segunda-feira, dezembro 27, 2010

Partilha 110

chegar o poema à cozinha


gosto daquelas pessoas
que acreditam em deus de maneira difícil
um deus duro de roer
mais duraz que duradouro
que nos deu os ingredientes mas não
a prescrição
do seu teor incisivo

vi noutro dia
duas fantasias minhas a falarem entre si
imagine-se:
o leather à conversa com o ménage à trois
a cavaqueira entre a alva e o paraíso
ou até mesmo um pomar namoriscando
as estações ao deus-dará

domingo, dezembro 26, 2010

Este teve sucesso no facebook

Antigamente, as pessoas iam para o céu ou para o inferno. Agora, são bipolares, disléxicas ou anorécticas.

Ainda dentro do espírito natalício...

... um post de grande singeleza:

Há uns tempos atrás, uma pessoa disse-me que conhecia um casal em que um dos cônjuges se tinha filiado no PS e o outro no PSD para terem sempre garantida a aprovação de todos os seus projectos. Dizia-o com admiração babada. Ao mesmo tempo, essa médica criticava, com indignação, o Estado português, por aqueles gastos irreflectidos e inúteis no Sistema Nacional de Saúde que comprometiam a essência benéfica desse serviço público cuja bondade se lhe afigurava inquestionável. Ora, eu não sei se esta pessoa não merece o Estado que tem, e vice-versa. Apesar de me encontrar próximo das ideologias de esquerda, nunca me senti vocacionado para uma consciência de classe, porque não tenho bem a certeza da validade daquilo que pretendem os indivíduos que compõem as classes (todas as classes, sem excepção).

Disse-o o intelectual que conhecemos como Cristo (eu avisei que isto era singelo), mas disseram-no muitos outros homens e mulheres. Algo muito simples, que toda a gente proclama (políticos, pais natais, a Cristina Caras Lindas) mas ninguém, mesmo ninguém, pensa levar a sério: não haverá ultrapassagem da crise-em-sentido-amplo (esse estádio perene do capitalismo, como disse recentemente António Guerreiro no EXPRESSO), se a honestidade, em todas as suas manifestações e consequências, não for um valor pragmático universal. Isto parece discurso de púlpito, ingenuidade de criança, inanidade de Praça da Alegria, mas a porra toda é que é mesmo verdade.

Claro que nunca ninguém aderirá a esta mínima. Até porque é tão simples que não tem glamour (os cristãos, aliás, preferiram ocupar os últimos dois mil anos com o puritanismo sexual). De resto, a maior parte dos homens nem sequer tem a percepção da sua própria desonestidade entranhada. Mas também garanto que não haverá Prémio Nobel de Tudo e Mais Alguma Coisa (de esquerda ou de direita) que consiga um dia resolver a sempiterna crise, porque a solução teria de começar no intelecto moral de cada um de nós, ou não seria uma solução.

Claro que há políticos de grande talento, sobretudo prático, e que sabem agir com alguma eficácia em momentos difíceis (falam-me de Sá Carneiro e Mário Soares, mas o Cavaco já não me conseguem impingir). Claro que de vez em quando chovem pennies from heaven (ouro do Brasil, petróleo, a CEE). Mas, da próxima vez que lhe vier a tentação de desejar um homem providencial ou um maná ex machina, olhe para dentro da sua própria responsabilidade.

Voltarei, em breve, aos posts de bom gosto.

Cadernos Rimbaldianos 3 & Pessoanos 1

À primeira impressão, Rimbaud parece ser um poeta de irracionalidades evidentes e histéricas, paralelas à dispersão mal-comportada da sua biografia, enquanto Fernando Pessoa se nos apresenta como um mestre do auto-controlo reflexivo.

A maior parte dos comentadores da obra do francês apressam-se, contudo, a sublinhar a importância da palavra "raisonné" na sua famosa expressão programática "raisonné dérèglement de tous les sens". Na verdade, Rimbaud sempre procurou trabalhar com método, mesmo que esse método lhe servisse precisamente para tornar consciente aquilo que (ainda) era inconsciente. A sua leitura atenta mostra um artesão com perfeito domínio das várias ferramentas da sua arte, pesando e sopesando todos os níveis da inesgotável polissemia dos textos que estava a produzir.

Pelo contrário, Pessoa é um pensador superficial e incoerente quando comparado com Rimbaud (este fez uma das mais subtis críticas de sempre ao capitalismo). "O livro do desassossego" é uma obra-prima do politicamente incorrecto (no sentido pejorativo da expressão), e vale sobretudo como esplendor de disparates geniais (é a minha opinião). Ao mesmo tempo, a despeito do tom filosofante dos seus poemas e do fingimento assumido da emoção, Pessoa está constantemente a revelar as suas exemplares fragilidades. Mesmo quando assume as máscaras heteronímicas (ou sobretudo quando as assume...). A obra pessoana é um drama psíquico vibrando, sem qualquer sentimentalismo, nas entrelinhas de uma pseudo-filosofia.

Rimbaud sabia como escrever bem. Foi um poeta e um pensador. Pessoa escrevia bem sem o querer. Foi um poeta, maravilhoso, mas apenas poeta.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Partilha 109

ecolocação


vi ontem um rapaz
que muito quis foder na adolescência
(mas não fodi)
Ele 'stá mais feio: eu também.
divino dilema proustiano -
quando eu o debicar
debicarei presente ou já passado?

ele amava demasiado a maria madalena
p'ra fazer dela sua primeira dama
imagine-se:
ter de rezar terços na rádio como a eanes
ou de ser um exemplo moral como a barroso
- ficámos cegos, depois disso
.....................................................(cegos)



Nota: afinal, ainda houve esta visita não convidada de um personeto. Penso, aliás, que outro vem a caminho. Mas logo, logo, acabarão.

