quinta-feira, março 11, 2010

Por intuição

Após trinta e sete anos de experiências, leituras e conversas, tenho a convicção de que a valorização da castidade feminina e o preconceito contra a homossexualidade não têm nenhum fundamento ético, muito menos transcendente, mas poderão ser facilmente explicados com recurso à antropologia (que é uma área do saber sobre a qual muito pouco sei).

Se os conservadores gostam de humilhar os homossexuais com o argumento de que, na natureza, não há maricas (o que já está provado ser uma mentira), nunca os ouço falar do famigerado recato erótico das cadelas e das gatas (pois são famosas as Lassies de convento, os Clubes das Virgens Labradoras, ou as Kitties que durante o dia brincam com novelos e à noite cuidadosamente os refazem com o intuito de atrasar o cio dos pretendentes sobre os telhados).

Eu diria que a cultura de castidade feminina (que persiste no cristianismo, no islamismo, na mundividência cigana, etc.) serviu simplesmente para contornar o problema da probabilidade de gravidez que resulta do acto sexual. Alguns povos índios da Amazónia tinham acesso a plantas capazes de funcionarem como contraceptivos durante vários anos, plantas essas que eram fornecidas às raparigas adolescentes para elas poderem gozar de grande liberdade sexual até ao momento de assumirem uma certa conjugalidade (digo "uma certa" porque muitas tribos não tinham expectativas em relação a enlaces para a vida inteira). Estes povos capazes de uma efectiva alternativa de sociedade foram considerados bárbaros demoníacos pelos colonizadores europeus.

Se a evolução da ciência e do pensamento nos fizeram perceber que não há éticas absolutas (e acima de tudo que ninguém, mas mesmo ninguém, está na posse de um razão moral indiscutível), a generalização da contracepção deu a machadada final na utilidade de tal cultura. Curiosamente, a cultura mantém-se, muito mitigada, é certo, mas mantém-se, como um laivo de fanatismo.

De igual modo, o preconceito contra a homossexualidade dever-se-á à esterilidade reprodutiva dos actos sexuais que lhe estão associados, o que constituiria uma ameaça à preservação da espécie. Nem sequer vou falar da possibilidade contemporânea de reprodução artificial, mas apenas lembrar que somos um planeta humanamente sobrepovoado, que as reais ameaças que se colocam à espécie não resultam da baixa demografia (mas sim do pânico nuclear ou da irresponsabilidade ecológica), e que a crise de natalidade nos países desenvolvidos do Ocidente é o resultado de uma nova cultura, a cultura do conforto, que dita altas expectativas de padrão de vida a todos aqueles que tentam constituir família.

Não há nenhuma razão verdadeiramente válida que sustente a permanência da homofobia no mundo dito civilizado. Homofobia muita mitigada, claro, mas que se mantém, como outra forma de fanatismo.

Somos uma espécie moderna, mas cheia de tiques antigos.

2 comentários:

rafael Costa disse...

Cada dia que passa, sinto quem nem sei mais pelo que luto. Ética, democracia, às vezes quero que se exploda.

Mas sim, ainda acredito nas oito maneiras de mudar o mundo que onu lançou.

Abraço


Rafa

pedroludgero disse...

Percebo o que queres dizer...

ab