sábado, maio 29, 2010

Galeria 50

Partilha 84

(três poemas infanto-juvenis)



poema para rapazes


nunca viste
pela manhã
breves ferraris sobre as orquídeas dos pobres?

não sabes
que é pequena a diferença
entre o guarda-chuva e o rolls royce?

adivinharás
quão difícil é para um velho
a ignição do seu suor?

da tua distância electrónica
usa uma chave que te abra o Poema
e te faça nele viajar com estilo

_________________________

partida


deve ser tão difícil
meter as palavras num poema
como engarrafar um peidinho

se deitares
.................(pela calada)
um poema numa sala

verás as pessoas não aceitarem mais nada
senão ar puro
alegria e distância

____________________________

baptismo por metáfora

sabes
que podes
a partir de agora
chamar à corola da impaciente
chamamento do muezim?

ouvirás o jardim gritar:
encarnaaaado
amareeelo
bom cheiriiiinho

e verás abelhas
borboletas
colibris
todo o voo de uma civilização
em direcção à tua liberdade

quarta-feira, maio 26, 2010

No escrínio 51

Poema "Um afago, disse ela", de Fernando Martinho Guimarães:


Um afago, disse ela
e encolhi-me à sombra
de um insecto zumbidor
Uma oferta, disse ela
e o vento passou pela folhagem
sem defesas nem retaguardas
Uma dádiva, disse ela
e um sorriso dadivoso
raiou - e era inverno



Numa das suas recolhas de versos, o escritor francês Jacques Roubaud inventou um tipo de poema chamado "le sonnet de sonnets", que seria sempre composto por catorze sonetos estruturalmente organizados de modo a imitarem a lendária forma trabalhada por Petrarca. Fernando Martinho Guimarães parece ter aqui inconscientemente criado um "haiku de haikus": o terceto do modelo japonês foi ampliado, à maneira de um fractal, num triplo de si mesmo.

Mas não é só ao nível da forma que a referência nipónica se insinua. O texto propõe um minimalismo paisagístico a que não é alheio o fenómeno das estações do ano. Quase poderíamos defender que o primeiro haiku se refere a uma situação estival (o verão é o momento de glória dos insectos), o segundo comenta a fragilidade das árvores numa situação de outono, e o último faz desaguar toda a tensão criada na estação do frio. Não quero com isto dizer que o poeta esteja a narrar nove meses de uma relação amorosa no espaço de nove versos. Sugiro apenas que os mínimos detalhes de uma cena podem ser con-figurados em termos de uma mitologia temporal que ao mesmo tempo os transcende e ilumina. Todos sabemos que um segundo pode ser eterno (e vice-versa).

O exercício de síntese, aliado ao rigor formal, provocam uma multiplicidade de contágios. Se o vocábulo "oferta" é sinónimo do vocábulo "dádiva", parece que a estrutura repetitiva do primeiro verso de cada haiku obriga a que "afago" se torne também um sinónimo daqueles termos. Ou seja, o que, no fundo, a mulher do poema diz sempre é: "um afago". Simplesmente, só na segunda vez que o verbaliza é que o sujeito lírico toma consciência da dimensão de generosidade que pertence a esse gesto de afecto. Ao mesmo tempo, a simetria obriga a que "oferta" e "dádiva" não tenham, afinal, o mesmo sentido. O facto desta última palavra ser repetida (em quase-paronímia) no haiku que ela própria introduz, confirma esta hipótese. É que a "oferta" está demasiado associada ao falar económico, pressupõe uma procura, enquanto a "dádiva" se dá a si mesma em plena nudez e disponibilidade.

Na primeira vez que a mulher diz "um afago" (investindo num acto de linguagem que lhe permite afagar por performance verbal), o sujeito encolhe-se à sombra / de um insecto zumbidor. A beleza intensa da formulação só encontra paralelo no seu hermetismo (trata-se de um passo indecifrável, pertencente à história secreta destes amantes). Todavia, é possível discernir aqui um erotismo de cariz baudelairiano: basta tomarmos o "insecto" como uma metáfora da mulher que diz coisas (que zumbe), e logo pressentimos, na pequenez que o poeta assume para caber na sombra de um minúsculo bicho, uma certa vontade de ser menor do que o feminino.

Haverá um passo em frente na ausência de defesas e de retaguardas do vento falante da segunda parte do poema: o erotismo tornou-se altruísmo. Mas é só no terceiro momento que um sorriso de pura dádiva desata a refulgir. Primeiro falou-se de sombra, agora evoca-se um sol de inverno. Talvez não haja aqui um pessimismo subtil, mas o seu oposto: é precisamente a velhice de uma relação (tenha ela o tempo que tiver) que permite que aqueles que nela se empenham entendam os seus afagos como manifestações do mais despojado amor.

Se calhar, em nove versos pode contar-se a vida inteira.

terça-feira, maio 25, 2010

Conversa de gajas 1

G1 - Parece que ele é impotente.