Adenda a "O INACTUAL 28"

Já falei aqui sobre o "Aniki-Bobó". Mas ao revê-lo ontem, na reposição que um cinema do Porto lhe dedicou, surgiu-me uma pista de leitura oblíqua face à anteriormente proposta.

Que o filme tem uma superfície de discurso moral, isso é evidente. Mas o conteúdo desse discurso é bem ambíguo. O roubar da boneca é o indício figurado da vontade que Carlitos tem de roubar a namorada ao amigo. É uma paixão pura e dura, alheia a frios cavalheirismos. No entanto, a culpa imaginária que, a propósito disso, sobre ele se instala (na magnífica cena do jogo de polícias e ladrões) é completamente curada pela injusta acusação real que posteriormente o atinge. Oliveira terá os seus negócios com a Transcendência, mas parece convicto de que nem todos os Mandamentos terão o mesmo peso: cobiçar a mulher do próximo não equivale, de modo algum, a matar. E no fim, Carlitos fica com Teresinha...

Em concordância estética, os miúdos representam o que acham que é representar (nesse sentido, o filme não tem nada a ver com a naturalidade procurada pelo posterior neo-realismo). Estes sorrisos de cromos japoneses ou os beiços amuados de forma hiperbólica (imitação bacoca dos adultos) são o tipo de subtileza que Oliveira tem na abordagem aos actores que, ainda hoje, lhe vale desaforos e incompreensões. O esplendor dessa maneira será atingido no "Acto da Primavera", na medida em que o artifício é radical e plenamente assumido em todos os aspectos da realização. Pena que, nos últimos anos, Oliveira tenha perdido a firmeza do seu sistema.

Cadernos oliveirianos 1

1. Quando rodou "Douro, faina fluvial", o realizador Manoel de Oliveira tinha cerca de vinte e um anos, e o cinema não era muito mais velho. O seu documento sobre o trabalho popular na zona ribeirinha do Douro foi assim construído sob o signo da energia eufórica e juvenil. Energia-futurismo, energia-mar, energia-povo. A única adversidade capaz de suspender anormalmente a faina era a (ameaça de) morte.

A mensagem do irreformável Oliveira, com cento e dois anos de idade, mantém-se, muito ironicamente, igual.


2. O último disco do cantor B Fachada (que gostaria imenso de ouvir) é jornalisticamente apresentado como uma diatribe contra a educação moral que é vulgarmente imposta às crianças. E, de facto, a ética parece ser o tema obsessivo da produção artística infantil (basta pensar em "Germania, anno zero"). Moral, imoral, amoral... Não haverá forma de falarmos às crianças saltando gentilmente sobre esse assunto?

Cadernos tchekhovianos 1

Nas grandes peças de Anton P. Tchékhov (mas também na sua contística), as personagens mais comoventes são aquelas cujas expectativas sobre a vida foram irremediavelmente empoladas por uma educação tão requintada que a vida provinciana não lhes consegue dar plena satisfação. A educação frustra, dá ao real a fealdade que ele talvez até nem tenha.

Ora, Tchékhov foi, à semelhança do seu ídolo Tolstoi, um construtor de escolas para camponeses. Esta aparente contradição pode ser lida de duas maneiras razoavelmente antagónicas. Ou o autor de "As três irmãs" era de facto um pessimista profundo, mas incapaz de deixar de lutar (um Prometeu sem fé). Ou, pelo contrário, achava que a mediocridade da vida russa era uma questão conjuntural, e que era preciso trabalhar concretamente para que, no futuro, todos os seres pudessem conviver em igual estádio de exigência espiritual.

Seja como for, o escritor morreu antes do falhanço do comunismo.

Marginália

1. Não há qualquer razão inevitável para que um verso seja graficamente alinhado pela direita de uma página, e não pela sua esquerda (ou pelo centro). Mesmo no sistema de escrita-leitura ocidental. É uma convenção, como outra qualquer.

Ora, se nascer num berço de ouro faz toda a diferença, ser enterrado num caixão de ouro já não faz. Nos meus "poemas para serem ditos no cinema", os versos serão alinhados pelo seu fim, e não pelo seu início.


2. Todo o poema é uma construção. Os "poemas para serem ditos no cinema", construídos como para-confissões de um sujeito lírico cansado (mas que não deixa de se auto-mitificar), deverão funcionar como estudos para uma dicção menos armada. Serão quase poemas não-construídos (o que é ilusório), cuja espessura fica irremediavelmente dependente da voz lendária que os deveria dizer/ter dito (e que vem especificada em cada título). É o fantasma dessa voz que lhes serve de alicerce, parede e acabamento.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Mínima

Escolhe a forma como escolhes um companheiro de cama, e o conteúdo como escolhes um companheiro de vida.

Temps oblige

Todos os passos são para a frente, mesmo os que se dão para trás.

domingo, dezembro 05, 2010

O critério

Se me perguntarem por que profundíssima razão eu escrevo poesia, sou capaz de urdir um ou dois ensaios de alguma extensão argumentando meia dúzia de bitaites conceptuais (e até políticos) sobre o assunto. Mas, para ser muito sincero, e por mais voltas e reviravoltas que eu dê à minha intelectualidade, a principal e mais profunda razão pela qual escrevo poesia é porque adoro poesia. Só isso.

