segunda-feira, março 29, 2010

A partir de hoje, tenho um directório no site TriploV. O link está na barra lateral do blogue.

sábado, março 27, 2010

The boring parts

Imagino que o capítulo 32 do romance "Moby Dick" (intitulado "Cetology") seja desvalorizado tanto pelos leitores ávidos de acção como por aqueles que, com conhecimento de causa, o relegam para o campo das curiosidades desactualizadas. Trata-se de um esboço de cetografia (o estudo dos grandes mamíferos marinhos com forma de peixe), curto demais para ter validade científica, longo demais para não interromper o fôlego narrativo, mas com pretensões de ser a versão mais avançada desse ramo do saber.

Melville comete vários erros, a começar pela defesa de que a baleia é um peixe, quando toda a ciência actual (e presumo que mesmo a ciência do seu tempo) a classifica como um mamífero. Todavia, o capítulo parece-me francamente revelador das intenções mais ou menos conscientes do seu autor. E para além disso, devo dizer que adoro "ciências de brincar", e portanto tive um enorme prazer em ler este trecho borgesiano mais malgré lui que avant la lettre.

O romancista diz que a baleia é um peixe porque, ao contrário do homem de ciência (que, para fundamentar a sua classificação, se socorre de critérios biológicos, como o sangue quente), se baseia na relação do animal com o seu meio. A baleia é um peixe porque vive onde todos os peixes vivem. Já a lontra é um anfíbio porque tanto habita o mar como a terra. Esta diferença de critério será ingénua de um ponto de vista epistemológico, mas é francamente eloquente quanto à deformação intelectual que acompanha o romancista de recorte realista. Apesar da dimensão alegórica da sua escrita, Melville entende a baleia como sendo uma personagem que tem de ser descrita e narrada na interacção verosímil com o meio onde está inserida.

No entanto, esta não é a consequência mais interessante da deriva pseudo-científica do autor. Melville classifica os diversos tipos de baleias que conhece com os seguintes nomes: a baleia in-fólio, a baleia in-octavo, a baleia in-doze. Uma das dimensões mais fascinantes deste épico célebre resulta, precisamente, do facto do escritor desenvolver uma poética que faz equivaler oceano e biblioteca. Não é só a Bíblia que é aplicada ao mar (como diz, e muito bem, o cantautor Vinicio Capossela). É todo um universo de aventura dura e viril que muscula a dinâmica da palavra escrita, e uma vocação metafísica que se torna inseparável da experiência vital do mar. Muitos comentadores terão notado esta ousadia. Eu só pretendo insinuar que a nomenclatura pseudo-científica que Melville propõe no capítulo em questão já fornece, em si mesma, esta chave de leitura.

Por fim, nada será mais revelador que o facto de essa classificação dos cetáceos em três grupos usar como critério principal a dimensão que eles possuem. As baleias in-fólio são as maiores, as baleias in-doze possuem o tamanho mais modesto. O cachalote será, aliás, a maior das baleias maiores. Ou antes, será o maior animal conhecido no planeta. Este gosto pela desmesura ao nível da dimensão, associado à intencionalidade metafísica do romance, parece-me ser uma aplicação prática (e francamente notável) da teoria kantiana do sublime (teoria que, de resto, não subscrevo pessoalmente). Seja do ponto de vista matemático (da extensão que ultrapassa a medida humana de compreensão), seja do ponto de vista dinâmico (da força que excede a medida humana de sobrevivência), é evidente que a experiência sem paralelo (inclassificável) da baleia só poderá colocar o marinheiro perante aquelas Ideias que a Razão reclama sem conseguir esclarecer.

quarta-feira, março 17, 2010

História de um prurido

Nunca me pareceu que a comédia romântica fosse um género tão relevante e frutuoso quanto o western (com o seu impulso de inventar uma mitologia americana, apesar da encenação estereotipada do índio só poder merecer a nossa maior condenação), o filme de guerra (que se dedica a um tema tão pungente que acaba por ter de desaguar em ambição), o filme negro (influenciado por uma literatura musculada e trabalhado por realizadores de muito talento), o filme de suspense (que Alfred Hitchcock assumiu, revolucionou e aperfeiçoou ao ponto de ainda hoje ser uma sombra que ridiculariza os seus muitos imitadores), a ficção científica (cuja ambição é metafísica, para o melhor e para o pior), a comédia burlesca (o mais belo dos géneros, e que, por isso mesmo, acabou), ou até a comédia musical (que precipitou a maturidade do uso da cor).