G2 - E isso é apenas a ponta do icebergue...

segunda-feira, maio 24, 2010

Intervista 2

P. - É ambicioso?

R. - Sou. Ambiciosíssimo.

P. - Mas não era capaz de dormir com alguém para subir na vida?

R. - Não, só era capaz de dormir com alguém para descer na vida, para ficar rente ao sexo: como disse, sou ambiciosíssimo.

Intervista 1

P. - O que me diz do seu sucesso?

R. - Digo o que diria a Lili Caneças: ser lido é melhor do que não ser lido.

terça-feira, maio 18, 2010

sexta-feira, maio 14, 2010

segunda-feira, maio 10, 2010

Partilha 83

desejo de ocidente


vimos hoje
um belo ocaso
na fronteira sem velhice do céu
'stava o sol tal qual veio ao mundo
não fosse o seu manto
de couro
e as botas de cowboy

com vento de ocasião
trabalhamos no pomar no fabrico da compota
no restauro na pintura
do ícone da iluminura
no estertor
(às vezes até mandamos vir os rapazes
e fazemos bailes como nos filmes de john ford)

domingo, maio 09, 2010

Galeria Murnau 3

Confissão política

"Imagine, tenho lido coisas duma aridez simpática sobre economia. Visto que o homem económico tem de substituir o homem bélico eu quero estar ao corrente dessa nova bélica dos povos. E tenho pensado que a economia é a intriga estruturada no infanticídio das grandes ideias. O homem económico não tem ideias, tem só actividades operantes no campo do medo, do descrédito, da vertigem."

Carta de Agustina Bessa-Luís a Eduardo Lourenço.



Não queria que, a propósito deste post, ficasse o meu esporádico leitor com a ideia de que acalento uma espécie de menosprezo por aquilo que se convencionou chamar progresso. O que radicalmente me desagrada em José Sócrates é a segurança falsa que ele próprio encena em torno do suposto sucesso da sua governação. Algo que, de resto, já vi e revi em inúmeros portugueses em lugares de patronato: um desinteresse intenso pela eficácia real de uma medida de administração inversamente proporcional à celebração hipersensível desse mesmo gesto.

As escolas não ficaram mais modernas por terem sido invadidas por computadores Magalhães. A economia não ficou mais ágil com o ruidoso Simplex (e quão amadores e pouco modernos são os empreendedores lusos!). A cultura não ganhou dinamismo com a passagem (de TGV, presumo) do Hermitage pela museologia nacional. Não duvido que pelo menos algumas decisões governativas tenham sido tomadas de boa fé, mas nada disso releva perante os resultados concretos a que elas (não) tenham levado. E se eu, francamente, não espero que os meus governantes sejam visionários de génio, exijo que tenham, pelo menos, inteligência emocional suficiente para irem ajustando o seu percurso de acordo com a verdade com que, a passo e passo, o real os vai contrariando.

Talvez o leitor não acredite, mas desconheço o que é a motivação do poder. Penso, aliás, que isso será uma espécie de patologia pessoal. No entanto, sei o que é sonhar com ser lido fora do âmbito do espaço-tempo que a minha vida me concederá (a despeito de todas as monstruosidades panteónicas), e por isso consigo perceber a vontade de deixar um rasto. Já percebo menos que isso tenha de ser feito através da construção civil que vai do Centro Cultural de Belém até ao Aeroporto de Alcochete. Pois se um político conseguir, de facto, beneficiar a realidade em um grama que seja, ele será tratado pela História com panos bem aquecidos, não haja disso dúvida. Caso contrário, não haverá Pirâmide que o salve de uma chacota que passará de geração em geração.

Ou seja, neste momento já não acredito que o desígnio de obras públicas pelo qual batalha o nosso Primeiro Ministro contenha em si um grau mínimo de visão que seja capaz de frutificar em eficácia e verdade a longo prazo. Por favor, dedique-se ao inglês técnico.

Infelizmente, também não conheço alternativas (o que é todo um retrato do meu estado psicológico). Os partidos de (extremada) esquerda constituem uma muito concreta traição ao marxismo: não fornecem um repensar radical, completo e contemporâneo de toda a situação do homem, que foi precisamente o que Marx fez. Esperneiam mais do que pensam. Por outro lado, a direita é geneticamente marialva. Basta ver o seu desprezo pela exploração de algo tão evidente como as energias renováveis (exploração essa que terá de ser devidamente calculada e faseada, claro, mas cujas promessas de benefício são colossais): homem que é homem defende o petróleo, pois não tem ilusões quanto à natureza humana. Não falo do partido de Paulo Portas, pois não tenho jeito para contar anedotas.

Por vezes, penso que, se temos de sobreviver num contexto de capitalismo, então seria melhor que ele fosse dirigido por quem o sabe fazer funcionar de facto (e não por frágeis e indecisos donzéis socialistas). Acontece que, mesmo sem perceber nada de economia, eu não acredito na bondade de um tal sistema económico. E presumo que assim continuarei até que a morte de mim faça uma Zita Seabra.

