sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Alguns mitos

1. Sobre pintura - Há pessoas que, perante um quadro isento de virtuosismo mimético, exclamam: "eu também fazia aquilo". Ainda que não se tome em conta o facto de a sensibilidade plástica ser necessária em todo o tipo de gestos (mesmo que esse seja o gesto de Jackson Pollock), e que, por isso mesmo, não vale tudo (no limite, o problema não é haver quadros pintados por macacos, mas é haver críticos sem sensibilidade para a plasticidade dos macacos...) a verdade é que, quando uma pessoa diz "eu também fazia aquilo", está a colocar-se a si mesma na posição do imitador. Dito de outro modo, não há nenhuma relação entre o menor espalhafato tecnicista de uma sensibilidade plástica e a originalidade e individualidade que ela pode oferecer.



2. Sobre poesia - Entre os muitos lugares-comuns que infestam a vivência da escrita poética, há dois mitos tão simétricos entre si que se auto-anulam. No passado, havia quem achasse que a poesia era uma arte muito difícil, a que só os eleitos teriam acesso activo. Presumo ser esse o tipo de cultura que servia de motivação a um autor como Eugénio de Andrade. Quem, como eu, já tentou escrever um romance e falhou redondamente, sabe como é francamente difícil engendrar uma boa prosa de ficção... No presente, auras passadas à história (mas quem perante a evidência ousa falar de aura?), dizem-me que a poesia é coisa demasiado fácil de fazer, não escancara trabalho, virtuosismo, investigação. Espero que, no futuro, se perceba que um homem se encontra perante a poesia como perante qualquer outro fazer, que a sua compreensão profunda exige o mesmo nível de acasos, inclinações e aprendizagens, e que é francamente provável, e até desejável, que a existência de um bom poeta seja um fenómeno mais raro que a existência de um bom amante ou de um bom amigo.



3. Sobre a metáfora - As pessoas que condenam o uso da metáfora com o argumento da obliquidade (como a metáfora não chama as coisas pelos seus nomes, o seu efeito seria mais ornamental do que interventivo) são as mesmas que desconfiam da relação entre as palavras e as coisas que as palavras denotam. Ora, se a palavra corpo não é capaz de referir o objecto corpo com toda a propriedade, por que razão não posso eu aludir ao objecto corpo através de uma outra palavra qualquer?

1 comentário:

rafael Costa disse...

Partilho da mesma opinião, principalmente em relação a pintura.

Falta sensibilidade.

Abraço.