Compreendo que, para algumas pessoas (especialmente se forem tão sérias como o Rimbaud pós-dezassete-anos...), um certo nojo existencial se possa sobrepor a um tal amor simples (falei disso a propósito de David Perlov e o cinema - aqui). Mas já me custa mais a aceitar que, no seguimento da presente desvalorização filosófica da pintura (e é preciso dizer que, mais tarde ou mais cedo, as razões passam de moda), quase todo o artista plástico (de renome?) tenha perdido o gosto pela pintura. Eu sei que já disse isto milhares de vezes, e que esta até nem é a minha guerra, mas é um assunto que não cessa de me espantar.


Imagem retirada daqui

Continuum

Exactamente como aqui defendi que não há figuração nem abstracção puras, também me parece lógico que não possamos fazer, da poesia e da prosa, duas margens separadas por um rio de artifício.

Em qualquer palavra, há sempre duas dimensões conflituais: uma sonoridade (a dimensão musical-abstracta) e uma imagem do mundo (a dimensão pictórica-figurativa). De forma simplista, diríamos que, se tomou vulgarmente por poesia, aquele tipo de escrita na qual os valores musicais (prosódia, ritmo) se revelam independentes dos valores sintácticos que organizam o sentido mimético. Mesmo na poesia contemporânea, há autores exemplares a esse respeito (veja-se, por exemplo, o labor rigoroso de Gastão Cruz). Já a prosa seria o domínio da exultação sintáctica e da negligência musical.

Ora, mesmo na música e na pintura, as coisas não se passam assim. A maior parte da pintura produzida nos últimos cem anos é abstracta, ou seja, relaciona-se mais imediatamente com dados musicais (ritmo, tonalidade) do que com referências inequívocas ao chamado mundo real. Por outro lado, a música não está isenta de ambições miméticas: Olivier Messiaen, um dos compositores de vanguarda do século XX, dedicou grande parte da sua criatividade à imitação do canto dos pássaros.

A própria mancha gráfica que estamos habituados a associar a um poema relaciona-se sobretudo com a musicalidade da pintura... E se é impossível escrever um poema sem qualquer referência ao real (a não ser que se escreva com palavras totalmente inventadas e irreconhecíveis, pois, caso contrário, mesmo um poema absurdo continua a guardar o sentido de cada palavra individualmente considerada), também não há qualquer hipótese de se escrever um trecho de prosa sem este ter, por exemplo, ritmo. Mesmo que seja um contrato-promessa de compra e venda. Pode-se é escrever sem pensar no ritmo, ou com um mau ritmo, mas ele nunca abandona a construção textual.

Os grandes modernistas franceses (Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, Mallarmé) todos contribuíram para o sucesso do chamado poema em prosa. Mais do que uma inovação, o gesto parece-me ser antes um acto de lucidez e de reposição de rigor conceptual. Ou melhor, de libertação conceptual. Não será um poema em verso livre mais pictórico do que propriamente musical? Se eu escrever pensando na sensualidade de determinada mancha gráfica, não estarei sobretudo a querer ser pintor? E por que razão não há-de haver rima na prosa? E etc., e etc.

Por acaso, eu até defendo que há utilidade na distinção conceptual entre as atitudes que levam à poesia ou à ficção (ou ao ensaio, já agora). Simplesmente, parece-me que essa diferença se estabelece com mais rigor ao nível do conteúdo de cada género, do que em termos das suas contingentes articulações formais. O que quer dizer que a poesia se pode praticar no cinema, a ficção na pintura, o ensaio no verso rimado...

(To be continued)

Nota "En la ciudad de Sylvia"

Não fiquei especialmente cliente deste filme (do ano de 2007) do espanhol José Luis Guerín, se bem que lhe reconheça admiráveis qualidades.

Como não partilho da teoria de que uma forma exuberante possa revolucionar um conteúdo medíocre (já aqui expliquei como, em "Touch of evil" de Orson Welles, entendo forma e conteúdo como sendo plenamente solidários), fico bastante inquieto com o lirismo adolescente (se é que, de facto, isto é lirismo) proposto pelo realizador. Compreendo que o seu filme seja uma parábola, e por isso não tenha de ser verosímil. Mas as parábolas não estão isentas de, em si mesmas, terem de apresentar um entusiasmo narrativo (falo de entusiasmo, não de estrutura), e, a esse respeito, "En la ciudad de Sylvia" é um filme delico-doce, previsível e pueril. Apesar de ser usual aproximar-se criticamente este autor da criatividade de Victor Erice, é precisamente ao nível do rigor do conteúdo que os dois se afastam irremediavelmente.

No entanto, há que reconhecer que Guerín é um pintor notável (ou talvez deva dizer "desenhador", para estar de acordo com o cliché proposto). "En la ciudad de Sylvia" vale pela extrema atenção assumida pela câmara perante as inúmeras possibilidades de enquadrar o feminino numa paisagem urbana. Toda a sequência do café, em que o autor nos obriga a olhar para esta ou aquela mulher através dos interstícios deixados pelo movimento de outros corpos, e que culmina com a visão da protagonista (é o café do Conservatoire d'art dramatique...) através de um vidro onde se acumulam os reflexos (fantasmas) de outras candidatas-a-protagonista, é simplesmente maravilhosa. E há momentos de verdadeiro êxtase, neste filme: seja a cena em que o travelling da câmara parece estar apoiado sobre os carris do eléctrico (como se a capacidade de criar imagens estivesse plenamente sintonizada com os movimentos urbanos), seja o breve instante em que a rapariga caminha sob a intensa sonoridade dos sinos da cidade, seja toda a sequência do vento no final...