O capitalismo tem duas vantagens, tem, sim senhor. Por um lado, a liberdade de expressão e de movimento. É uma conquista notável, e de que eu não estou disposto a abdicar. Mas há algo mais importante. Uma vez ouvi, numa muito antiga reportagem televisiva, alguém dizer que a Europa estava podre (de crise, já na altura...), mas cheirava bem. Ora, o capitalismo é isso mesmo: uma podridão que cheira bem. As gentes estão mergulhadas em dificuldades, mas usam roupas sexy, guiam carros sexy, fazem viagens sexy, vêem filmes sexy. Nada do cinzentismo que existia para lá do muro de Berlim.

A liberdade profunda do indivíduo é, porém, praticamente nula. O que significa eu aceitar um crédito bancário durante quarenta anos para poder ser proprietário de uma habitação? Significa apenas que aceito abdicar da liberdade durante toda a minha vida saudável. É claro que, para muita gente, o bom cheiro dos acabamentos de luxo e dos chãozinhos em parquet compensarão essa transacção da alma, mas, como se dizia noutras alturas, não é possível enganar toda a gente durante todo o tempo.

Ainda por cima, o mercado é uma forma de perversão do sentido daquilo que sempre julguei ser a economia. Os recurso são explorados até à exaustão, os produtos têm menor valor intrínseco do que valor comercial, o crescimento é tão fatal que se torna descontrolado. Não podemos voltar às origens (como fazem as monjas que, nas suas clausuras, depuram a economia), mas não devemos perder de vista o seu sentido. Quantas pessoas poderão hoje afirmar que sabem, no mais fundo de si mesmas e sem qualquer sombra de dúvida, a razão pela qual trabalham? A gestão da escassez dos recursos e a superação das contingências da sobrevivência: não era isso a economia? Mas quem tem noção disso quando esbanja os últimos trocos que tem no milésimo pastel que contribuirá para o absurdo da sua obesidade, ou quando vê aqueles personagens de filme italiano em rituais de histeria nos mercados bolsistas?

Podem sempre dizer-me: se estás a mandar esses bitaites, por que não metes as mãos à obra e fazes alguma coisa por Ti mesmo? Ao contrário da paciente e lúcida Agustina, eu seria aniquilado se me predispusesse a levar estas coisas a sério. Não sou esse tipo de homem. Definitivamente. Talvez quando a tusa me abandonar, eu me dedique à aridez simpática da economia.

domingo, maio 02, 2010

Tenho um novo site...

... intitulado:

Orfeu de corpo inteiro

É uma plataforma de publicação prévia e experimental da minha produção ao nível do ensaio. Já estão alguns textos online, em breve surgirão mais. Ao longo do tempo, surgirão novos ensaios, e serão rescritos e acrescentados os que já se encontram esboçados.

Obrigado pela atenção.

sábado, maio 01, 2010

Partilha 82

ich bin eine frau...


... em forma de bola de berlim
sou o meu pigmalião
meu próprio cirurgião por tentativa e tradução
objectivo:
ser uma nuvem emigrante
que se vem
em furacão

eu podia dançar toda a noite
eu podia dançar toda a noite
e ainda pedir mais ao meu leitor
afinal sou o creme do creme
un petit d'un petit de gema à mostra
caído
ao pé do muro do teu estômago

para a audrey e a katharine



Nota 1: "un petit d'un petit" é uma famosa tradução do inglês para o francês feita por homofonia; o original é "humpty dumpty".

Nota 2: A canção "I could have danced all night" é a que mais frequentemente canto no duche.

Alívio egoísta

Um dia destes, alguém me disse que o Homem tinha ficado tão inteligente que estava a destruir o Universo.

Uma formulação leviana. Não só o uso da palavra "inteligente" foi nela indevido, como não é o Universo que está em causa no último capítulo da grandeza humana, mas pura e simplesmente um pequeno planeta (seja qual for o rigor deste medo presente, ele ficará como uma das marcas mais tragicamente cómicas da nossa época).

A verdade é que fiquei aliviado. Foder a Terra, tudo bem, mas para o Universo ainda não temos tesão. Experimentem lá alterar o clima do Sol...

É claro que, há alguns séculos atrás, a perspectiva de uma perversão fatal do equilíbrio ecológico de um planeta inteiro por acção humana seria completamente inverosímil. E, por isso, não sei mais alguns séculos não nos darão os Magalhães suficientes para darmos cabo de toda a obra pública do Big Demiurgo. MAS EU JÁ NÃO ESTAREI POR CÁ!!!!!

Por uma vez...

...concordo:


"O que move Sócrates não é mais do que a imagem, de "modernizador" e "duro", que, no fundo de si próprio, ele julga ser. Gostava de nos legar um Portugal irreconhecível e maravilhoso: com computadores na escola, com o MIT, com o Simplex triunfante, com o novo aeroporto, com o TGV. Um Portugal como essa América que ele viu na Beira em séries de televisão para provincianos."

Vasco Pulido Valente (no PÚBLICO de hoje)