domingo, janeiro 31, 2010

Partilha 71

modus vivendi ?


espero
que a ternura dos quarenta
não seja uma massagem administrada num spa
(dizem que custa os olhos da cara
e só eles
ai de mim
não botaram gordura)

o melhor é escorregar numa casca de banana
e fingir que sou um poeta do passado
tísico
claro
em direcção a um país sem norte
onde já ninguém grita
e onde o sol é sempre um coque

É sem pompa nem circunstância...

... que anuncio o personeto, uma forma poética que inadvertidamente encontrei, e que servirá de molde de construção textual numa das secções do livro "quarenta graus à sombra" (cuja redacção foi iniciada com o poema que partilhei aqui). Estive para baptizar a dita forma com o nome soneto ludgeriano, mas não o conseguia pronunciar sem me desatar a rir.


As características do personeto são as seguintes:

1. O destaque compositivo será dado aos números 2 e 7, o que implica que o soneto será sempre composto por duas estâncias de sete versos, ou por sete estâncias de dois versos (esta última situação será mais rara).

2. As estâncias serão caracterizadas por uma heterometria muito contrastada (podendo as medidas dos versos variar entre uma e catorze sílabas métricas).

3. O tom do poema permanecerá doméstico e gracejador, a despeito da violência do fundo metafórico.

4. Serão bem vindos os diálogos, os parêntesis, as onomatopeias.

5. As duas dimensões sensitivas que um texto pode trazer (imagem, som) serão invariavelmente aludidas em cada poema (ainda que de forma muito oblíqua).

6. Cada soneto terminará com uma chave de ouropel, que terá um sabor infantil (uma emoção fácil de rebuçado), e onde se manifestará a única rima forte do poema.

7. Estas regras não constituirão um dogma, e desejam ser, a qualquer momento, transgredidas.



No post acima, está outro exemplo de personeto.

Galeria Murnau 1



Murnau am Staffelsee
(a vila de cujo nome o realizador tirou o seu pseudónimo - supostamente)

Morreria se tivesse escrito 1

"Em todas as épocas houve pessoas diferentes, mas se a diferença se espalhar a sociedade fica em perigo."

António José Saraiva

sábado, janeiro 30, 2010

Gostaria de ter escrito 4

"La rationalité (...) consiste précisément dans l'adaptation continue de notre langage à un monde en continuelle expansion (...)."

Mary Hesse (citada, e presumo que traduzida, por Paul Ricoeur em "La métaphore vive")

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Partilha 70

arte poética n


não é que catar os piolhos da cabeça de um filho
corresponda
a fazer um serviço da vista alegre
mas era exactamente essa correspondência
que eu queria
hoje
escrever

juro
que tentei fazer poemas
sobre esse único assunto da poesia que é a morte
mas sobrevivi
(dlam dlam dlam
os sinos que já não se ouvem na cidade
ouvir-se-ão aqui)

terça-feira, janeiro 26, 2010

A zero dimensões

O filme "Avatar", de James Cameron, é de tal modo inócuo que não me aquece nem me arrefece. Mas hoje, no jornal PÚBLICO, um crítico de má fé dizia que o posicionamento de um espectador perante a obra seria revelador da sua fibra política. Ora, essa insinuação merece-me alguns comentários.

Não tenho razões nenhumas para duvidar das convicções ideológicas do realizador da obra em questão. Aliás, Hollywood gosta de manifestar a sua tendência esquerda suave, desde Sean Penn de mangas arregaçadas em New Orleans até à obsessão adoptante de Angelina Jolie. Mas também não tenho razões para duvidar da profunda incultura dos fazedores de cinema industrial, não querendo com isto dizer que por lá não se lêem muitos livros, mas que são raros os cineastas que trabalham nesse contexto e que pensam a fundo o seu métier. Nem sequer é suposto que o façam...

Cameron parece querer estabelecer um discurso sobre o Outro (imediatamente, o modelo é o índio da Amazónia, mas o árabe também está na mira, o que é desde logo estranho, pois qualquer semelhança entre as duas situações é pura coincidência). Se o objectivo era esse, pergunto-me qual terá sido o motivo que o levou a substituir a tentativa de construção de uma imagem desse Outro (veja-se o notável esforço de Audiard em "Un prophète") pela imagem de um efeito especial que se confunde com o bestiário disney e o imaginário alien de Steven Spielberg? Dir-me-ão que é uma parábola, e que eu até sou um nerd do simbolismo. No entanto, quer-me parecer que a referência cultural escolhida é tudo menos dignificadora desse Outro. É como se Cameron não soubesse nada do índio (como eu não sei), e também não quisesse, profundamente, saber (só que eu não quero fazer filmes sobre os índios). Aliás, não teria sido interessante recorrer a um modelo de narrativa mítica próximo da sensibilidade cultural desses povos da floresta, em substituição da forma gasta e gasta e gasta do screenplay hollywoodiano?

