quarta-feira, abril 28, 2010

Capítulo 91

No capítulo "O Pequod encontra o Botão de Rosa" do romance "Moby Dick", Melville descreve, com regalada ironia, a inexperiência do capitão do navio com nome florido para os assuntos da captura da baleia. O Botão de Rosa, barco francês, leva dois troféus de pesca atracados ao seu casco em tão mau estado fisiológico que já não são capazes de fornecer uma quantidade de óleo minimamente lucrativa. Ainda por cima, uma das baleias mortas guarda no seu corpo a marca de um prévio ataque (feito pelos marinheiros do Pequod), e por isso o navio de inexperientes deveria ter-se abstido de usurpar um cadáver que, pelas leis não escritas da vida no mar, não lhe pertencia.

Stubb, figura de destaque da embarcação onde navega o protagonista, sobe a bordo do Botão de Rosa, e encontra um marinheiro que sabe falar inglês. Como Stubb pretende vingar-se da usurpação gaulesa (roubando o âmbar negro que, esse sim, existe em abundância num dos cadáveres), e o seu interlocutor se quer livrar das baleias fétidas e inúteis que o seu navio arrasta, resolvem pregar uma partida ao capitão ignorante. Vão falar com ele, e enquanto Stubb disparata na língua de Shakespeare, o tradutor transmite uma mensagem que não tem nada a ver com o original. Pretendem assim levar a água ao moinho de ambos.

Transcrevo em seguida todo o passo, na versão de Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves, na medida em que ele me parece uma espécie de alegoria engenhosa do conceito de subtexto. Tudo o que Stubb diz em inglês funciona como subtexto daquilo que, posteriormente (e é nesta inversão que a alegoria se forma), o seu tradutor comunica:

"- Que lhe vamos dizer para principiar? - perguntou ele.
- Bem - respondeu Stubb, olhando a jaqueta de veludo, o relógio e os berloques que representavam um selo e um sinete - podes começar por lhe dizer que é demasiado infantil para mim, se bem que não esteja a fazer de juiz.
- Diz ele,
monsieur - traduziu o homem de Guernsey, em francês, virando-se para o seu capitão -, que ainda ontem o seu navio cruzou com um barco, cujos capitão e imediato, bem como seis marinheiros, tinham morrido com uma febre causada por uma baleia apodrecida que arrastavam ao lado.
Ouvindo isto o capitão estremeceu, e exprimiu ansiosamente o desejo de saber mais sobre o caso.

- E agora? - continuou o homem de Guernsey dirigindo-se a Stubb.
- Pois bem, já que ele acredita tão facilmente, diz-lhe agora que depois de ter olhado cuidadosamente para ele, estou absolutamente certo de que está tão qualificado para comandar o baleeiro como um macaco de Santiago. Diz-lhe que de facto não passa de um bugio.

- Ele jura e declara,
monsieur, que a outra baleia, a seca, é ainda mais perigosa do que a apodrecida; em resumo, monsieur, ele conjura-nos, se damos valor à vida, a desembaraçarmo-nos destes peixes.
Instantaneamente o capitão correu para a proa, e com voz estrepitosa ordenou à tripulação que não içasse as talhas de corte e que largasse os cabos e as correntes que prendiam as baleias ao navio.

- E agora mais? - perguntou o homem de Guernsey quando o capitão voltou para junto deles.
- Ora, deixa-me pensar; sim, vais-lhe dizer agora... agora... que foi enganado e (aparte para ele próprio) talvez mais alguém com ele.

- Ele diz, monsieur, que está muito contente por nos ter podido prestar este serviço."

Festa na cidade

Este ano decidi visitar, pela primeira vez, os Dias da Música. Claro que apreciei imenso o essencial do evento, o seu carácter festivo, a qualidade dos concertos (cinco récitas a que assisti, cinco contentamentos plenos), a enchente de público, até a organização me pareceu boa.