Dentro do género, já se fez francamente melhor (o Hitchcock de "Vertigo", o Godard de Anna Karina, o Antonioni eternamente tentando identificar uma mulher). Mas este é o género de filme falhado que eu aconselharia a um amigo.

Fala de Casanova...

... ou do Noivo algum tempo antes de dar o nó:

"Gosto de ménages à trois, porque isso me permite despachar mais depressa as pessoas que quero foder."

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Dou por encerrada...

... a minha série de personetos.

Partilha 108

gam


o meu irmão tem um bebé com vários choros
o meu irmão tornou-se
...........................................her-me-neu-ta
um n no céu da boca?
um ó com boca oval?
acabou-se a doçura da vida do meu irmão
agora tem sal

há vários tipos de destino:
pirata
negreiro
de guerra
mercante
diz-se que o amor de pai
tem uma inquietação de moby dick

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Partilha 107

wikileaks


quando eu estiver mais para lá do que para cá
portar-me-ei como um cobarde de primeira
direi que me converti
que me arrependi dos meus gostos na cama
que a partir de então voto cavaco
e deixo o suficiente para todas as dívidas
mas até lá...

certas coisas boas nunca me aconteceram
como nevar
mas nevar tanto que há-de
ser preciso fechar as escolas
e declarar gazeta obrigatória
ou isso
ou um mês inteiro de felicidade

Partilha 106

paz


já passou, vês, já passou...
(a borboleta)
agora
a maturidade é um cancro
que cresceu no teu isolamento
e fez de ti um fruto
.....................................da queda

escrever numa folha de papel
é boda muito breve
quero escrever em algodão
sobre uma crise de lã
sobre uma idade turquesa
em alabastro
ou sobre o meu caixão de jequitibá

Galeria Murnau 9

Mais um texto...

... no meu livro-blogue "três escrínios": aqui.

domingo, novembro 28, 2010

Partilha 105

voz de delphine seyrig



(e=45)

não há deus que acolha o teu gesto
num universo de materna compreensão
nem paraíso que te recompense
com rios de leite, luz e sangue azul
não há glória social que valha a pena
não há gratidão eterna
nem mesmo uma amizade
que resista a trinta dinheiros
(ou até a um pouco menos)

mesmo assim
és por vezes decente com o outro
e o outro decente contigo


[por vezes]

Cadernos Rimbaldianos 2

O professor Cavaco tem muito que andar para conseguir expressar silêncios tão ensurdecedores como os do adolescente de Charleville. Que gangrena terá levado a que um poeta de excepção tenha prematuramente amputado a escrita da sua vida? Eis uma dúvida que assombra muitas almas sensíveis, e que tem feito correr rios de tinta, talvez até alguns afluentes de vil metal, e uma horda inesgotável de macaquinhos de imitação.

Pela minha parte, demarco-me da hagiografia com os dois únicos comentários que se me afiguram úteis:

1. Ao ter desistido de escrever com cerca de vinte anos (as razões são suas), Rimbaud mostrou como perdeu o interesse por toda e qualquer sombra de carreira nas letras. Sinto-me constrangido quando vejo a comunicação social celebrar o milagre do tempo associado a uma paixão com parangonas do género "cinquenta anos de vida literária". E ele é prémios, comendas, homenagens, prefácios e outras cagadas honoris causa. Ora, o autor de "Illuminations" escreveu enquanto lhe apeteceu, enquanto isso constituiu uma necessidade vital para a sobrevivência do seu espírito, e parou quando outros valores, nem mais altos nem mais baixos, se levantaram.

2. Em continuidade com esta ideia, quer-me parecer que, para Rimbaud (e nisso sou absolutamente solidário com ele), a poesia não estava restrita a uma prática de escrita, mas implicava a experiência da vida por inteiro. Haverá certamente razões que fazem com que a arte que, por definição, nos impele para o fazer (poesia não será poiesis mas evidência que leva à poiesis) seja aquela que prescreve uma acumulação de palavras sobre folha de papel. Mas o jovem autor terá preferido perder o seu lugar de excepção dentro dessa gesta e entrar na vivência poética comum a todos os homens. De resto, continuou a não saber viver. Mas entre tantas imaturidades, essa honestidade absoluta na relação com a escrita seria o suficiente para o fazer ganhar o Prémio Nobel da Economia.

quarta-feira, novembro 24, 2010

"Hamsarayan" - parte 2

"Hamsarayan" - parte 1

O INACTUAL 55

"Hamsarayan" - Abbas Kiarostami (1982)



A. Recentemente, tive a oportunidade de ver quatro curtas-metragens que Kiarostami realizou no âmbito da sua colaboração com o Instituto (iraniano) para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Jovens Adultos (forneço as traduções dos títulos para a língua inglesa, porque não conheço as soluções correspondentes em português): "Noon va Koucheh" ("Bread and alley", 1970), "Zang-e Tafrih" ("Breaktime", 1972), "Do Rahehal Baraye yek Masaleh" ("Two solutions for one problem", 1975) e "Hamsarayan" ("The chorus"). Pude re-observar algumas características temáticas e formais que compõem uma espécie de espinha dorsal da sua obra:

1. A maior parte dos filmes decalca a sua ficção-documento a partir de um lugar comum alegórico: o caminho com obstáculos. É um lugar comum completamente despido, frontal, directo (não está disfarçado por uma pseudo-sofisticação), e com consequências ao nível da organização visual das obras. Talvez esta obsessão tenha sido em parte sugerida pelo urbanismo enviesado das urbes iranianas. De qualquer modo, o cineasta tem uma manifesta predilecção pela passagem estreita, como se estivesse sempre a glosar o tema do labirinto do conto infantil.