Ouvi opiniões de alguns espectadores dizendo que a história do filme era the same as usual, a sua mais-valia sendo apenas o panache tecnológico. Não sei como Jorge Mourinha ainda não percebeu que a forma de transmitir a mensagem é mais determinante, do ponto de vista político, do que a espuma superficial da própria "mensagem" (pois isto não é jornalismo, nem ensaísmo). O público já o percebeu. Aliás, uma das visões mais nobres do Outro que o cinema americano produziu recentemente é o filme "Letters from Iwo Jima" de Clint Eastwood, cineasta conservador.

Para além das suas piroseiras pseudo-poéticas dignas do quadro do menino com a lágrima ao canto do olho, o filme de Cameron está cheio de teias de aranha: o 3d é um efeito muito antigo, a forma narrativa é mais velha que o António Pedro Vasconcelos, não há nenhuma inovação ao nível da montagem (isso custa, o Eisenstein pensou-a sistematicamente, o Godard teorizou-a em boutades), do som, da representação dos actores (já agora, onde é que eles estavam?). Enquanto espectáculo, "Avatar" nem se consegue aproximar do "Titanic", que era um blockbuster tão histérico que acabava por nos afundar com ele. A relação do espectador com o próprio cinema também não é beliscada em nada: Cameron continua a querer produzir um espectáculo de feira, como quiseram os pioneiros da história dessa suposta arte (o espectador é o paraplégico circunstancial que se identifica com o seu avatar no ecrã). Durante o visionamento deste futuro do cinema, lembrei-me com saudade de um simulador com que me diverti na Eurodisney, mas logo a seguir tremi de horror: no próximo "maior-filme-de-sempre-o-mais-caro-e-o-que-vai-ganhar-mais-óscares" que o realizador fizer, vamos ter de usar coletes ortopédicos para protegermos a coluna dos solavancos que as cadeiras da sala de cinema nos vão proporcionar.

A oeste nada de novo: só o aprimoramento da tecnologia. Dir-me-ão que é o futuro do marketing do cinema. Eventualmente. Mas então eu digo ao senhor Cameron que a destruição da floresta tropical e das civilizações que nela floresciam se deveu, precisamente, a um primeiro momento de glória de um funcionamento da economia, o capitalismo (que não se chamaria ainda assim, claro), em que o valor intrínseco de qualquer produto é secundarizado perante a possibilidade de geração de lucro. Ora, "Avatar" é um objecto capitalista declarado (com tudo o que, de positivo, isso traz: postos de trabalho, liberdade de consumo, etc.). Os críticos da sua suposta mensagem de esquerda não têm motivos para estar alarmados: o espectador, ao sair da sala de cinema, não se vai tornar um guerrilheiro da "Greenpeace" (sobre a possibilidade da arte mudar o mundo, já me pronunciei aqui).

E quanto à ecologia do cinema? Quantas espécies de cinema estão neste momento em vias de extinção, porque este tipo de estética definitivamente triunfou e está a secar todas as outras possibilidades à sua volta? Presumo que algum leitor me vá insultar com a palavra "intelectual" (mais je ne m'accuse pas). Quem tem tido a bondade de me ler, saberá que tenho tentado, ao longo da feitura deste blogue, falar das mais diversas possibilidades de cinema, e que me mantenho aberto a todos os debates que envolvam cinéfilos militantemente apaixonados. Estou, isso sim, empenhado no salvamento da floresta selvagem, perigosa, abundante e inesgotável, do cinema.

Alguma vantagem em "Avatar"? Claro: a intuição de que, quando encontrarmos os marcianos, são eles que têm de ter medo de nós.

domingo, janeiro 24, 2010

Barbershop style...

... ou como o meu ouvido é muito mais indulgente do que eu.

O espaço que se segue é da minha exclusiva responsabilidade

Este blogue não transmite discursos de Hugo Chávez.

Tempo de antena

"Quand, par exemple, Shakespeare assimile le temps à un mendiant, il est fidèle à la réalité profondément humaine du temps; il faut donc réserver la possibilité que la métaphore ne se borne pas à suspendre la réalité naturelle, mas qu'en ouvrant le sens du côté de l'imaginaire, elle l'ouvre aussi du côté d'une dimension de réalité que ne coïncide pas avec ce que le langage ordinaire vise sous le nom de réalité naturelle."


