quarta-feira, junho 02, 2010

O ACTUAL 27

"Madeo" - Joon-ho Bong


Carl Dreyer criticou, uma vez, o cineasta Clarence Brown, por este ter incluído um plano esforçadamente original num dos seus filmes. Tive a mesma sensação de desconfiança perante um enquadramento de Joon-ho Bong: a mãe que protagoniza "Madeo" dá de beber ao seu filho atrasado mental ao mesmo tempo que ele urina na rua, e o realizador faz um picado propositadamente composto para o espectador ter a sensação de que o líquido que entra por cima está a sair por baixo. Julguei ser a opção de um engraçadinho, desejoso de nos fazer focinhar nas suas berrantes manipulações de sentido. Estava enganado.

Até agora, vi apenas três filmes da cinematografia sul-coreana, e em dois deles ("Madeo" e "Oldboy" de Park Chan-wook) fui assaltado pela mesma convicção: a de que esta gente (ainda?) tem, de facto, coisas a dizer, e de que as quer dizer com uma intensidade sem papas na língua. "Oldboy" é mais barroco, e o seu tema menos consensual (basicamente questiona o tabu do incesto), mas oferece a mesma delicadeza ao espectador: a incapacidade de este abandonar a sala de cinema sem uma sensação de profundo incómodo. Para quem ainda pense que os orientais se definem pelo número de horas que demoram a fazer um chá, estes filmes encarregam-se de desfazer ilusões.

"Madeo" é um filme de género(s). Mas o cineasta, profundo conhecedor dos clichés que conformam essas estratégias, está constantemente a defraudar as expectativas do espectador. Do melodrama sobre a bondade infinita do amor materno (género que fez o pleno gorduroso entre Japão e México) passamos ao gore da mulher tornada assassina, a poética bucólica (Joon-ho Bong é um paisagista talentoso) aparece sempre contaminada por um grotesco pouco hilariante, mas, acima de tudo, o lúdico policial é reconduzido à sua única e provável virtude: a verdade que a mãe-tornada-detective-em-defesa-do-filho descobre é a verdade sobre si mesma. Bong recorre mesmo a um truque caro a Ingmar Bergman: o espectador vê o jovem atrasado a abandonar o local do crime antes de este ser cometido, mas essa imagem era falsa, e por isso, quando a mãe descobre que o seu filho foi afinal o autor do homicídio (e temos então acesso às imagens verdadeiras), a revelação tem exactamente o mesmo peso, entre a surpresa e o horror, para quem está a ver o filme.

Todo este sarcasmo legitima as bizarrias (de enquadramento e de tonalidade) que o filme vai desenvolvendo de um modo quase experimental. Devo, no entanto, dizer que a sua força deriva sobretudo do rigor do conteúdo. Quando, numa viagem de recreio para progenitores, a mãe resolve usar os seus conhecimentos de acupunctura para gerar o esquecimento (para esquecer que o seu filho cometeu um crime, para esquecer que ela gastou toda a sua energia e tempo para tentar defender uma inocência que afinal não o era, e que ela própria se tornou assassina para proteger a prole), ela compreende a essência do Humano. Somos uma espécie com todas as faculdades de espírito para não promovermos a agressão, mas facilmente atingimos o homicídio (o problema não é o filho ter matado uma rapariga, pois ele era inimputável; o problema é a mãe, pessoa sã e de bons princípios, ter chegado ao crime); no entanto, o amor pelos filhos é de tal modo intenso que promove um esquecimento radical de toda essa lucidez. E é assim que, de crime em crime, de bebé em bebé, nos temos vindo a arrastar sem excessiva neurose ao longo de vários milénios.

Ao contrário de mim, Bong parece não ter ilusões sobre o humano. O próprio cansaço com a pulsão sexual que percorre a obra como um tema subsidiário a tal parece aludir. No entanto, a sua fé nos laços que entre os homens se formam é furiosa: note-se como a amizade de Jin Tae é inequívoca, apesar deste ser um bruto oportunista. Para Joon-ho Bong não há esperança, apenas amor.

Recentemente, a confluência do convívio com a minha sobrinha de três meses com a relativa desilusão causada pelo filme "Líbano" fez-me pensar que há sentimentos que o cinema talvez não consiga transmitir. Não me parece que o meu gosto pela sétima arte seja menos puro e intenso se eu lhe reconhecer os limites e as especificidades. Ora, "Madeo" veio-me convencer de que o cinema pode, inquestionavelmente, transmitir o sentimento do amor parental. É o que acontece com todos os filmes geniais.

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