2. A despeito de ser um autor que se mantém próximo do quotidiano, este aparece intensificado até atingir uma dimensão para-épica: na mais bela daquelas curtas-metragens, "Hamsarayan", há um cavalo puxando uma carroça que corre como um louco pelo labirinto citadino. Todos os filmes de Kiarostami registam a dificuldade extrema de realizar uma acção muito simples: por exemplo, entregar um caderno a um colega em "Onde é a casa do meu amigo?".

3. Perante cada obstáculo pequeno-grande que se apresenta no caminho, há sempre dois pontos de vista igualmente válidos e que não se excluem mutuamente. A didáctica de "Noon va Koucheh" não é nada simplista: com a simples arma de um pão, uma criança faz com que um animal passe de ameaça de agressão a vítima emocional. Em "Hamsarayan", o gesto de tirar o aparelho que mitiga a surdez tanto pode constituir uma defesa (contra os ruídos desagradáveis) como pode tornar o seu portador indefeso (não ouve o cavalo que se aproxima, não ouve as netas que o chamam). Nessa grande síntese que é "O sabor da cereja", o espectador assiste à reticência com que os homens auxiliam uma pulsão mortal e à naturalidade com que é acolhida a tendência oposta.


B. "Hamsarayan" parece-me ser uma pequena obra-prima. É uma parábola simples, mas sem mácula, que nos diz que, a despeito do progresso (de que a tecnologia do aparelho para a surdez é sinédoque), a voz infantil (em sentido amplo) continua a não ser ouvida.

O filme é um festim para os sentidos. Por um lado, a fotografia (luz intensificada, cores saturadas), evoca um excesso de evidência da realidade, como se, em paralelismo com a deficiência auditiva do protagonista, o espectador fosse parcialmente cego perante o mundo. Por outro lado, e naquela atitude de flirt subtil com a vanguarda que só Kiarostami consegue gerir, "Hamsarayan" é uma peça de música concreta, onde um coro de gritos ritmados de crianças é instrumentalmente acompanhado por uma perfuradora.

Sentir, por fim, aquilo para que estávamos circunstancialmente surdos? É a poesia.

domingo, novembro 21, 2010

Excerto de uma carta de amor 5

.......olhe, devem ter sido os suiços que inventaram o amor (só pode), esse amor-de-cuco em que aparece pontualmente um pássaro a dizer "terra de ninguém" "terra de ninguém". Os amantes chocam nele um mostrador que não é seu, e onde se lêem disparates como "joão menos paula", "carla e um aurélio", "luís em ponto". Um bebé codorniz dentro de um ovo avestruz? Certamente, mas só os ponteiros deste canivete nos valem para cortar o silêncio ........

quarta-feira, novembro 17, 2010

"Lola" - imagem

O ACTUAL 29

"Lola" - Brillante Mendoza



A Justiça é uma avó imemorial, uma preocupação quase tão antiga como a consciência do humano. No entanto, a expectativa da sua eficaz organização social, que coroa a última parte da "Oresteia" de Ésquilo, já se encontra ironizada no "Don Quijote de la Mancha". Em continuidade com a lucidez cervantina, o belo filme "Lola" alicia o seu espectador para a ideia de que a verdadeira justiça talvez seja independente das formas instituídas (polícia, tribunal) de a praticar.

Mas fá-lo sem incorrer numa tónica maldita. Veja-se o tratamento afectivo dado à figura do dinheiro, bem mais próximo da magia redentora de "La leggenda del santo bevitore" de Ermanno Olmi do que do (provavelmente) diabólico "L'argent" de Bresson. Ele é o modo real como se dão as trocas entre as pessoas: se neste filme houvesse uma acção de suborno, ela confundir-se-ia provavelmente com um acto de amor.

A antiguidade da justiça ganha corpo na velhice corpórea das duas avós que protagonizam a obra. E a forma que Mendoza decidiu trabalhar cola-se a esse impositivo peso físico, a esse exemplar escrúpulo de locomoção. Seja a nível da narrativa (que se reduz ao conjunto de procedimentos necessários para resolver os problemas levantados por uma morte por homicídio), seja ao nível da coreografia da câmara, ou da lentidão rítmica. Só que essa lentidão é o oposto exacto dos nossos problemas actuais com a Justiça: nós é que já não sabemos que actos devem ser praticados em allegro, e que actos em adagio.