Paul Ricoeur (negrito meu)

Excerto de uma carta de amor 3

.......olhe, a verdade é que obtive esta vida nos ciganos. Faz o mesmo efeito das outras, disseram-me. E disseram-me ainda que, sendo as lágrimas fatais a prazo incerto, mais vale o crocodilo ser apócrifo. Não obstante, sabemos todos que o barato sai caro. Por isso eu quero que você suceda com o grau de exigência que se espera do astronauta, que seja a talha de uma via de acasos em contra-bando. E celebraremos por uma eternidade, devorando vates, sinaleiros e anjos indefesos.......

quinta-feira, janeiro 21, 2010

À pergunta "Pode a poesia mudar o mundo?"...

... eu respondo:


que essa é uma pergunta de mau repórter. Aliás, as possibilidades remotas de um filme ou uma canção impedirem uma guerra (ou de um poema do Manuel Alegre influenciar o próximo Orçamento de Estado) pertencem certamente ao domínio do jornalismo (da intervenção cívica em tempo útil), e não à dinâmica profunda da criação. Mesmo a ideia da mudança interior provocada por um objecto do espírito me parece mais próxima de uma banalidade conceptual que de um processo psicológico facilmente isolável (é preciso regressar a "The Dubliners" de James Joyce, para se entender toda a complexidade romanesca da epifania).

Tenho vindo a namorar a ideia (que, como sempre acontece no meu pensamento, tem vocação universal mas não necessária) de que a poesia se define, ao fim e ao cabo, por um determinado tipo de afectividade intelectual. Na verdade, só o sentido amplo dessa palavra pode abarcar toda a mitologia que em seu torno se espalhou na cultura dos homens.

Poética será toda a emoção que nos permite desvalorizar a transcendência. Independentemente do que pensarmos sobre as efectivas possibilidades de comunicação (falar do amor pode equivaler a falar do sem-remédio do isolamento), a crença afectiva na tangibilidade de tudo aquilo que nos transcende constituirá porventura a essência de um impulso poético transversal a todos os seres da nossa espécie. Falo de crença afectiva, não de convicção de raciocínio.

O autismo é universalmente considerado uma patologia: mesmo o misantropo mais rigoroso terá iniciado a sua biografia como uma criança curiosa. É preciso tocar na mãe, na comida, no brinquedo, na melodia de uma canção, no sexo de outrem, na linha do horizonte. Se tocamos deveras, isso é outra história (é a narratividade do romance). Mas a verdade é que passamos a vida com vontade de falar, de foder, de viajar, de conhecer, porque o mundo assume sempre o papel de um grande sedutor.

O poético estará assim na base de toda a produção humana. Será mais provável que o cientista descubra a sua vocação no consumo de filmes de ficção científica do que no putativo altruísmo da sua consciência. Aliás, a própria ânsia ética da descoberta de uma cura contra o cancro ou contra a sida só é possível na medida em que o Outro humano se apresente tangível, ainda que em alto grau de abstracção. O poético estará na base do pensamento, da vontade generalizada de conhecer, do ímpeto da viagem, do empenhamento humanitário, da própria religião (se Deus não parecesse igualmente tangível, ainda que a um mero nível intelectual, nenhum proselitismo teológico teria tido sucesso).

Uma das frases mais famosas da escrita poética é, precisamente: "Je est un autre" (formulação de sentido inesgotável, mas cuja contradição essencial está intrinsecamente ligada ao que aqui se expõe). A força da obra de Paul Celan, poeta difícil entre os difíceis, deriva em grande parte da ferida de incomunicabilidade que a sua escrita expõe, perante a qual o leitor honesto se sente incapaz de propor uma cicatrização. Não há, aliás, poetastro que resista a fazer uns versinhos de amor: a mediocridade produz sintomas tão válidos quanto a genialidade.

Assim sendo, defendo que o poético está invariavelmente associado ao sublime. Não ao sublime kantiano, e toda a sua erótica quase fascizante, mas àquele sublime (se assim lhe podemos chamar) que sempre acompanha a evidência afectiva, seja ela qual for (corpo humano, bola de futebol, planeta distante...). Estranhamente, a poesia acabou por se confundir com a sensibilidade romântica (aliás, eu reconheço que sou um herdeiro parcial dessa mundividência). Nada poderia ser mais castrador: a poesia consegue mudar o mundo precisamente porque permite que todas as transcendências sejam desvalorizadas (ainda que não supridas). A vanguarda poética depende, pois, da expansão do fascínio e da repulsa (palavras imprecisas, estas últimas). E não há poesia sem ilusão e desilusão.