Fiquei, contudo, a pensar que quase nunca saí de um concerto de música dita erudita com a sensação de murro no estômago com que abandonei salas de cinema, palcos, exposições ou páginas de livros. É claro que a música, por ser não figurativa, não terá a mesma vocação directamente interventiva de outras manifestações de criatividade, mas não deixa de ser estranho que os recitais se façam sempre para dar o prazer de um bom serão ao público. Eu também gosto de filmes que nos reconciliam com a vida, mas se os filmes fossem todos assim, eu começava a desconfiar do cinema. E, de qualquer modo, as obras de Beethoven, Alban Berg ou Luigi Nono serão tão irreverentes quanto os melhores passos de Lautréamont ou Samuel Beckett.

Embora eu já esteja cheio de ouvir falar em conceitos, a verdade é que os músicos ganhariam em elaborar os seus recitais com base em conceitos mais complexos, mais desafiadores, menos carentes de aplauso oco, com menos vestido de diva e mais angústia partilhada sem paliativos, com mais desejo do que satisfação. Quem se importa com o lugar certo para bater as palmas? Queremos é ser toldados pelo groove da fúria.

quarta-feira, abril 21, 2010

"Ruínas" - imagem

O ACTUAL 26

"Ruínas" - Manuel Mozos

"Ruínas" começa com a imagem da implosão de um edifício. De facto, o discurso do progresso (representado pelos moinhos de energia eólica no fim do filme) gostaria de ter o poder de apagar por completo o rasto desse empecilho chamado passado. No entanto, assim como continuam a aparecer velas e flores na estátua de um santo de jazigo, muito depois da pessoa que a encomendou ter morrido sem deixar descendentes, as ruínas estão aí para contar a sua história. Não sei se isso acontece noutros países, mas Portugal é um país de ruínas.

E como filmar ruínas? Através de um processo de adequação quase magnética entre corpos, cenário e ficção, a vida tende para a singularidade. Cada narrativa é de tal modo pesada para aqueles que a vivem, que tende a ser sentida como única. A relevância adquire toda a desproporção que o afecto lhe permite. Ora, Manuel Mozos decidiu prescindir da encenação de corpos, desvalorizar a correcta e individual adequação das ficções que evoca aos cenários que lhes atribui (não sabemos se os textos declamados têm relações de facto com aqueles lugares), e filmou os cenários como manifestações imediatas da passagem de um tempo apodrecido.

Pela ordenação que a montagem traz a esse encadeado documental, surgem três consequências:

1. As ficções sofrem um processo de homogeneização. Como os seus protagonistas estão, em princípio, mortos, ou pelo menos afastados dos cenários filmados, as ficções (que desvendam anedotas individuais, ideologias de moralidade, política e economia, situações de ócio e entretenimento, etc.) ficam todas reduzidas a um mesmo valor. O valor da ruína.

2. O filme deixa então de versar sobre este caso ou aquele (não é referido o nome próprio de ninguém), e adquire um carácter discursivo abstracto.

3. Em consequência, a obra constrói a imagem colectiva e fóssil de um Portugal antigo (aquele que sobreviveu até ao fim do Estado Novo), um Portugal de sanatórios, padres poderosos, teatros de variedades, missivas educadas e contos e ditos.

Sobreviverá a identidade do país à implosão da aldeia global? E poderemos estar orgulhos dessa identidade que se assemelhava, em todo o seu pó e bolor, a uma ruína avant la lettre?


P.S. - Gostaria de sublinhar o gosto que me deu ouvir toda uma estilística da nossa língua que está completamente perdida. Curiosamente, não tenho a certeza de que a memória desse português seja pessoal ou uma reconstrução fornecida pelo audiovisual.

Confissão 28

Se alguma coisa aprendi com as ousadias e os erros do surrealismo, foi a ter respeito pelo inconsciente, seja lá o que isso for. Não quer dizer que pratique a escrita automática, da qual desconfio. Mas acredito realmente que a coerência mais férrea e a originalidade mais insuspeita de um texto literário são fornecidas por aquilo que nele não conseguimos controlar.

Daí que não estabeleça pontes entre a minha actividade de escrita poética e o meu esforço de reflexão sobre a poesia e a criação em geral (que é um esforço de índole assumidamente lógica). Há muitas dimensões da minha poesia sobre as quais nem discorro. E raramente tento aplicar um conceito teórico num poema.