Vento, chuva, água omnipresente, detritos, alimentos... "Lola" parece desenvolver uma poética do húmus, num sentido muito semelhante ao que Raul Brandão trabalhou. É claro que as imagens documentam a miséria da sociedade filipina (e com certeza muitas das nuances do contexto nos passarão despercebidas), mas, mais do que isso, elas configuram um estádio existencial de mistura entre morte e vida cuja fermentação (lenta, secreta) só pode descambar numa esperança de fertilidade. Em pleno funeral, as crianças apanham peixes que servirão de futuro almoço. Lá para o oriente, parece que eles continuam a saber caminhar em frente...

terça-feira, novembro 16, 2010

Cena falhada

Quando estava a esboçar o post anterior, enganei-me e escrevi:

"Não há provas irrefutáveis a favor de nenhuma solidão"

Cadernos Rimbaldianos 1

1. Não partilho da inquietação dos estudiosos da poesia de Rimbaud quanto à verdadeira ordenação cronológica das suas duas últimas obras. Não há provas irrefutáveis a favor de nenhuma solução, pelo que o exercício especulativo costuma ser utilizado para fabricar uma determinada imagem do poeta adolescente (mais rebelde ou mais genial, conforme os gostos). Aliás, nem sequer me parece que a oposição "Une saison en enfer" - "Illuminations" seja particularmente relevante. Podemos conceber os dois textos como duas estações do percurso do autor, uma qualquer a seguir à outra qualquer - e depois muitas outras terá havido (mas sem escrita). Parece-me que é bem mais produtivo contrapor os delírios do período da vidência (com seu soneto "Voyelles") às "Illuminations" (e sua bem muda prosa intitulada "H"), ou seja, contrapor a defesa lapidar do "Je est un autre" à sua mutação, após o falhanço da ambiciosa experiência sentimental com Paul Verlaine, para algo que se poderia formular por "Je est je et un autre".

2. Nas "Illuminations", é sintomático que o poema "Ville", com título no singular, evoque uma metrópole idealizada mas entediante, enquanto que os outros dois textos que descrevem urbanismos mas partem de uma intitulação plural estejam impregnados de possibilidades e esperanças. Rimbaud poderia não saber muito bem o que queria, mas sabia que não queria estar parado. Toda a cidade deve ser cidade(s). O saisons!

3. Ainda na mesma recolha, o famoso poema "Départ" parece aderir claramente à forma do telegrama. É o telegrama de alguém que, eventualmente, já partiu (como "H" é a fala de quem talvez já se tenha calado).

4. O "Génie" que conclui as "Illuminations" não é, obviamente, o Zuckerberg do facebook. Não é a inteligência que apaixona Rimbaud. Ele defende, romanticamente, a genialidade, sim, mas esta implica a plena expressão do ser, a sua máxima e completa potência: amor, ética, devir, harmonia, inquietação...

Fala do homem de meia idade

"Quando eu era bom como o milho, toda a gente queria fazer de mim pipocas."

domingo, novembro 14, 2010

Partilha 104

cronocromia


ler poesia é fácil (ler-me)
é como em tempo de caderneta de cromos:
as palavras que posso dar sem as perder
troco-as
pelas que o leitor quer sofrer sem lhes ganhar
golo após golo
vou marcando goles

também eu me dedico à oração
rezo à diabetes ao coração ao colesterol
que me dêem baba e ranho muito longos
- assim o quer meu andamento caracol
(não anotei a data em que surgiu
o meu primeiro
............................verso branco)

quarta-feira, novembro 10, 2010

"The night of the hunter" - imagem

O INACTUAL 54

"The night of the hunter" - Charles Laughton (1955)



O filme único de Charles Laughton oferece-nos uma das visões mais duras sobre a infância que a história do cinema é capaz de aguentar (outros exemplos serão "Germania anno zero" de Roberto Rossellini e "El espíritu de la colmena" de Victor Erice). Basicamente, a alegoria encena o peso excessivo daquilo que impomos a cada criança durante a sua jornada de preparação para o mundo. Os dez mil dólares metidos numa boneca são o indício dessa responsabilidade adulta (ser fiel ao pai até às últimas consequências, guardar um segredo como só um túmulo o faria, cuidar da irmã mais nova) cuja violência só por via de um esquecimento medíocre nos parece suportável quando nos tornamos, de facto, adultos.

Nenhuma criança consegue, portanto, ver os seus pais tal como eles são. Volto a sublinhar aqui o carácter fortemente alegórico de "The night of the hunter": os dois miúdos encontram a mãe adoptiva depois de partirem à deriva no rio onde a mãe real se encontra sepultada, e o rapaz chega a confundir a prisão do padrasto com a prisão do seu próprio pai. É preciso inventar os progenitores, mitificá-los. Se o pai verdadeiro legou aos seus filhos a imagem de um amor imenso mas desequilibrado, as crianças têm de o reconstruir como um desequilíbrio de sinal inverso. Só assim conseguem sobreviver. E em contraste, a fragilidade da mãe verídica, visivelmente mais interessada em namorar do que em cuidar dos filhos, tem de ser redimida na fantasia de uma super-mãe, que defende a sua prole com armas de fogo e cujo amor tem a força rude de tudo o que não vacila.

O que está aqui em causa é o problema da educação, certamente um dos assuntos mais relevantes com o qual nos temos de confrontar na nossa passagem por este mundo, mas cujo aparato de soluções instituídas costumamos aceitar como consensual. Não é, é uma polémica interminável. Note-se como, neste filme, tanto o Pai-vilão como a Mãe-heroína têm exactamente o mesmo discurso, o discurso cristão. E, no entanto, as repercussões da sua aplicação são diametralmente opostas. Como na vida, de resto: a maior parte das pessoas partilham uma mundividência burguesa-cristã, mas os resultados das educações que fornecem aos filhos são brutalmente diversos.