Basicamente, a comédia romântica faz a apologia do casamento, e a sua desenvoltura no passado será certamente explicada pelo facto desse contrato ter funcionado como missão, carreira e destino da mulher (seu público-alvo) até aos anos sessenta. A partir do momento em que os dados da vida sentimental adquiriram outra inteligência, a comédia romântica tornou-se um mero exercício de indigência delicodoce. Poucos exemplos o cinema moderno conseguiu oferecer que se comparem com "His girl friday" de Howard Hawks, "Heaven can wait" de Ernst Lubitsch ou "It should happen to you" de George Cukor.

"Up in the air" ("Nas nuvens") faz o check-in de todas as regras, antiquíssimas, do género. Até o facto do protagonista ser George Clooney, de quem a imprensa cor-de-rosa vende a imagem de solteirão inveterado, é um jogo que os realizadores mais sagazes sempre souberam jogar (Cukor brincou com a arrogância de Katharine Hepburn em "The Philadelphia Story", parte da filmografia de Marylin adquire sentido a partir dessa estratégia, etc.). O que dizer? Tudo bem feitinho, argumento composto com todas as regras da escrita criativa, realização sem grande força nem imaginação, mas também sem erros. Como é que Jason Reitman não tentou sequer encontrar uma maneira de filmar que fosse "up in the air"?

O prurido que intitula este post deve-se ao facto de esta comédia romântica, que, mais do que fazer a apologia do casamento, é uma celebração dos valores familiares, usar como pano de fundo para o seu argumento a vaga imparável de despedimentos que a recente crise económica desencadeou. O sofrimento social é só mesmo isso: um pano de fundo para um devaneio de sentimentalismo. Nada é dito de substancial sobre o drama do desemprego, sobre as suas consequências sociais e psicológicas ou sobre a maneira específica como ele se está a revelar neste momento da História. Enquanto via o filme, eu perguntava-me se, de um ponto de vista ético, ou mesmo político, isto é aceitável...

Mas depois lembrei-me de Hitchcock, e das suas histórias de amor (pois era isso essencialmente que ele filmava) desenvolvidas no contexto da Segunda Guerra Mundial. É claro que aí há alguma diferença: o realizador britânico nunca escondeu a vontade de participar no esforço de propaganda bélica através do cinema (e, por uma vez, até estamos todos de acordo com esse esforço, da direita à esquerda...). Ou seja, ele estava afinal a pronunciar-se sobre o seu pano de fundo. De qualquer modo, a guerra dos seus filmes é um papelão superficial que não sei se será ainda hoje aceitável perante tudo o que sabemos sobre o conflito, desde Auschwitz até Hiroxima.

Não sei se devo tolerar a irresponsabilidade de "Up in the air" e esquecê-lo com a bonomia que se empresta às coisas irrelevantes, ou se preciso de moderar a minha admiração por Hitchcock. Ou então, se a diferença entre os dois casos é, de facto, significativa. Gostava de saber a opinião de outros cinéfilos.

Gostaria de ter escrito 6

"Glimpses do ye seem to see of that mortally intolerable truth; that all deep, earnest thinking is but the intrepid effort of the soul to keep the open independence of her sea; while the wildest winds of heaven and earth conspire to cast her on the treacherous, slavish shore?"


Herman Melville

domingo, março 14, 2010

Anabaptismo

O inominável é o nome dado àquilo que ainda está inominado.

Nota "Mulheres traídas"

O amor será talvez o tema dos piores filmes. E dos melhores, também.

O documentário "Mulheres traídas [making of]" de Miguel Marques coloca a sua pedra-de-toque no lugar deste paradoxo. Ele é o registo da rodagem de um filme de ficção realizado por Maria José Silva, magnífica personagem da cidade do Porto, comerciante amadoramente dedicada ao cinema, à escrita e à música.

Por um lado, o documentário é um retrato indirecto do sofrimento sentimental da Mulher no passado recente (aquilo que Maria José Silva tenta exprimir através do melodrama). Nesse sentido, Marques não se limita a fazer o making of de um filme, mas consegue capturar o making up que esse filme constitui sobre uma verdade vital.