Ponho-me, portanto, nas mãos da minha saúde mental. Espero não sofrer de múltiplas personalidades, e que as diferentes facetas da minha vida intelectual se relacionem umas com as outras com um mínimo de coerência aceitável.

domingo, abril 18, 2010

Partilha 81

as sete ex-maravilhas

o farol de alexandria
(o sol)
e o olhar que o quer olhar sem escolhos infinitivos
e quatro botões
que aos quatro ventos abrem casas
ex-sedentárias:
norte sul sim não

talvez não valha a pena dizer o mundo
em poema
se p'ra quase ninguém
o mundo soa enxuto
(Façamos
uma eternidade de silêncio
pelas vítimas deste minuto?)

Gostaria de ter escrito 7

"For unless you own the whale, you are but a provincial and sentimentalist in Truth."

"Champollion deciphered the wrinkled granite hieroglyphics. But there is no Champollion to decipher the Egypt of every man's and every being's face."

Herman Melville

Nota "Les herbes folles"

Não faço parte do grupo de cinéfilos que lamentam o facto de Alain Resnais ter decidido, a partir de um certo momento na sua obra, construir filmes a partir de textos assumidamente menores. É claro que é estranho ver o autor de "Hiroshima mon amour" ir perdendo, ano após ano, a ágil gravidade que o animou na juventude. Mas cada um envelhece como pode (e não como os outros querem) e, de qualquer modo, o Resnais superficial já nos deu obras belíssimas como "Smoking / No smoking" ou a mais recente "Coeurs".

O visionamento de "Les herbes folles", no entanto, deixou-me insatisfeito. É claro que o filme é rigorosíssimo na transposição do texto para o cinema: Resnais é um leitor privilegiado. Ora, a folie que ele pretendia partilhar pareceu-me precisamente congelada na inteligência formal, como se o realizador estivesse tão consciente do que estava a fazer que tenha condenado o seu ambicionado vulcão de ouropel a uma extinção a priori. Eu, que adoro o trabalho sumptuoso da forma, cheguei a desejar que aqueles actores, de talento inesgotável, andassem por ali sem outra mise en scène a não ser a sua própria desorientação. No rescaldo, pareceu-me ter visto um pseudo-Lynch erudito. Mais do que nunca Resnais me pareceu distinto de Godard, que é incapaz de ousar uma forma sem com ela ousar o conteúdo e a emoção do seu espectador.

Todavia, os melhores filmes da história do cinema são aqueles que temos de aprender a apreciá-los. Espero, por isso, estar enganado, e que alguém me ensine a ver "Les herbes folles".

segunda-feira, abril 12, 2010

Momento conservador

No sábado passado, num dos mil suplementos que o jornal Expresso retira às pobres arvorezinhas, foi publicada uma not(íci)a referindo alguns exemplos de previsões famosas que saíram furadas. Furadas porquê? Sou suficientemente teimoso para fazer tudo depender do ponto de vista.


Margaret Thatcher: "Demorarão anos - não será no meu tempo - até que uma mulher seja primeiro-ministro" (1974) - Certo: não foi no seu tempo específico enquanto líder política que uma mulher cumpriu os requisitos de um exercício de poder verdadeiramente democrático.

Rutherford Hayes: "O telefone é uma boa invenção, mas quem o quererá utilizar?" (1876) - Certo: o uso do telefone corresponde menos a um acto de vontade verdadeiramente livre do que a uma compulsão doentia a que ninguém, no seu perfeito juízo ideal, sucumbiria.

H. M. Warner: "Quem é que raio quer ouvir os actores a falar?" (1927) - Certo: as pessoas vão ao cinema para verem os actores despirem-se, fazerem gracinhas ou rebolarem no chão após explosões.

Funcionário do Michigan Savings Bank: "O cavalo está cá para ficar, mas o automóvel é apenas uma novidade, uma moda" (1903) - Certo: em breve, haverá teletransporte e facilidades quejandas; o cavalo permanecerá insubstituível; é até possível que passemos a mencionar a potência dos motores dos teletransportadores em termos dos cavalos que eles possuem.

