quarta-feira, março 17, 2010

História de um prurido

Nunca me pareceu que a comédia romântica fosse um género tão relevante e frutuoso quanto o western (com o seu impulso de inventar uma mitologia americana, apesar da encenação estereotipada do índio só poder merecer a nossa maior condenação), o filme de guerra (que se dedica a um tema tão pungente que acaba por ter de desaguar em ambição), o filme negro (influenciado por uma literatura musculada e trabalhado por realizadores de muito talento), o filme de suspense (que Alfred Hitchcock assumiu, revolucionou e aperfeiçoou ao ponto de ainda hoje ser uma sombra que ridiculariza os seus muitos imitadores), a ficção científica (cuja ambição é metafísica, para o melhor e para o pior), a comédia burlesca (o mais belo dos géneros, e que, por isso mesmo, acabou), ou até a comédia musical (que precipitou a maturidade do uso da cor).

Basicamente, a comédia romântica faz a apologia do casamento, e a sua desenvoltura no passado será certamente explicada pelo facto desse contrato ter funcionado como missão, carreira e destino da mulher (seu público-alvo) até aos anos sessenta. A partir do momento em que os dados da vida sentimental adquiriram outra inteligência, a comédia romântica tornou-se um mero exercício de indigência delicodoce. Poucos exemplos o cinema moderno conseguiu oferecer que se comparem com "His girl friday" de Howard Hawks, "Heaven can wait" de Ernst Lubitsch ou "It should happen to you" de George Cukor.

"Up in the air" ("Nas nuvens") faz o check-in de todas as regras, antiquíssimas, do género. Até o facto do protagonista ser George Clooney, de quem a imprensa cor-de-rosa vende a imagem de solteirão inveterado, é um jogo que os realizadores mais sagazes sempre souberam jogar (Cukor brincou com a arrogância de Katharine Hepburn em "The Philadelphia Story", parte da filmografia de Marylin adquire sentido a partir dessa estratégia, etc.). O que dizer? Tudo bem feitinho, argumento composto com todas as regras da escrita criativa, realização sem grande força nem imaginação, mas também sem erros. Como é que Jason Reitman não tentou sequer encontrar uma maneira de filmar que fosse "up in the air"?

O prurido que intitula este post deve-se ao facto de esta comédia romântica, que, mais do que fazer a apologia do casamento, é uma celebração dos valores familiares, usar como pano de fundo para o seu argumento a vaga imparável de despedimentos que a recente crise económica desencadeou. O sofrimento social é só mesmo isso: um pano de fundo para um devaneio de sentimentalismo. Nada é dito de substancial sobre o drama do desemprego, sobre as suas consequências sociais e psicológicas ou sobre a maneira específica como ele se está a revelar neste momento da História. Enquanto via o filme, eu perguntava-me se, de um ponto de vista ético, ou mesmo político, isto é aceitável...

Mas depois lembrei-me de Hitchcock, e das suas histórias de amor (pois era isso essencialmente que ele filmava) desenvolvidas no contexto da Segunda Guerra Mundial. É claro que aí há alguma diferença: o realizador britânico nunca escondeu a vontade de participar no esforço de propaganda bélica através do cinema (e, por uma vez, até estamos todos de acordo com esse esforço, da direita à esquerda...). Ou seja, ele estava afinal a pronunciar-se sobre o seu pano de fundo. De qualquer modo, a guerra dos seus filmes é um papelão superficial que não sei se será ainda hoje aceitável perante tudo o que sabemos sobre o conflito, desde Auschwitz até Hiroxima.

Não sei se devo tolerar a irresponsabilidade de "Up in the air" e esquecê-lo com a bonomia que se empresta às coisas irrelevantes, ou se preciso de moderar a minha admiração por Hitchcock. Ou então, se a diferença entre os dois casos é, de facto, significativa. Gostava de saber a opinião de outros cinéfilos.

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