É a esse nível que a criação se funde com a desobediência, e se torna aliada da filosofia e da política (sem com elas se confundir). Pois o quotidiano é sempre burguês. E o burguês é um empresário de transcendências: classes sociais, impedimentos morais e legais, mentalidade baseada no preconceito, etc. Aliás, a manutenção de todos os gestos da vida na dependência do dinheiro (que, em si mesmo, não vale nada) é o sintoma da incapacidade adulta de praticar o afecto de per si (noutras sociedades e noutras eras, haverá outras formas de institucionalização da cobardia). Caso fosse possível habitarmos um mundo não burguês, a poesia continuaria a acompanhar-nos, num esplendor inofensivo.


P.S. - o facto de ter sido a escrita a quem coube o privilégio do sentido estrito de "poesia" é um assunto distinto, e que carece de distinta reflexão.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

domingo, janeiro 17, 2010

O registo da vertigem

Algumas palavras sobre o mais recente livro que editei, e que foi ontem apresentado num filo-café em Vila Nova de Gaia:


Independentemente da opinião dos seus prováveis leitores (que é a opinião que verdadeiramente releva), os meus "sonetos para-infantis", escritos entre 2002 e 2003, (há uma eternidade, portanto) constituem a primeira colectânea de poemas que eu assumo como estando plenamente dominada. Nenhuma vaidade aqui: quero apenas dizer que este é um livro que, se tivesse de o rescrever, não lhe alteraria nada (o mesmo não posso dizer das duas recolhas previamente publicadas). Não o rescreveria, portanto.

A intenção que animou a elaboração destes poemas (muitos dos textos não são na verdade sonetos, o título resultando parcialmente do nonsense que eu aprendi com John Donne e os seus "Songs and sonnets") foi a tentativa de construir uma espécie de poesia rupestre. Sem nostalgia. Rupestre enquanto exploração do lugar pré-histórico de cada vivente (a infância). Rupestre também enquanto recuperação quase paródica das cosmogonias que estiveram na origem do fenómeno poético. Rupestre enquanto escrita sobre a pedra (sobre o Pedro...).

Tenho a ligeira sensação de que, se pudesse fazer cinema, acabaria por realizar um filme mudo. E se usufruísse do menor talento pictórico, vejo-me a grafitar os muros de pedra da cidade com os seres que sobre mim exercem magia (os que quero caçar, os que domestiquei, os que me atemorizam). Como disse atrás, não me considero um nostálgico. Simplesmente, assim como a infância é um cimento fresco que para sempre guarda todas as marcas que nele foram feitas, acredito que todas as actividades criativas se exercem numa relação de amor-ódio com os seus momentos fundadores. Em ambos os casos (pequena história biográfica, grande história da criação), aquele que se empenha amorosamente na vida é obrigado a registar a vertigem que acompanha essa queda desde o início (repare-se que a queda não precisa de ser uma figura com conotação negativa).


"na idade adulta
o único trabalho
infantil
lícito ou talvez implícito
quem sabe
é o registo da vertigem"


O livro está dividido em duas partes. A primeira chama-se "Descoberta" e regista a recepção do mundo por uma criança-poeta. Da parte do mundo que não teve autoria humana (o céu, as estrelas, o sol, o cometa, a lua, a nuvem, a chuva, a neve, o fogo, o vento, a montanha, o vulcão, o lago, o rio, o mar, a ilha, a árvore, a flor, os frutos, o pássaro). São poemas intuitivos, de leitura muito simples, de intencionalidade mágica. A secção termina com o primeiro soneto propriamente dito, intitulado "o Homem".

O Homem é, pois, aquele ser que, recebendo de bandeja o mundo que a sua infância descobre, tem posteriormente de o reinventar, de sobre ele edificar um edifício de mundividência onde a tristeza entra pela primeira vez (a queda, sentenciada por Deus no Génesis, adquire uma pertinência pejorativa). O soneto é talvez a forma poética que mais celebridade adquiriu no ocidente (o seu equilíbrio é notável), e por isso surge aqui como metonímia das glórias e das monstruosidades da cultura. Nada se opõe tanto ao rupestre como o soneto. No entanto, a minha paixão quase irracional pelos números 2 e 7 foi determinante para esta escolha mais-do-que-técnica.