Ken Olson: "Não há razão para alguém querer ter um computador em casa" (1981) - Certo: um, não; vários, sim!

Cruzes canhoto

Há uma relação (não pretendida) entre a letra convencionada para representar a incógnita, a letra X, e a cruz que, a partir da Paixão de Cristo, se tornou um dos símbolos mais omnipresentes (e mais omnideprimentes) da cultura ocidental.

O X é a cruz transportada ao longo da Paixão, a cruz de um sofrimento terreno tal que só pode descambar em dúvida. A mudança de posição do X equivale à concretização da morte-ressurreição, de peso oblíquo torna-se símbolo recto e erecto, a incógnita cedendo perante a imposição espectacular da fé.

Se ainda não há um quadro represento o Cristo já morto numa cruz caída em X, então a história da pintura não pode estar terminada.

sábado, abril 10, 2010

Partilha 80

verde pino (a lo profano e a lo divino)


sou um tipo tão insignificante
que ainda acabo a fundar uma religião
espero (pelo menos)
que os meus sacerdotes
digam missas ao som dos vampire weekend
fodam gente que seja do seu tamanho
e estejam livres do sotaque lá de chima

hei-de arrancá-lo de dentro de mim
nem que para tal
recorra ao exorcismo
já que tenho a cabeça a andar à roda
ao menos que o escarre
em efeito
ESPECIAL

Partilha 79

auto-sombra


sorri sempre
que
te puxarem pelas extremidades dos teus lábios
até sangrares na horizontal
é assim que muita gente
sobe
na vida

por vezes
fico desesperado
por o mundo não ser como eu queria
mas se o mundo fosse como eu queria
como os outros queriam ele não seria
enfim
o mundo vai acabar mais dia menos dia :)

quinta-feira, abril 08, 2010

"Ma nuit chez Maud" - imagem

O INACTUAL 46

"Ma nuit chez Maud" - Eric Rohmer (1969)


Se algum conservadorismo Rohmer manifesta neste seu filme célebre, ele prende-se com a intuição de que talvez não haja nada tão sexual como uma conversa. Todo o suspense da noite passada em casa de Maud é orientado para fazer do espectador um voyeur da sensualidade do pensamento no momento em que ele está a ser partilhado.

Se falo de conservadorismo é porque, à sua maneira muito desajeitada, o realizador se opõe à certeza quase consensual da modernidade (desde a vanguarda surrealista até à comédia screwball) de que todo o indivíduo fará soçobrar o seu sistema de crenças perante a força do erotismo. Ora, Rohmer parece desconfiado dessa animalidade algo romântica, e tenta filmar a luxúria do intelecto que leva a que o homem moral se confunda com um imberbe casmurro.

De qualquer modo, o presente (o trânsito caótico entre marxismo, conservadorismo e livre-pensamento) não consegue escapar à interrupção imposta pelo eterno, por essa neve que obriga os indivíduos a pernoitarem no amor independentemente do rumo que para si mesmos haviam traçado.

Só que a escolha entre a morena e a loura, entre a mulher com quem se estabelece um profundo entendimento sensual e aquela outra com quem se pode construir um percurso religioso maior do que a vida, é tão difícil que nem consigo arrasta um dramatismo de índole catártica. A graça de que o protagonista se reclama pode não ser mais que o discurso auto-viciado da sua esperança. A revelação de Françoise como esposa ideal, logo no início do filme, talvez seja apenas a manifestação liofilizada da sua perversidade erótica (um corpo sob a luz da liturgia).

E depois, quem na verdade decide tudo é Maud. Maud (uma magnífica Françoise Fabian) é a grande personagem do filme. Ela recusa-se a ter sexo com o protagonista, depois de tudo ter preparado para que isso fosse inevitável, porque entende que a convicção religiosa de que ele se reclamava afinal não fez dele um homem talhado para a fidelidade. É uma tentadora por devoção ao sonho do amor.

Se Rohmer se expõe em alguma personagem, será certamente nesta mulher que sabe que uma pessoa é muito mais do que a soma do seu corpo e do seu espírito.

segunda-feira, abril 05, 2010

Galeria 49



Herman Melville

Usarei como epígrafe...

dos meus personetos:


"He would say the most terrific things to his crew, in a tone so strangely compounded of fun and fury, and the fury seemed so calculated merely as a spice to the fun, that no oarsman could hear such queer invocations without pulling for dear life, and yet pulling for the mere joke of the thing."