Mas é por causa disso mesmo que esta obra é também o registo de uma evidência que os críticos fingem desconhecer e que os públicos na verdade desconhecem: muitas vezes, o amor que temos pelo cinema é mais eloquente do que os filmes que efectivamente fazemos. Tim Burton também andou por aí quando fez "Ed Wood". Para que serve a cultura se não passar de apanágio da inteligência estéril de uma elite?

Apenas criticaria Marques por não ter conseguido dominar todos os aspectos técnicos do seu filme, de modo a criar uma distanciação mais significativa perante a "naïveté" do objecto documentado. Contudo, presumo que a obra foi feita com meios demasiado frágeis para conseguir atingir esse nível de acabamento.

quinta-feira, março 11, 2010

Gostaria de ter escrito 5

"Um vício da sociedade faz da minha rectidão um vício."

Jean Cocteau (trad. Aníbal Fernandes)

Por intuição

Após trinta e sete anos de experiências, leituras e conversas, tenho a convicção de que a valorização da castidade feminina e o preconceito contra a homossexualidade não têm nenhum fundamento ético, muito menos transcendente, mas poderão ser facilmente explicados com recurso à antropologia (que é uma área do saber sobre a qual muito pouco sei).

Se os conservadores gostam de humilhar os homossexuais com o argumento de que, na natureza, não há maricas (o que já está provado ser uma mentira), nunca os ouço falar do famigerado recato erótico das cadelas e das gatas (pois são famosas as Lassies de convento, os Clubes das Virgens Labradoras, ou as Kitties que durante o dia brincam com novelos e à noite cuidadosamente os refazem com o intuito de atrasar o cio dos pretendentes sobre os telhados).

Eu diria que a cultura de castidade feminina (que persiste no cristianismo, no islamismo, na mundividência cigana, etc.) serviu simplesmente para contornar o problema da probabilidade de gravidez que resulta do acto sexual. Alguns povos índios da Amazónia tinham acesso a plantas capazes de funcionarem como contraceptivos durante vários anos, plantas essas que eram fornecidas às raparigas adolescentes para elas poderem gozar de grande liberdade sexual até ao momento de assumirem uma certa conjugalidade (digo "uma certa" porque muitas tribos não tinham expectativas em relação a enlaces para a vida inteira). Estes povos capazes de uma efectiva alternativa de sociedade foram considerados bárbaros demoníacos pelos colonizadores europeus.

Se a evolução da ciência e do pensamento nos fizeram perceber que não há éticas absolutas (e acima de tudo que ninguém, mas mesmo ninguém, está na posse de um razão moral indiscutível), a generalização da contracepção deu a machadada final na utilidade de tal cultura. Curiosamente, a cultura mantém-se, muito mitigada, é certo, mas mantém-se, como um laivo de fanatismo.

De igual modo, o preconceito contra a homossexualidade dever-se-á à esterilidade reprodutiva dos actos sexuais que lhe estão associados, o que constituiria uma ameaça à preservação da espécie. Nem sequer vou falar da possibilidade contemporânea de reprodução artificial, mas apenas lembrar que somos um planeta humanamente sobrepovoado, que as reais ameaças que se colocam à espécie não resultam da baixa demografia (mas sim do pânico nuclear ou da irresponsabilidade ecológica), e que a crise de natalidade nos países desenvolvidos do Ocidente é o resultado de uma nova cultura, a cultura do conforto, que dita altas expectativas de padrão de vida a todos aqueles que tentam constituir família.

Não há nenhuma razão verdadeiramente válida que sustente a permanência da homofobia no mundo dito civilizado. Homofobia muita mitigada, claro, mas que se mantém, como outra forma de fanatismo.

Somos uma espécie moderna, mas cheia de tiques antigos.

segunda-feira, março 08, 2010

Casting 13

Gosto de amadores, de naturais, daqueles que se expõem, daqueles que partilham uma verdade em carne viva, dos que vivem do seu carisma, de cabotinos, de mestres da dicção, de actores do Método, de actores de composição. Gosto de alguns indivíduos a despeito das (des)técnicas em que se protegeram. Mesmo assim, se é lamentável ter estima por Emma Thompson, muito pior é torcer por Meryl Streep.

