quinta-feira, abril 08, 2010

O INACTUAL 46

"Ma nuit chez Maud" - Eric Rohmer (1969)


Se algum conservadorismo Rohmer manifesta neste seu filme célebre, ele prende-se com a intuição de que talvez não haja nada tão sexual como uma conversa. Todo o suspense da noite passada em casa de Maud é orientado para fazer do espectador um voyeur da sensualidade do pensamento no momento em que ele está a ser partilhado.

Se falo de conservadorismo é porque, à sua maneira muito desajeitada, o realizador se opõe à certeza quase consensual da modernidade (desde a vanguarda surrealista até à comédia screwball) de que todo o indivíduo fará soçobrar o seu sistema de crenças perante a força do erotismo. Ora, Rohmer parece desconfiado dessa animalidade algo romântica, e tenta filmar a luxúria do intelecto que leva a que o homem moral se confunda com um imberbe casmurro.

De qualquer modo, o presente (o trânsito caótico entre marxismo, conservadorismo e livre-pensamento) não consegue escapar à interrupção imposta pelo eterno, por essa neve que obriga os indivíduos a pernoitarem no amor independentemente do rumo que para si mesmos haviam traçado.

Só que a escolha entre a morena e a loura, entre a mulher com quem se estabelece um profundo entendimento sensual e aquela outra com quem se pode construir um percurso religioso maior do que a vida, é tão difícil que nem consigo arrasta um dramatismo de índole catártica. A graça de que o protagonista se reclama pode não ser mais que o discurso auto-viciado da sua esperança. A revelação de Françoise como esposa ideal, logo no início do filme, talvez seja apenas a manifestação liofilizada da sua perversidade erótica (um corpo sob a luz da liturgia).

E depois, quem na verdade decide tudo é Maud. Maud (uma magnífica Françoise Fabian) é a grande personagem do filme. Ela recusa-se a ter sexo com o protagonista, depois de tudo ter preparado para que isso fosse inevitável, porque entende que a convicção religiosa de que ele se reclamava afinal não fez dele um homem talhado para a fidelidade. É uma tentadora por devoção ao sonho do amor.

Se Rohmer se expõe em alguma personagem, será certamente nesta mulher que sabe que uma pessoa é muito mais do que a soma do seu corpo e do seu espírito.

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