quarta-feira, fevereiro 03, 2010

O INACTUAL 44

"Adieu, plancher des vaches!" - Otar Iosseliani (1999)


O cariz onírico dos filmes de Otar Iosseliani não obedece meramente a um princípio de evasão, mas constitui-se como o ponto de partida de um discurso radicalmente comprometido.

"Adieu, plancher des vaches!" retoma a encenação de um microcosmo social relativamente estável (apesar dos elementos que surgem e desaparecem), onde todos os seres se afectam de forma mais ou menos consciente. Se a circunstância deste grupo humano ser descaradamente sui generis afasta a ficção de pretensões de exactidão realista, também não a aproxima da articulação de uma utopia. De facto, parece ser possível (comédia) iludir a condição social verdadeira (o pobre que se faz passar por rico e vice-versa), mas já não é provável que se possa escapar às consequências dessa ilusão (a rapariga casa com o primeiro). Se os personagens não estão conscientes desse drama, são pelo menos suficientemente sinceros consigo mesmos para saberem que nenhum estatuto oferece uma compensação satisfatória.

Para além de cada um ser louco à sua maneira (a escolha de um meio de transporte obedece menos a imperativos utilitários do que à necessidade de tornar visível o nível de refinamento do estilo pessoal...), o seu quotidiano (mais ocupacional do que propriamente laboral) parece não passar de um método de regresso obsessivo ao sexo, ao vinho e à música. No seio desta anarquia de cunho existencial, há tempo para celebrar os mitos da amizade (o encontro de almas gémeas fora do espectro das complementaridades sociais e sexuais) e da liberdade (o personagem interpretado pelo próprio Iosseliani abandona o seu pequeno mundo de comboios eléctricos, evidentes metáforas do gozo da criação fílmica, para se lançar numa viagem sem destino que seria quase demagógica se não representasse, precisamente, uma alternativa simbólica à prisão que até o cinema, plancher des vaches, impõe).

A solidariedade poética que o autor devota às personagens não o impede de representar a crueldade que elas possuem, sem precisar de recorrer a quaisquer moralismos: a mulher excêntrica que não aceita as excentricidades do marido, o rapaz de boas famílias que abandona o amigo depois de ambos saírem da prisão, o marido que mata a mulher após uma discussão, a criança inteligente que participa na vida criminal, o trabalhador incompetente que se vinga no despedimento de outro trabalhador, etc.

Parece que a Humanidade, apesar de ser muito humana, não é flor que se cheire. Iosseliani conclui: com a passagem do tempo, as coisas mudam, mas não necessariamente para melhor.

2 comentários:

petit paysan disse...

é preciso gostar muito de cinema para entregar a nossa generosidade a este filme!

pedroludgero disse...

eu gosto de gostar :)