A segunda parte chama-se "Invenção". Nela, a criança, fantasma de um génio (como na pintura de Paul Klee que ilustra a capa do livro), torna-se um demiurgo a partir do seu próprio corpo. São textos onde a sintaxe foi deturpada para simular uma escrita primitiva (mas que assim adquirem uma musicalidade estranha). Têm ideias ocultas (por exemplo, quase todos os poemas se referem a invenções humanas concretas, como a roda, o avião, a fotografia, etc.), precisam de ser esgaravatados para produzirem algum sentido, e mesmo quando uma clareira neles se abre, ela não possui o carácter de evidência dos textos da primeira parte. Toda a secção está organizada em torno de uma contagem decrescente desde um número limite, o cem (também número mágico), mas que não termina no fim da obra, ficando o leitor livre para continuar a sua própria invenção (até ao zero, que mais do que uma vez é citado). Não termina porque são apenas catorze poemas (é um macro-soneto). Com catorze anos, tive o primeiro grande sofrimento da minha biografia (o que não é relevante para a leitura do livro).


"mas uma invenção

vem sentido o dar
a vOz que a tudo isto cede eros e canta (e não cessa)

o do fim do fim"



Agradeço a generosidade de todos os leitores que me queiram acompanhar nesta aventura.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Nota "Un prophète"

"Un prophète", de Jacques Audiard, é um filme muito bom, brutalmente bem representado. Está a milhas de "Agora" de Alejandro Amenábar (achincalhamento académico de uma intenção polémica algo semelhante), mas não se compara a "La graine et le mulet" de Abdel Kechiche (que é solidário com o desespero até ele se tornar profundamente incómodo para o espectador - o oposto da estética telejornal).

O realismo, especialmente quando rigoroso como este (o realizador não sabe o que fazer das sequências com o fantasma), corre sempre o risco de se reduzir ao osso da narrativa, ou seja, de empobrecer quaisquer possibilidades semânticas. Devo aliás dizer que, perante "Un prophète" (como perante "The Hurt Locker" de Kathryn Bigelow), fiquei com a sensação de estar a ver um filme excelente, mas um filme que já vira muitas vezes (se bem que nem sempre tão bem feito)...

Mesmo assim, há indícios de discursividade suficientemente interessantes para que a obra tenha grande relevância para a contemporaneidade. Sugere-se que a coesão agressiva do mundo árabe pode resultar de um passado de marginalização (o protagonista é sempre tratado como criado pelo grupo de corsos, mas, se assim não fosse, talvez nunca tivesse traído aquele que constituía a figura de um pai espiritual), e denuncia-se que a quebra da inocência foi provocada precisamente por aqueles que no presente estão à mercê dessa agressividade (o facto do árabe ter sido obrigado a cometer um homicídio é que lhe abriu o caminho traumático para a sua posterior perversão moral). O próprio título do filme não se restringe a uma ironia narrativa: ele pretende ser a ferida exposta de toda uma "civilização" cuja guerrilha suja se confunde com o discurso religioso. E Audiard trabalha tudo isto com um tão grande sentido de urgência, que nem José Manuel Fernandes o conseguiria acusar de "correcção política".

A surpresa que "Un prophète" me trouxe, porém, é a ideia de que uma profecia é a forma que temos de organizar calculadamente, e dentro dos limites do cárcere, a nossa liberdade futura. E não, isto não é metafísica, mas pura política.

Raison en chantée

Recentemente, uma jornalista comentava que o quadro de Nikias Skapinakis dedicado ao quarto (imaginário) de Paul Klee estava investido de uma geometria algo sufocante. Não me lembro desta obra específica de Skapinakis (que penso ter visto na Fundação Árpád Szenes - Vieira da Silva), por isso não posso confirmar ou desmentir a afirmação. Mas a regularidade com que realmente a geometria visita a obra de Klee, juntamente com o facto de ele ter sido professor numa instituição tão associada à racionalidade como a Bauhaus, levaram-me a especular por que razão eu, que me aborreço de morte com Malevitch ou Mondrian, sinto tanta empatia pela pintura do grande autor suiço (é, de longe, o meu artista plástico de eleição).

Há motivações evidentes: a puerilidade latente em todo o seu trabalho (os ingleses têm uma expressão bem bonita para isso: childlike), a valorização da ironia, o flirt (sempre infiel) com diversos pensamentos estéticos (por vezes contraditórios entre si), a relação com a música, o gosto pela escala reduzida.

