domingo, março 14, 2010

Nota "Mulheres traídas"

O amor será talvez o tema dos piores filmes. E dos melhores, também.

O documentário "Mulheres traídas [making of]" de Miguel Marques coloca a sua pedra-de-toque no lugar deste paradoxo. Ele é o registo da rodagem de um filme de ficção realizado por Maria José Silva, magnífica personagem da cidade do Porto, comerciante amadoramente dedicada ao cinema, à escrita e à música.

Por um lado, o documentário é um retrato indirecto do sofrimento sentimental da Mulher no passado recente (aquilo que Maria José Silva tenta exprimir através do melodrama). Nesse sentido, Marques não se limita a fazer o making of de um filme, mas consegue capturar o making up que esse filme constitui sobre uma verdade vital.

Mas é por causa disso mesmo que esta obra é também o registo de uma evidência que os críticos fingem desconhecer e que os públicos na verdade desconhecem: muitas vezes, o amor que temos pelo cinema é mais eloquente do que os filmes que efectivamente fazemos. Tim Burton também andou por aí quando fez "Ed Wood". Para que serve a cultura se não passar de apanágio da inteligência estéril de uma elite?

Apenas criticaria Marques por não ter conseguido dominar todos os aspectos técnicos do seu filme, de modo a criar uma distanciação mais significativa perante a "naïveté" do objecto documentado. Contudo, presumo que a obra foi feita com meios demasiado frágeis para conseguir atingir esse nível de acabamento.

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