sábado, março 27, 2010

The boring parts

Imagino que o capítulo 32 do romance "Moby Dick" (intitulado "Cetology") seja desvalorizado tanto pelos leitores ávidos de acção como por aqueles que, com conhecimento de causa, o relegam para o campo das curiosidades desactualizadas. Trata-se de um esboço de cetografia (o estudo dos grandes mamíferos marinhos com forma de peixe), curto demais para ter validade científica, longo demais para não interromper o fôlego narrativo, mas com pretensões de ser a versão mais avançada desse ramo do saber.

Melville comete vários erros, a começar pela defesa de que a baleia é um peixe, quando toda a ciência actual (e presumo que mesmo a ciência do seu tempo) a classifica como um mamífero. Todavia, o capítulo parece-me francamente revelador das intenções mais ou menos conscientes do seu autor. E para além disso, devo dizer que adoro "ciências de brincar", e portanto tive um enorme prazer em ler este trecho borgesiano mais malgré lui que avant la lettre.

O romancista diz que a baleia é um peixe porque, ao contrário do homem de ciência (que, para fundamentar a sua classificação, se socorre de critérios biológicos, como o sangue quente), se baseia na relação do animal com o seu meio. A baleia é um peixe porque vive onde todos os peixes vivem. Já a lontra é um anfíbio porque tanto habita o mar como a terra. Esta diferença de critério será ingénua de um ponto de vista epistemológico, mas é francamente eloquente quanto à deformação intelectual que acompanha o romancista de recorte realista. Apesar da dimensão alegórica da sua escrita, Melville entende a baleia como sendo uma personagem que tem de ser descrita e narrada na interacção verosímil com o meio onde está inserida.

No entanto, esta não é a consequência mais interessante da deriva pseudo-científica do autor. Melville classifica os diversos tipos de baleias que conhece com os seguintes nomes: a baleia in-fólio, a baleia in-octavo, a baleia in-doze. Uma das dimensões mais fascinantes deste épico célebre resulta, precisamente, do facto do escritor desenvolver uma poética que faz equivaler oceano e biblioteca. Não é só a Bíblia que é aplicada ao mar (como diz, e muito bem, o cantautor Vinicio Capossela). É todo um universo de aventura dura e viril que muscula a dinâmica da palavra escrita, e uma vocação metafísica que se torna inseparável da experiência vital do mar. Muitos comentadores terão notado esta ousadia. Eu só pretendo insinuar que a nomenclatura pseudo-científica que Melville propõe no capítulo em questão já fornece, em si mesma, esta chave de leitura.

Por fim, nada será mais revelador que o facto de essa classificação dos cetáceos em três grupos usar como critério principal a dimensão que eles possuem. As baleias in-fólio são as maiores, as baleias in-doze possuem o tamanho mais modesto. O cachalote será, aliás, a maior das baleias maiores. Ou antes, será o maior animal conhecido no planeta. Este gosto pela desmesura ao nível da dimensão, associado à intencionalidade metafísica do romance, parece-me ser uma aplicação prática (e francamente notável) da teoria kantiana do sublime (teoria que, de resto, não subscrevo pessoalmente). Seja do ponto de vista matemático (da extensão que ultrapassa a medida humana de compreensão), seja do ponto de vista dinâmico (da força que excede a medida humana de sobrevivência), é evidente que a experiência sem paralelo (inclassificável) da baleia só poderá colocar o marinheiro perante aquelas Ideias que a Razão reclama sem conseguir esclarecer.

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