Mas no que se refere à obsessão pela geometria (e pelos números, letras, setas, etc.), eu diria que ela progride na obra de Klee lado a lado com uma pulsão onírica que é tudo menos sufocante. É como se uma não pudesse passar sem a outra (o pensamento e a poesia não se confundem, mas continuam-se). E nessa perplexidade tomo consciência de uma das linhas orientadoras do meu próprio trabalho criativo (é de nós que falamos quando falamos dos outros, e vice-versa), a que eu daria o nome de : lirismo vertebrado.

Bem-aventurados os humildes

Se a compreensão que o Homem tem de Deus não evolui historicamente (porque ele é bafejado por evidências reveladas), então os crentes têm mesmo de aceitar os fundamentalismos mais saramaguianos que os textos religiosos comportam. Mas se essa compreensão evolui, como pode ter a Igreja a certeza de não estar a viver uma época pré-coperniciana (ou pré-eisensteiniana)?

À parte

A humildade só pode surgir quando a vaidade está saciada.

domingo, janeiro 10, 2010

Publicidade insuspeita

Em breve, dois membros da minha família entram em acção:

Ricardo Vasconcelos publica "Campo de Relâmpagos", na Assírio e Alvim, livro de ensaios sobre a obra do poeta Luís Miguel Nava.

A pianista Elsa Marques Silva, em duo com o clarinetista Nuno Pinto, apresenta um programa de música de câmara no Teatro Helena Sá e Costa, no dia 5 de Fevereiro (às 21h30).


Excerto de uma carta de amor 2

......olhe, escrevo-lhe esta missiva para o fixar por uns instantes, para reter o remoinho da sua indiferença, como faziam certos povos antigos da floresta quando paravam os peixes do rio com tintas de plantas escolhidas a dedo. De igual forma, este meu veneno verbal não é fatal: se não quiser ser caçado, não será. E então, velha história, eu terei de evoluir de novo: tornar-me-ei amigo da recolecção. Apanharei o menor fruto da sua deferência, a mais secreta raiz de um olhar dirigido a outrem, a noz que precede um sorriso. E a missiva ficará como vestígio da música insistente de um homo ignorans ignorans......

Fala da esposa estéril (para o marido)

"Traslada os teus restos vitais para o meu cemitério dos prazeres."

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Tentando ter paciência

Na sua coluna de opinião no jornal PÚBLICO, Helena Matos afirmou que, a partir do momento em que se legaliza o casamento entre pessoas do mesmo sexo, estamos a um passo de um dia legalizarmos a poligamia. Não acredito que preciso de escrever um post para refutar uma afirmação de tão baixo nível, mas há alturas em que é preciso sujar as mãos.

Sim, de facto, sempre que usamos a inteligência para colocar a cultura em causa, abre-se um infinito de possibilidades. Não é só o casamento poligâmico. É também o enlace entre humanos e animais, entre humanos e cadáveres, entre humanos e exemplares do "Guerra e Paz", entre humanos e o papier mâché.

No entanto, aposto que, no fundo, Helena Matos sabe que o casamento entre pessoas do mesmo sexo não equivale à poligamia. Em primeiro lugar, nunca ouço falar de uma situação poligâmica na qual uma mulher seja bafejada pela sorte de um harém masculino. Acontece invariavelmente o contrário (e ainda menos ouço falar na necessidade profunda que têm os cultores da orgia de se unirem em matrimónio...) . O problema central da poligamia é que ela resulta sempre de um aviltamento da mulher, que deixa de ser considerada na sua inteireza e individualidade para fazer parte de um número, e para perder a dimensão absoluta dos seus "direitos" matrimoniais. De qualquer modo, a poligamia praticamente não existe em Portugal, enquanto a homossexualidade sempre houve, e com uma expressão profundamente significativa.

A questão da relação entre culturas parece-me de resolução tão simples, que me espanta a quantidade de genocídios culturais que infestaram, infestam e infestarão a nossa História: temos de respeitar todas as dimensões de uma outra civilização, à excepção daquelas que claramente prejudicam a dignidade e liberdade de cada ser humano. Assim sendo, não havia razão nenhuma para que os missionários dos Descobrimentos tivessem contrariado a nudez imemorial com que os índios sul-americanos se expunham ao mundo, na medida em que isso não causava dano a ninguém (e se os europeus se sentiam lesados, que voltassem para para casa, pois esse outro continente estava previamente povoado por outras civilizações). Pelo contrário, a situação da mulher na cultura árabe (a despeito dos aspectos fascinantes que essa cultura possui) tem de ser firmemente condenada por quem tiver o mínimo de espinha dorsal.

