quarta-feira, abril 28, 2010

Festa na cidade

Este ano decidi visitar, pela primeira vez, os Dias da Música. Claro que apreciei imenso o essencial do evento, o seu carácter festivo, a qualidade dos concertos (cinco récitas a que assisti, cinco contentamentos plenos), a enchente de público, até a organização me pareceu boa.

Fiquei, contudo, a pensar que quase nunca saí de um concerto de música dita erudita com a sensação de murro no estômago com que abandonei salas de cinema, palcos, exposições ou páginas de livros. É claro que a música, por ser não figurativa, não terá a mesma vocação directamente interventiva de outras manifestações de criatividade, mas não deixa de ser estranho que os recitais se façam sempre para dar o prazer de um bom serão ao público. Eu também gosto de filmes que nos reconciliam com a vida, mas se os filmes fossem todos assim, eu começava a desconfiar do cinema. E, de qualquer modo, as obras de Beethoven, Alban Berg ou Luigi Nono serão tão irreverentes quanto os melhores passos de Lautréamont ou Samuel Beckett.

Embora eu já esteja cheio de ouvir falar em conceitos, a verdade é que os músicos ganhariam em elaborar os seus recitais com base em conceitos mais complexos, mais desafiadores, menos carentes de aplauso oco, com menos vestido de diva e mais angústia partilhada sem paliativos, com mais desejo do que satisfação. Quem se importa com o lugar certo para bater as palmas? Queremos é ser toldados pelo groove da fúria.

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