Herman Melville

domingo, abril 04, 2010

Os contemporâneos

Em épocas de ocultação, tem de haver quem faça o trabalho de denúncia, de rasgar os véus. No entanto, quando a exposição se tornou uma banalidade, quando tudo é mostrado até à náusea e a mediação intelectual tende para a pornografia (mesmo se não pretendida), então é preciso que haja gente que nos lembre que a arte não se confunde com a vida.

Dito de outro modo, o artista tem de ser uma arma de precisão na escolha daquilo que vai revelar. Tanto Bertolt Brecht quanto Josef von Sternberg detinham a virtude desta ética.

sábado, abril 03, 2010

Partilha 78

catálogo dos pássaros - voos
"como posso saber viver
se não sei voar?"

pedro ludgero


oriolus oriolus
voamos em bandos de trinta dinheiros: chamamos um figo ao tema do Céu

charadrius alexandrinus
não fosse o pássaro a pôr as coisas nos seus lugares, e tomaríamos o Céu por um close up

carduelis carduelis
já não há Céu, apenas imensos blues onde tentamos cair nos buracos de deus

monticola solitarius

quero ir para a cama com uma paisagem para fazer do Céu um bom lençol

delichon urbicum
deixo nuvens a marcarem o regresso, mas joão e maria fazem danças da chuva

estrilda astrild (aka banksy)
apenas isto o dia do juízo final: todas as linhas que os pássaros voaram ficarão visíveis

acrocephalus scirpaceus
voarei, revoarei, devoarei até que os homens inventem o nó cabeça-de-rouxinol


(Imagem retirada deste blogue)

Tradução 22

Poema "Os cisnes selvagens de Coole" de William Butler Yeats, traduzido por mim:


"As árvores estão em beleza de outono,
No bosque os trilhos estão secos,
Sob o crepúsculo de Outubro as águas
Reflectem céus quietos;
No lago que por pouco suas margens transcorre
Estão cisnes, cinquenta e nove.

Já o décimo nono outono sobre mim caiu
Desde essa primeira contagem;
Vi-os, antes de ter chegado ao fim,
De súbito elevarem-se
'spalhando rotação em argolas quebradas
Nas suas clamorosas asas.

Tais brilhantes criaturas contemplei,
E agora o coração tem mágoa.
Tudo mudou desde que, após eu ter ouvido,
No ocaso antigo desta margem,
Sobre a cabeça o toque-de-sino do voar,
Optei por um mais leve caminhar.

Não cansados ainda, amante junto a amante,
Eles remam nas frias
E gregárias correntes ou escalam o ar;
São corações sem velharia;
Paixão, conquista, errância a bel-prazer,
Ao seu serviço ainda hão-de ter.

Mas agora el's flutuam nas águas paradas,
Tão belos e enigmáticos;
Entre que juncos construirão,
Junto a que orla de lago ou charco
Mostrarão seu encanto, quando eu despertar um dia
E perceber que eles partiram?"


(O texto original pode ser lido aqui)

sexta-feira, abril 02, 2010

"Perceval le Gallois" - imagem

O INACTUAL 45

"Perceval le Gallois" - Eric Rohmer (1978)


Numa das cenas mais inesperadas deste filme não consensual de Rohmer, o jovem Perceval afasta agressivamente dois cavaleiros que o tentam demover do estado de concentração obsessiva nos seus próprios pensamentos. A sequência faz a luz necessária sobre a relação do cineasta da nouvelle vague francesa com o texto medieval.

Pois é lógico que o assunto imediato do romance de Chrétien de Troyes é a demanda da espiritualidade cristã sob a égide da mitologia arturiana. Mas é preciso notar que a encenação da Paixão de Cristo que a obra nos fornece perto do seu término se faz com recurso a uma narração na qual as personagens bíblicas não participam verbalmente (ou seja, vemos os seus corpos em acção, mas as palavras, mesmo as que pertencem aos diálogos, estão todas a cargo do grupo de narradores-cantores). Ao contrário, durante a história principal de "Perceval le Gallois", as personagens verbalizam simultaneamente os seus diálogos (o que é a norma em todos os filmes) e a parte textual referente à narração (por exemplo, referem-se a si mesmas com expressões do género: "e ele disse o seguinte").