Toda esta algaraviada para dizer que, por razões éticas, não tenho de aceitar a poligamia de certos países, e que esta não se coloca no mesmo plano de legitimidade de um contrato livremente celebrado por duas pessoas que se predispõem a um cuidado mútuo e exclusivo. Passando por cima do verdadeiro problema a partir do qual se ergue a deformação poligâmica (que é o facto de continuarmos a confundir a fidelidade do amor, que é espiritual, com o empobrecimento da vida erótica), eu informo Helena Matos que a diferença das duas situações tem ainda uma nuance mais grave. É que não me parece que haja, no nosso contexto, um historial de sofrimento por causa da poligamia. Haverá infidelidades, divórcios, crimes passionais, ménages à trois, sim, mas na civilização ocidental contemporânea devem ser raros aqueles que foram fisicamente perseguidos, socialmente marginalizados ou juridicamente menorizados por causa das suas convicções poligâmicas. O mesmo não se pode dizer dos homossexuais. É precisamente porque o casamento é mais do que um mero contrato, é porque tem um peso simbólico sem paralelo, que ele pode funcionar como um passo fundamental na desmontagem da homofobia.

O casamento (e, em sentido mais amplo, a família) foi questionado pela cultura moderna mais revolucionária. E teve de ser assim. As monstruosidades a que a célula familiar pode conduzir (por exemplo, podemos ser sexualmente monogâmicos toda uma vida, sem sentirmos o menor afecto ou mesmo respeito pelo cônjuge que usufrui dessa exclusividade...) exigiram esse momento de crítica. Mas o casamento só ganhou com isso: deixou de ser uma imposição independente da consciência do indivíduo para se configurar como uma possibilidade livre de felicidade. Aliás, não deixa de ser curioso que Jerónimo de Sousa seja um homem de família, e Paulo Portas, não. A manutenção da exclusividade do casamento nas mãos dos heterossexuais é uma forma de adiar a libertação dos homossexuais da cultura que, por razões de marginalização, acabaram por assumir, e que se traduzia na dificuldade sobejamente conhecida de constituir relações estáveis.

Quanto à questão da adopção, devo dizer que concordo com a ideia de que esta deve ser mantida no âmbito dos direitos da criança. Por isso, e para que não haja casamentos de primeira e casamentos de segunda, eu sugiro que se retire o direito de adoptar do instituto do casamento entre pessoas de sexo diferente. Exactamente porque falamos de direitos da criança, e não dos adultos. A partir deste pressuposto, cada caso de adopção seria avaliado exclusivamente em função da rigorosa idoneidade do ou dos adoptantes, e não da sua situação conjugal (e de qualquer modo, a legitimidade científica da adopção por casais do mesmo sexo, problema distinto do casamento, deverá ser avaliada por sérios profissionais de saúde mental, e não por padres, políticos, ou senhoras que usam laca no cabelo).

Compreendo que esta é uma mudança imensa. É verdade. Mas o mundo também um dia se tornou cristão em detrimento de toda a cultura anterior, eu sou agnóstico e considero-me violentado porque em criança tive uma educação católica. E o mundo também se tornou capitalista em detrimento de uma cultura económica mais humilde na sua relação com os recursos, e eu tenho de sobreviver numa sociedade onde me sinto diariamente agredido pelas estratégias da ganância. O que estou a tenta dizer é que aquilo que me querem impingir como autoridade imemorial, como um "sempre foi assim", só foi assim a partir de uma determinada altura.

E porque não sou suficientementemente político para dizer apenas aquilo que é conveniente, afirmo que, por razões morais, mais depressa deixava entrar em minha casa um polígamo do que uma pessoa com uma cruzada moralista.

domingo, janeiro 03, 2010

Nota "Jaime"

Ao rever o primeiro filme de António Reis (Margarida Cordeiro ainda não co-assinava a realização), fiquei surpreendido pela sua força silente. Toda a primeira parte, constituída por imagens de doentes psiquiátricos num pátio, é oferecida ao espectador sem o benefício (da certeza) de uma banda sonora. Curiosamente, a câmara espreita esse mundo calado através de uma espécie de janela, ou escotilha, que evoca o efeito de íris que era tão caro aos realizadores do cinema mudo. Opção inconsciente? Infelizmente (?), não o sei.

