segunda-feira, março 08, 2010

Casting 13

Gosto de amadores, de naturais, daqueles que se expõem, daqueles que partilham uma verdade em carne viva, dos que vivem do seu carisma, de cabotinos, de mestres da dicção, de actores do Método, de actores de composição. Gosto de alguns indivíduos a despeito das (des)técnicas em que se protegeram. Mesmo assim, se é lamentável ter estima por Emma Thompson, muito pior é torcer por Meryl Streep.

Streep tem o génio do drama. Se alguma inteligência revelou ao nível da gestão da carreira, ela revela-se na aproximação ao registo de comédia a partir de uma certa idade: as suas performances não serão aí tão consensuais, mas o seu rosto-de-tearjerker conseguiu assim conquistar uma fotogenia agri-doce que impediu uma excessiva cristalização da imagem da vedeta.

De qualquer modo, Meryl Streep está demasiado conotada com a corte de Hollywood (as constantes nomeações para os Óscares são muito mais uma sinalização dessa fidelidade do que um registo rigoroso do mérito). Praticamente não correu riscos ao longo de uma carreira assumida enquanto tal. Nem é preciso pensar em Isabelle Hupert como contraponto. Basta lembrar Ingrid Bergman, e a sua facada nas expectativas do entertainment às mãos do improvável Roberto Rossellini. A verdade é que me é difícil recordar grandes obras-primas beneficiadas com a sua presença: "Manhattan", certamente, definitivamente "The deer hunter" (na minha opinião, o melhor filme sobre o Vietname). Nunca vi o filme de Karel Reisz. Mas, por favor, não me chateiem com "Out of Africa".

Então, porquê a minha devoção à actriz?

Quase todos os grandes intérpretes atingem um ponto de esgotamento. Basta seguir as filmografias de Anthony Hopkins, Jeremy Irons ou Montgomery Clift, para nelas encontrar constantes manifestações de tédio, de frete, de compostura meramente profissional. Certos actores, como Sean Penn ou Elizabeth Taylor, estão tão possuídos por uma ambição sisuda que ela lhes tolhe a verdade dos gestos. E outros, como Jack Nicholson ou Bette Davis, resvalam muitas vezes para esse insuportável número de circo chamado preguiça.

Ora, nada disto vejo em Meryl Streep. O que eu sempre reencontro no ecrã que a recebe é uma espécie de prazer desmesurado no virtuosismo da composição, um prazer que me parece absolutamente intocado e que constituirá a principal razão da anormal longevidade do seu sucesso. Streep continua a adorar representar, e fá-lo com a mesma disponibilidade (e inteligência lúdica) da sua juventude. Em todos os filmes, em todas as cenas, em todas as personagens. Sem excepção. Nisso, não tem rival no contexto anglo-saxónico. E para nós, espectadores, é um prazer seguir o seu prazer.

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