A moral cristã é um modelo de comportamento a que Rohmer não será nada alheio ("Die Marquise von O" ainda vai mais longe na exploração dessa inquietação). Todavia, a sua distância enquanto encenador fá-lo ser mais favorável à observação da dificuldade que as personagens têm na gestão dessa moral do que a uma possível crítica (mesmo que positiva) da substância desta. Assim sendo, o facto das personagens se narrarem a si mesmas (e de não haver diferença no tratamento emocional dos dois níveis heterogéneos de texto que elas assumem) é o aspecto mais revelador da obra, e a chave que a liga aos filmes "sobre o presente" de Rohmer. As personagens raciocinam e verbalizam uma tensão moral, como se todas fossem filósofas do seu próprio devir.

Perceval é jovem, mas as suas asneiras constantes decorrem precisamente de ele tentar aplicar a ética que os adultos lhe ensinaram... A mãe diz-lhe para beijar donzelas e não exigir mais nada além disso. E o rapaz beija de facto uma rapariga: só que esta já tinha companheiro e para além disso não lhe deu o consentimento necessário ao seu gesto. Mais tarde, tenta cumprir o preceito de uma figura paterna que encontra durante o seu percurso (mantém o controlo da curiosidade no castelo do Rei Pescador), e cria a sua própria travessia no deserto (se tivesse feito as perguntas certas, teria ido longe na conquista da espiritualidade). Pois mais importante do que seguir um catecismo, é avaliar a sua substância de acordo com cada proposta de acção que a vida traz.

Esta obliquidade da personagem (a personagem é acima de tudo o diálogo consigo mesma) não diminui o impacto dos filmes rohmerianos (até porque a sensualidade é neles a principal matéria). Aliás, nos filmes "sobre o presente", Rohmer consegue fazer com que os dilemas na aparência apenas sentimentais das personagens obriguem a própria época a narrar-se a si mesma, com esse mesmo grau de obliquidade (o realizador não precisa de ser sempre explícito como em "Ma nuit chez Maud"). Se os castelos de "Perceval le Gallois" são de papelão, essa atitude perante o contexto prolonga-se por toda a filmografia do francês. Como se as cidades, as casas, as ruas, falassem (ou até cantassem) aquilo que, culturalmente, está nelas em jogo.

O filme termina abruptamente porque, se não se pode saber tudo sobre um tempo, um assunto, ou uma narrativa, então mais vale não fingir essa omnisciência (de qualquer modo, o cinema de respeito pelo texto que à época se praticava levava os cineastas a gestos de profunda ousadia na relação com a literatura - a obra de Troyes foi deixada inacabada). E se há um estranho personagem secundário, um cavaleiro adulto, que a uma dada altura colhe protagonismo, é para demonstrar como a sua suposta maturidade não o livra de ser menos casmurro. A sua fidelidade aos pensamentos põe-no mesmo em risco de vida (e maior violência que esse risco não existe no cinema de Rohmer).

A verdade é que a Béatrice Romand de "Conte d'automne" prolonga o Melvil Poupad de "Conte d'été". Ao contrário do que todos nós apressadamente supomos, o autor de "Le genou de Claire" vem-nos dizer que a moral é o principal indício de permanência da juventude.

quinta-feira, abril 01, 2010

Estourar a caixa antiga



27 de Março, às 19h00, em Espinho
(imagens de Pedro Jordão)

Partilha 77

floema


eu
que podia escrever um mensageiro das estrelas
por cada ser que desejei sem atingir
hei-de um dia
mudar-me para sempre em membracídeo
(e para sempre ser então
the next big thing)

todo aquele que tenta agarrar a existência
com pauzinhos
sabe quão difícil é
manter
a fleuma da peónia
sou um poeta japonês
na selva amazónia