Quanto mais tempo passar sobre "Jaime", mais a ruralidade que ele documenta será invadida pela energia da loucura. Estamos a ficar tão ignorantes quanto à civilização aldeã, que o seu excesso (de beleza, de dureza) adquire pergaminhos de irracionalidade. Quando vi, na imagem que ilustra este post, aquelas três maçãs penduradas por fios, perguntei a mim mesmo: seria um hábito camponês, ou é uma opção de encenação poética (como noutro passo acontece claramente com um guarda-chuva aberto)? Infelizmente (!), não o sei. Mas compreendo melhor a loucura de Jaime, as suas fontes, os seus nutrientes, o seu espaço duplo de liberdade e prisão.

Este filme tem o mais belo plano fixo de flores que já vi em cinema. De lobo e de louco todos temos um pouco?

Argumento privado

Penso que já aqui disse que não tenho propriamente uma opinião sobre a querela levantada pela iminente entrada em vigor do novo acordo ortográfico para a língua portuguesa. Não se pode ter opinião sobre tudo...

A dimensão etimológica da ortografia não é uma manifestação de verdades arquetípicas, mas o resultado de uma opção histórica concreta, contingente e questionável (os Renascentistas curtiam o latim). Não me custa, por isso, abandonar esse rigor. A questão dos possíveis erros de pronúncia que a nova ortografia pode causar é, claro, uma falsa questão: basta que aprendamos um novo conjunto de relações normativas entre essas duas dimensões da língua; afinal, quase tudo o que se refere à linguagem é convencional. Para além disso, estou isento de ilusões de colonialismo: a continuidade das civilizações indígenas da América do Sul poderia ter engendrado um Brasil bem mais glorioso do que este que, por gentileza, dá futuro ao português.

Por outro lado, não me parece que um conjunto de leis sobre ortografia constituam um passe de mágica capaz de dar força internacional à língua de Camões. Sem modéstia nem vaidade, acho que se eu produzir um excelente texto literário, tenho mais chances de gerar curiosidade pelo meu idioma do que qualquer acordo palopiano (não disse pavloviano, atenção). Quem diz literatura, diz ciência, pensamento, política. E quanto ao mito contemporâneo (tão capitalista quão socialista) da facilitação, respondo que só é fácil a dificuldade que cada um por si mesmo conquista. Ou seja, em vez de servir de bandeja, prefiro ensinar a cozinhar.

Espero que Vasco Graça Moura (que será o mais eminente dos intelectuais, não é isso que está em causa) nunca venha dizer publicamente que a legalização do casamento entre as pessoas do mesmo sexo não é um assunto prioritário... Pois eu gostava de saber qual a prioridade de todo este chinfrim em torno de mais letra, menos letra. E eu até sou daqueles que podem afirmar que o seu exílio é a língua portuguesa.

Tenho, contudo, um argumento muito meu contra este acordo superstar. Parece-me que se vai limpar, da ortografia da minha língua, o pouco que ainda lhe restava de uma certa beleza selvagem. É um luxo meter uma uma letra numa palavra para ninguém a pronunciar! Um luxo luxuriante. A escrita vai ficar mais parecida com um alicate do que com um sexo. Mas quem se interessa por isto? Só sei que, no meu próximo projecto de poesia (apropriadamente intitulado "uma selva"), tentarei inventar uma ortografia que o leitor possa namorar.

Arte poética: the f world.

Não sacralizo nem dessacralizo palavras: sexualizo-as.

sábado, janeiro 02, 2010

Uma intuição

Dizem os especialistas que a floresta Amazónia cresce sobre o seu solo, e não do seu solo (que é paupérrimo, infértil), utilizando-o essencialmente para proceder à fixação dos nutrientes que resultam da reciclagem dos seres vivos (o que de certa maneira explica a desmesura das árvores tropicais: elas precisam de desenvolver raízes que cubram a maior superfície possível, de modo a apanharem qualquer elemento químico disponível), e não como fonte de nutrientes.

Também a escrita cresce sobre o papel e não do papel, na medida em que os seus nutrientes provêm todos da reciclagem da experiência da vida (o papel é o suporte de fixação dessa experiência). Ora, parte da novidade (e da estranheza) da obra de Stéphane Mallarmé resulta precisamente do facto de ele ter pretendido extrair a sua poesia do papel em branco (ou de uma certa ideia de papel em branco). É claro que isto não passa de sugestão (e de ilusão), mas pode configurar uma linha de abordagem fértil quando aplicada ao autor de "L'après-midi d'un faune".

Silogismo

O Deus retratado pela Bíblia não teria sofisticação intelectual suficiente para ser o autor, quanto mais não seja moral, de um livro assim tão belo; logo, a Bíblia não é um livro de inspiração divina.