinema de Hitchcock), mas à possibilidade quase contrária do milagre de Maria se ter voltado a concretizar. A gestualidade de Edith Clever, de uma leve estranheza semi-coreográfica, distingue-a da teatralidade possuída de Maria Amélia Matta, que representou "Benilde ou a virgem mãe" para Manoel de Oliveira. A grande actriz germânica parece ter percebido, de corpo e alma, o problema central da criatividade de Rohmer: a sensualidade é um dado inescapável, e por isso a religião tem de propor, não tanto uma moral da sexualidade, mas uma moral a partir da sexualidade (esta não é um reduto de maldição, mas causa e consequência de metafísica). Não é por acaso que, em Rohmer (e neste filme, isso é particularmente evidente), o casamento é sempre mostrado como um problema que envolve toda a dimensão espiritual do humano.

A neutralidade do tom, a profunda economia narrativa, a ausência de efeitos, casam na perfeição com o estilo rarefeito de Kleist. Se, neste filme, uma mulher mais facilmente acredita na ressurreição de um soldado ou numa gravidez sem mácula do que na possibilidade de que o homem que lhe apareceu como um anjo seja afinal um indivíduo imperfeito (normal), as palavras parecem contudo ter sido pronunciadas ainda ontem, enquanto as imagens se nos impõem como se capturadas numa época remota.

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