Portanto, o essencial da formação de um ser passará não tanto pelo catecismo de valores que ele é obrigado a decorar, mas pelo exemplo da sua execução levado a cabo pelas figuras adultas míticas que orientam esse ser. Ao mesmo tempo, Laughton põe o dedo na ferida da América do seu tempo, perdida numa histeria ideológica que a levou à vergonha da caça às bruxas. Com a clarividência do meu amigo John Ford, estou cada vez mais convicto de que a execução ética de um pensamento é mais importante do que a eventual perfeição desse pensamento. Veja-se: o puritanismo sexual da personagem de Robert Mitchum tem um carácter evidentemente patológico, mas quando a mãe galinha diz que as mulheres são tontas sentimentais, ela está a dizer uma verdade. E, no entanto, partem os dois da mesma moral, o cristianismo, que foi fundada sobre o sentimento do amor, mas que se tornou bem mais ambiciosa, bem mais pesada, do que esse sentimento.

"The night of the hunter" não é um filme sobre a fragilidade das crianças na era da Depressão dos anos 30. A fragilidade aqui debatida é a que resulta da própria condição infantil. Na inesquecível sequência de viagem pelo rio, os animais (aranhas, sapos, coelhos) velam pela segurança dos meninos, como num conto de fadas. No fim, tenho a certeza de que todos queremos ser filhos de Lillian Gish. E como ela é a grande mãe do cinema (embalando o berço da humanidade em "Intolerance" de David W. Griffith), ela faz de nós todos ciné-fils. E quem será capaz de garantir que não foi (também) educado pelo cinema?

Creep

Se bem percebo esta narrativa de gestação do facebook defendida (com pouco talento) no filme "The social network" de David Fincher, ela ecoa aquilo que argumentei no meu ensaio sobre a presença do filósofo Sócrates no livro "O banquete" de Platão: muito do que hoje constitui a nossa cultura social deriva da influência decisiva que sobre ela tiveram um conjunto de homens sem grandes talentos sociais. O mais curioso, e assumo isto confessando que a minha personalidade se aproxima daquilo a que vulgarmente se chama um nerd, é que as pessoas com uma capacidade de sociabilização equilibrada talvez não precisassem propriamente do legado desses visionários...

O facebook (do qual participo) parece-me, contudo, bastante inócuo (ao contrário da blogosfera, por exemplo). A verdade é que continuo a ver a geração da internet (os adolescentes contemporâneos) a constituir relações sociais de facto e em presença. No máximo, a rede social pode servir para enganar um pouco alguma solidão real, mas não está a transformar a humanidade numa distopia geek. E tem vantagens: já encontrei amigos do passado por essa via... Aliás, pelas suas próprias características, o facebook acabará por passar rapidamente de moda, pois é disso que se trata, e não nos nos assombrará durante milénios como o platonismo. Até porque, seja qual for a nossa adesão a este filão filosófico (eu não adiro), ele foi fundado a partir de uma preocupação ética profunda, e o achado de Zuckerberg não passou de uma ambição de um jovem emocionalmente imaturo (quero lá saber do seu Q.I.).

Continuemos a brincar um pouco no facebook, nada mais.



Imagem retirada daqui

domingo, novembro 07, 2010

Telegrama

O professor Diogo Freitas do Amaral, uma espécie de Zita Seabra mas em bumerangue, disse que não apoiava a candidatura de Manuel Alegre à presidência da república porque, apesar deste ser um excelente poeta, os poetas costumam andar na lua.

Discordo.

Por várias razões.

Manuel Alegre, com todas as qualidade que possa ter, não me interessa nada como escritor.

Quem foi à lua, foram os americanos, não foram os poetas.

A poesia ou tem relevância política, ou não tem relevância nenhuma.

Ser presidente da república deve ser um dos postos menos políticos de uma nação.

Perante esta expulsão da república, poupem então os poetas às homenagens, comendas, grãs-cruzes e demais alfinetes de trazer na lapela.


P.S. - Manuel Alegre também não me interessa nada como político.

Confissão 29

Sou tão absolutamente ambicioso que não me comove nenhum dos modelos de reconhecimento que o mundo tem para me oferecer.

Leveza sustentável

Tudo o que compõe o poema (imagens, figuras, sonoridades...) deve ter a consistência de uma cintilação breve.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Gostaria de ter escrito 9

Parágrafo


Sou dado às coisas assim prontas, como quando uma coisa alude a outra e tudo flui em harmonia; um futuro rodeado na ciranda que deita rodas gigantes em carrosséis, assegurando-me giros sem alturas. As coisas assim prontas surgem do meu anexionismo: o que me é compreensível é porque também me compreende, o resto ignoro; os que insistem, construo divisas e isolo.

Rafael Costa

segunda-feira, novembro 01, 2010

Casting 14

O realizador chileno Raúl Ruiz parece ter mais talento para imaginar personagens do que para escolher os actores que lhes hão-de dar corpo.

Em "Os mistérios de Lisboa", filme ao qual não consegui aderir, há vários erros de casting. É o caso de Joana de Verona, actriz que desconhecia, e que na saga camiliana representa o papel de uma criada que rouba o marido à patroa, para, mais tarde, já respeitavelmente casada com outro homem, se ver obrigada a enfrentar a amante do seu marido.

O primeiro aspecto do erro resulta de, perante aquela pessoa, ser difícil acreditar que a sua personagem é originária de um meio social desfavorecido (o mesmo acontece com Ricardo Pereira, que não é por ter uma cicatriz de caracterização que consegue expor uma cicatriz social). Mas a maior dificuldade deve-se ao facto de Verona ser claramente muito mais oliveiriana do que ruiziana, como provam a sua tendência para uma declamação demasiado pura e a fragilidade do seu corpo-pronto-a-ser-habitado-por-um texto.