Streep tem o génio do drama. Se alguma inteligência revelou ao nível da gestão da carreira, ela revela-se na aproximação ao registo de comédia a partir de uma certa idade: as suas performances não serão aí tão consensuais, mas o seu rosto-de-tearjerker conseguiu assim conquistar uma fotogenia agri-doce que impediu uma excessiva cristalização da imagem da vedeta.

De qualquer modo, Meryl Streep está demasiado conotada com a corte de Hollywood (as constantes nomeações para os Óscares são muito mais uma sinalização dessa fidelidade do que um registo rigoroso do mérito). Praticamente não correu riscos ao longo de uma carreira assumida enquanto tal. Nem é preciso pensar em Isabelle Hupert como contraponto. Basta lembrar Ingrid Bergman, e a sua facada nas expectativas do entertainment às mãos do improvável Roberto Rossellini. A verdade é que me é difícil recordar grandes obras-primas beneficiadas com a sua presença: "Manhattan", certamente, definitivamente "The deer hunter" (na minha opinião, o melhor filme sobre o Vietname). Nunca vi o filme de Karel Reisz. Mas, por favor, não me chateiem com "Out of Africa".

Então, porquê a minha devoção à actriz?

Quase todos os grandes intérpretes atingem um ponto de esgotamento. Basta seguir as filmografias de Anthony Hopkins, Jeremy Irons ou Montgomery Clift, para nelas encontrar constantes manifestações de tédio, de frete, de compostura meramente profissional. Certos actores, como Sean Penn ou Elizabeth Taylor, estão tão possuídos por uma ambição sisuda que ela lhes tolhe a verdade dos gestos. E outros, como Jack Nicholson ou Bette Davis, resvalam muitas vezes para esse insuportável número de circo chamado preguiça.

Ora, nada disto vejo em Meryl Streep. O que eu sempre reencontro no ecrã que a recebe é uma espécie de prazer desmesurado no virtuosismo da composição, um prazer que me parece absolutamente intocado e que constituirá a principal razão da anormal longevidade do seu sucesso. Streep continua a adorar representar, e fá-lo com a mesma disponibilidade (e inteligência lúdica) da sua juventude. Em todos os filmes, em todas as cenas, em todas as personagens. Sem excepção. Nisso, não tem rival no contexto anglo-saxónico. E para nós, espectadores, é um prazer seguir o seu prazer.

domingo, março 07, 2010

Partilha 76

dignitas


sempre quis ter uma casa
na aldeia
p'ra poder comer castanhas a olhar a cor das árvores
a minha prof de ciências
tinha uma
mas queria ter casa em istambul
p'ra poder tomar chá a olhar o bósforo

diz-se
(zzzzzzz)
que daqui a cem anos ninguém morre
lamentável:
porque é que eu não nasci ontem?
(houston, houston
we have a problem)

quarta-feira, março 03, 2010

Galeria Murnau 2

Tradução 21

Versão pessoal de um soneto de Shakespeare:


Se nada há de novo, mas aquilo que é
Já foi, quão iludidas estão nossas almas
Que, julgando inventar, sofrem em ritornelo
O parto vão de criança previamente nada?
Ah, pudesse um registo, um olhar de regresso
Ao longo de quinhentas viagens solares
Mostrar-me a tua imagem num livro senecto,
Pois primeiro foi feito o espírito em carácter,
P'ra que eu visse o que o mundo antigo conseguiu
Dizer deste composto assombro do teu estado;
Se eles tinham razão, se o tempo os corrigiu,
Ou se a revolução é um dado inalterado.
.....Ah, estou certo, o talento que houve previamente
.....A temas piores prestou o seu louvor ardente.


O original (junto com um comentário meu) pode ser lido aqui.

Dedico esta tradução à poeta Luiza Neto Jorge.

segunda-feira, março 01, 2010

Partilha 75

ensaio limícola


quando eu era viciado
em anti-heroína
manuscrevia poemas de muitíssimo mau gosto
um deles começava assim:
"itálicos meus (....:..)
má fortuna (....:..)
amor ardente (....:..)"

bi(bli)ografia:
luís
um rapaz intocado,
uma cereja que não comi em noventa e sete,
e um Banquete
de onde me escaparei
sem pagar o borrelho (che-ke che-ke che-ke)