domingo, abril 18, 2010

Nota "Les herbes folles"

Não faço parte do grupo de cinéfilos que lamentam o facto de Alain Resnais ter decidido, a partir de um certo momento na sua obra, construir filmes a partir de textos assumidamente menores. É claro que é estranho ver o autor de "Hiroshima mon amour" ir perdendo, ano após ano, a ágil gravidade que o animou na juventude. Mas cada um envelhece como pode (e não como os outros querem) e, de qualquer modo, o Resnais superficial já nos deu obras belíssimas como "Smoking / No smoking" ou a mais recente "Coeurs".

O visionamento de "Les herbes folles", no entanto, deixou-me insatisfeito. É claro que o filme é rigorosíssimo na transposição do texto para o cinema: Resnais é um leitor privilegiado. Ora, a folie que ele pretendia partilhar pareceu-me precisamente congelada na inteligência formal, como se o realizador estivesse tão consciente do que estava a fazer que tenha condenado o seu ambicionado vulcão de ouropel a uma extinção a priori. Eu, que adoro o trabalho sumptuoso da forma, cheguei a desejar que aqueles actores, de talento inesgotável, andassem por ali sem outra mise en scène a não ser a sua própria desorientação. No rescaldo, pareceu-me ter visto um pseudo-Lynch erudito. Mais do que nunca Resnais me pareceu distinto de Godard, que é incapaz de ousar uma forma sem com ela ousar o conteúdo e a emoção do seu espectador.

Todavia, os melhores filmes da história do cinema são aqueles que temos de aprender a apreciá-los. Espero, por isso, estar enganado, e que alguém me ensine a ver "Les herbes folles".

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