domingo, fevereiro 21, 2010

No cinema

Tom Ford diz que se pode começar a vida como eau de toilette e acabá-la como perfume. Esta vontade de ascensão-espiritual-via-sétima-arte só pode irritar quem vê o cinema como prolongamento natural da sua raiva, do seu erotismo, do seu pensamento. Ou seja, o senhor continua com mais vontade de desfilar na passarela que de levar a bom termo cinematográfico o simpático gesto com que posou para a foto ao lado.

Dito isto, o seu filme ("A single man") é bastante interessante. Mas é o filme de um novato, no mau sentido do termo. O recurso constante à ampliação do ponto de vista subjectivo do personagem principal para lhe revelar o pensamento, manifesta uma certa falta de imaginação especificamente cinematográfica (o mesmo vale para os flash-backs, as sequências oníricas, os rallentis, a voz-off). A fragilidade é ainda mais gritante na incapacidade de atingir um tom verdadeiramente libertador nas sequências finais (mas isto talvez seja subjectivo). Terá ele visto "Bleu" de Kieslowski?

Fico mais motivado pelo descaramento de dar um papel ao modelo Jon Kortajarena só para lhe dizer que ele tem um rosto notável (aqui Tom Ford está despido). De qualquer modo, ele é ambicioso, tem um bom gosto razoável, uma apetência pelo rigor, e um talento nato para dirigir actores (Colin Firth muito bem, mas também Juliane Moore, toda entregue ao prazer de representar). Welcome.

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