domingo, junho 27, 2010

O ACTUAL 28

"Shirin" - Abbas Kiarostami


Kiarostami começou por fazer filmes num contexto pedagógico, o que talvez tenha influenciado o tom algo professoral com que filmou as populações pobres e/ou rurais iranianas no momento central da sua obra. Curiosamente, o seu rigor ético é de tal ordem que nunca esse humanismo esclarecido degenerou em paternalismo. Pelo contrário, os seus alter-egos fílmicos sempre tiveram de reconhecer a fragilidade de qualquer ímpeto didáctico perante a improbabilidade, ao mesmo tempo positiva e negativa, trazida pela vida.

Talvez por isso Kiarostami tenha vindo a acalentar a ideia de menorização do papel do autor cinematográfico (ideia da qual desconfio com alguma intensidade), um desejo que encontrou a sua primeira realização de fôlego no filme "10", coincidindo, talvez não casualmente, com a entrada em cena no seu universo da temática feminina. É como se o realizador nos quisesse dizer que, para filmar a mulher com a dignidade que ela merece (dignidade que o regime teocrático do seu país insiste em ludibriar), tivesse de trabalhar a hipótese do apagamento parcial de si mesmo.

Essa atitude é prolongada no magnífico "Shirin". O assunto ruidoso do filme é o amor (heterossexual). Se as mulheres reclamam a invenção da fidelidade sentimental, a verdade é que as grandes histórias de amor parecem ter sido escritas por homens. Temos, aqui no ocidente, o Shakespeare de "Romeo and Juliet" (que esteve para ser a obra de referência em "Shirin"), o Goethe de "Werther", o Camilo de "Amor de perdição" ou a exuberância dos surrealistas. Mas a história de Shirin, Khosrow e Fahrad, lendária para a cultura persa, e que fornece o elemento ficcional da obra, foi igualmente trabalhada por vários poetas homens, entre os quais se destacam os célebres Ferdowsi e Nezami.

O apagamento de Kiarostami enquanto autor masculino corresponde, neste filme, à abolição visual do campo cultural que terá sido desde sempre oferecido às mulheres, a mitologia do amor, metonicamente representada pelo popular poema romântico. Note-se que o título do filme apenas refere o elemento feminino dessa narrativa, pois o que Kiarostami nos mostra é uma espécie de contracampo do amor, é a imagem colectiva do género que recebeu essa ilusão como uma evidência do espírito e a interiorizou com uma verdade que supera a dos seus próprios autores.

É uma intuição discutível, e nem sequer seria errado acusar o realizador de idealizar a mulher (como de algum modo idealiza as crianças ou os aldeões). Mas Kiarostami pertence a uma outra cultura. Note-se como Juliette Binoche aparece no filme quase sem caracterização, como se esse despojamento (que não é exigido às outras actrizes) fosse necessário para aproximar a mulher ocidental da sua congénere iraniana, para a qual a emancipação ainda está mais próxima do desejo nobre que da banalização irresponsável (é um pouco a diferença entre aqueles que tiveram de lutar contra um regime totalitário e uma geração posterior que receba a democracia de mão beijada).

Plano após plano, o realizador tenta inventar a imagem-montagem de um rosto colectivo que tenha a mesma força dos rostos pintados que fizeram com que Shirin e Khosrow se tivessem apaixonado um pelo outro. "Shirin" é o mais pictórico dos filmes de Kiarostami, no mágico jogo que engendra entre o classicismo kitsch da banda sonora (a ficção) e os mil cambiantes de luz, cor, enquadramento e expressão que servem as mulheres filmadas na posição de espectadoras (pintura que, a meu ver, tem muito mais acção do que o filme dentro do filme).

É uma obra política, claro. E é uma obra que nos lembra de que o cinema surgiu como arte de devoção ao rosto humano (de amor, portanto), e de que talvez, um dia, dessa arte só iremos recordar as lágrimas e os risos mudos com que a sua história começou.

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