sexta-feira, abril 02, 2010

O INACTUAL 45

"Perceval le Gallois" - Eric Rohmer (1978)


Numa das cenas mais inesperadas deste filme não consensual de Rohmer, o jovem Perceval afasta agressivamente dois cavaleiros que o tentam demover do estado de concentração obsessiva nos seus próprios pensamentos. A sequência faz a luz necessária sobre a relação do cineasta da nouvelle vague francesa com o texto medieval.

Pois é lógico que o assunto imediato do romance de Chrétien de Troyes é a demanda da espiritualidade cristã sob a égide da mitologia arturiana. Mas é preciso notar que a encenação da Paixão de Cristo que a obra nos fornece perto do seu término se faz com recurso a uma narração na qual as personagens bíblicas não participam verbalmente (ou seja, vemos os seus corpos em acção, mas as palavras, mesmo as que pertencem aos diálogos, estão todas a cargo do grupo de narradores-cantores). Ao contrário, durante a história principal de "Perceval le Gallois", as personagens verbalizam simultaneamente os seus diálogos (o que é a norma em todos os filmes) e a parte textual referente à narração (por exemplo, referem-se a si mesmas com expressões do género: "e ele disse o seguinte").

A moral cristã é um modelo de comportamento a que Rohmer não será nada alheio ("Die Marquise von O" ainda vai mais longe na exploração dessa inquietação). Todavia, a sua distância enquanto encenador fá-lo ser mais favorável à observação da dificuldade que as personagens têm na gestão dessa moral do que a uma possível crítica (mesmo que positiva) da substância desta. Assim sendo, o facto das personagens se narrarem a si mesmas (e de não haver diferença no tratamento emocional dos dois níveis heterogéneos de texto que elas assumem) é o aspecto mais revelador da obra, e a chave que a liga aos filmes "sobre o presente" de Rohmer. As personagens raciocinam e verbalizam uma tensão moral, como se todas fossem filósofas do seu próprio devir.

Perceval é jovem, mas as suas asneiras constantes decorrem precisamente de ele tentar aplicar a ética que os adultos lhe ensinaram... A mãe diz-lhe para beijar donzelas e não exigir mais nada além disso. E o rapaz beija de facto uma rapariga: só que esta já tinha companheiro e para além disso não lhe deu o consentimento necessário ao seu gesto. Mais tarde, tenta cumprir o preceito de uma figura paterna que encontra durante o seu percurso (mantém o controlo da curiosidade no castelo do Rei Pescador), e cria a sua própria travessia no deserto (se tivesse feito as perguntas certas, teria ido longe na conquista da espiritualidade). Pois mais importante do que seguir um catecismo, é avaliar a sua substância de acordo com cada proposta de acção que a vida traz.

Esta obliquidade da personagem (a personagem é acima de tudo o diálogo consigo mesma) não diminui o impacto dos filmes rohmerianos (até porque a sensualidade é neles a principal matéria). Aliás, nos filmes "sobre o presente", Rohmer consegue fazer com que os dilemas na aparência apenas sentimentais das personagens obriguem a própria época a narrar-se a si mesma, com esse mesmo grau de obliquidade (o realizador não precisa de ser sempre explícito como em "Ma nuit chez Maud"). Se os castelos de "Perceval le Gallois" são de papelão, essa atitude perante o contexto prolonga-se por toda a filmografia do francês. Como se as cidades, as casas, as ruas, falassem (ou até cantassem) aquilo que, culturalmente, está nelas em jogo.

O filme termina abruptamente porque, se não se pode saber tudo sobre um tempo, um assunto, ou uma narrativa, então mais vale não fingir essa omnisciência (de qualquer modo, o cinema de respeito pelo texto que à época se praticava levava os cineastas a gestos de profunda ousadia na relação com a literatura - a obra de Troyes foi deixada inacabada). E se há um estranho personagem secundário, um cavaleiro adulto, que a uma dada altura colhe protagonismo, é para demonstrar como a sua suposta maturidade não o livra de ser menos casmurro. A sua fidelidade aos pensamentos põe-no mesmo em risco de vida (e maior violência que esse risco não existe no cinema de Rohmer).

A verdade é que a Béatrice Romand de "Conte d'automne" prolonga o Melvil Poupad de "Conte d'été". Ao contrário do que todos nós apressadamente supomos, o autor de "Le genou de Claire" vem-nos dizer que a moral é o principal indício de permanência da juventude.

2 comentários:

Ricardo Vasconcelos disse...

O comentário não vai ser sofisticado: apenas me recordei de - há muitos anos já - ter entrado no Nun'Álvares (tão perto da Faculdade de Letras, por onde me passeava, nessa altura) num dia de semana a meio da tarde para assistir precisamente ao "Conto de Verão" e, numa sala com talvez mais duas ou três pessoas, uma delas seres tu! Recordas-te disso? (Como disse, o comentário não é exactamente sofisticado. - talvez apenas se deva a alguma nostalgia desse tempo de cinema europeu a meio da tarde). Abraço

pedroludgero disse...

Ups, a verdade é que não me lembro :(

Mas lembro-me de outra coisa: de uma vez, à saída de uma feira do livro no Mercado Ferreira Borges, te ter encontrado quando tinhas acabado de comprar uma antologia do Lorca. Sempre foste um rapaz de bom gosto!

ab