quarta-feira, maio 26, 2010

No escrínio 51

Poema "Um afago, disse ela", de Fernando Martinho Guimarães:


Um afago, disse ela
e encolhi-me à sombra
de um insecto zumbidor
Uma oferta, disse ela
e o vento passou pela folhagem
sem defesas nem retaguardas
Uma dádiva, disse ela
e um sorriso dadivoso
raiou - e era inverno



Numa das suas recolhas de versos, o escritor francês Jacques Roubaud inventou um tipo de poema chamado "le sonnet de sonnets", que seria sempre composto por catorze sonetos estruturalmente organizados de modo a imitarem a lendária forma trabalhada por Petrarca. Fernando Martinho Guimarães parece ter aqui inconscientemente criado um "haiku de haikus": o terceto do modelo japonês foi ampliado, à maneira de um fractal, num triplo de si mesmo.

Mas não é só ao nível da forma que a referência nipónica se insinua. O texto propõe um minimalismo paisagístico a que não é alheio o fenómeno das estações do ano. Quase poderíamos defender que o primeiro haiku se refere a uma situação estival (o verão é o momento de glória dos insectos), o segundo comenta a fragilidade das árvores numa situação de outono, e o último faz desaguar toda a tensão criada na estação do frio. Não quero com isto dizer que o poeta esteja a narrar nove meses de uma relação amorosa no espaço de nove versos. Sugiro apenas que os mínimos detalhes de uma cena podem ser con-figurados em termos de uma mitologia temporal que ao mesmo tempo os transcende e ilumina. Todos sabemos que um segundo pode ser eterno (e vice-versa).

O exercício de síntese, aliado ao rigor formal, provocam uma multiplicidade de contágios. Se o vocábulo "oferta" é sinónimo do vocábulo "dádiva", parece que a estrutura repetitiva do primeiro verso de cada haiku obriga a que "afago" se torne também um sinónimo daqueles termos. Ou seja, o que, no fundo, a mulher do poema diz sempre é: "um afago". Simplesmente, só na segunda vez que o verbaliza é que o sujeito lírico toma consciência da dimensão de generosidade que pertence a esse gesto de afecto. Ao mesmo tempo, a simetria obriga a que "oferta" e "dádiva" não tenham, afinal, o mesmo sentido. O facto desta última palavra ser repetida (em quase-paronímia) no haiku que ela própria introduz, confirma esta hipótese. É que a "oferta" está demasiado associada ao falar económico, pressupõe uma procura, enquanto a "dádiva" se dá a si mesma em plena nudez e disponibilidade.

Na primeira vez que a mulher diz "um afago" (investindo num acto de linguagem que lhe permite afagar por performance verbal), o sujeito encolhe-se à sombra / de um insecto zumbidor. A beleza intensa da formulação só encontra paralelo no seu hermetismo (trata-se de um passo indecifrável, pertencente à história secreta destes amantes). Todavia, é possível discernir aqui um erotismo de cariz baudelairiano: basta tomarmos o "insecto" como uma metáfora da mulher que diz coisas (que zumbe), e logo pressentimos, na pequenez que o poeta assume para caber na sombra de um minúsculo bicho, uma certa vontade de ser menor do que o feminino.

Haverá um passo em frente na ausência de defesas e de retaguardas do vento falante da segunda parte do poema: o erotismo tornou-se altruísmo. Mas é só no terceiro momento que um sorriso de pura dádiva desata a refulgir. Primeiro falou-se de sombra, agora evoca-se um sol de inverno. Talvez não haja aqui um pessimismo subtil, mas o seu oposto: é precisamente a velhice de uma relação (tenha ela o tempo que tiver) que permite que aqueles que nela se empenham entendam os seus afagos como manifestações do mais despojado amor.

Se calhar, em nove versos pode contar-se a vida inteira.

2 comentários:

rafael Costa disse...

Ótima percepção... pesquisarei mais sobre haiku, não conhecia.

abraço.

pedroludgero disse...

acho delicioso saberes pouco sobre o haiku. eu adoro esse "género/forma", mas fico irritado com o sucesso que tem entre os poetas... ;)

esquisito...