Ao meu lado, dizia-se que ela era uma má actriz. Não me parece, parece-me deslocada do projecto, o que é uma coisa diferente. Aliás, Joana protagoniza mesmo um dos melhores momentos dos "Mistérios de Lisboa". Quando, no frente a frente com a magistral Clotilde Hesme, Ruiz a enquadra em grande plano, a sua insegurança física perante a adversária é exponenciada pela agitação descontrolada dos brincos que está a usar. Eis um pormenor que tenho a certeza de que ninguém previu, e que contribui de forma radical para a expressividade e o sentido do filme.

sábado, outubro 30, 2010

Partilha 103

féerie terciária


quero ser uma bola
entre verdasco e nadal
a ser mártir que seja por razão sexual
uma antígona esmagada
escrevendo uma valsa pornográfica
que principia assim:
as linhas paralelas só se encontram no infinito

a verdade é que me quero casar
com toda a gente que quero foder
a política
é dizer o mesmo a todos:
como não consigo ganhar
tudo aquilo que servi
entra em mim e na minha vida como um f.m.i.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Soigne ta gauche

Quando, durante o debate nacional em torno da questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, Agustina Bessa-Luís defendeu uma previsível posição conservadora, houve quem lhe tivesse respondido com insultos ao seu trabalho literário. Do estilo: essa senhora, que nem sequer é boa escritora, não tem autoridade para dizer tal enormidade.

Não incorrerei em igual baixeza neste post. Por isso, começo por confessar que nunca li a obra do poeta Ferreira Gullar, e que a minha vontade de objectar a uma ideia pela qual ele pugnou numa entrevista conduzida pela jornalista Alexandra Lucas Coelho, resulta de um exercício de cidadania e não se confunde com qualquer crítica literária. A sua eventual excelência como escritor não está aqui em causa.

O que me incomodou, na já mencionada entrevista, foi o facto de o autor brasileiro ter defendido que, após o falhanço das ditaduras comunistas, ninguém se podia considerar "de esquerda". Não me deterei nas suas ideias sobre Lula da Silva, pois ele terá muito mais autoridade do que eu para as defender, já que vive numa proximidade com a política do seu país com a qual eu não posso competir. Por outro lado, o tema "esquerda" é suficientemente lato para exigir a generosidade de um denso livro que o tente abarcar. Pretendo apenas formular uma razão pela qual vale a pena, hoje, manter aquela filiação ideológica, uma razão que tem tudo a ver com o Brasil.

Quando eu continuo a dizer que sou "de esquerda", pretendo, entre muitas outras coisas, fazer finca-pé na ideia de que as sociedades africanas e americanas que foram colonizadas pelos europeus após a brecha aberta pela expansão ultramarina portuguesa não só não eram sociedades inferiores aos seus visitantes opressores, como foram irremediavelmente prejudicadas pela colonização.

Parece-me evidente que o mundo europeu tinha algumas superioridades: a nível bélico (o apogeu disso foi atingido em Hiroxima, um grande orgulho, sim senhor), a nível científico (e contudo, é constrangedor que a sofisticação da ciência não tenha conseguido anular o fundamentalismo religioso no mundo ocidental, tendo nós hoje de assistir à miséria intelectual do criacionismo), a nível do pensamento abstracto. No entanto, a antropologia, a sociologia e a história já provaram que muitas dessas sociedades de "primitivos" viviam uma espécie de equilíbrio cívico notável que os europeus não foram capazes de compreender.

As vidas dos índios da Amazónia seriam vidas duras, já que a natureza com a qual tinham de se confrontar não era passível de uma dominação fácil, mas decorriam em ambientes de ética sofisticadíssima. Na tribo dos Bororo, por exemplo, a ausência de sistemas institucionalizados de punição criminal era paralela a uma quase ausência de crime na comunidade. No ocidente, após páginas e páginas e milénios e milénios de religião, moral e direito, o que podemos constatar é uma espécie de imparável esplendor da corrupção, aberta a todas as mutações e a todos os requintes. Basta dizer que, nos Estados Unidos da América, ainda existe a pena de morte...

Não quer dizer que essas sociedades fossem perfeitas (os aztecas, por exemplo, faziam sacrifícios humanos), nem que tivéssemos de nos rever nas suas culturas. Agora, o facto de nelas existir um equilíbrio comunitário notável é um facto insofismável. Não eram mundos que precisassem de ser corrigidos.

A minha sobrinha de catorze anos disse-me que, se o Brasil era uma potência em ascensão, isso se devia aos portugueses, que o descobriram e o livraram do seu primitivismo. É claro que ela terá tempo para adquirir uma outra consciência cívica, mas, para as Helenas Matos deste mundo, que se preocupam com a terrível lavagem ao cérebro ideológica que a escola pública faz às criancinhas, este falhanço na doutrinação deve ser um alívio. E de facto, os negros africanos, depois de séculos de sujeição à escravatura, até nem se estão a dar mal. As merdas de nações nas quais o colonialismo os fez desembocar poderiam cheirar muito pior. Teriam direito a isso. De resto, os milagres económicos que aí se anunciam (Brasil, Índia, China, Angola) são o passo decisivo e último da colonização. Temo o pior: para os paralíticos que começam a andar (basta ver a total falta de inteligência económica da exploração da Amazónia; mas o capitalismo, que baseia o seu dinamismo nas estratégias do lucro, não contempla, por definição, a preocupação com o longo prazo), e para os caminhantes a quem vão partir as pernas (parece que é preciso que os europeus voltem a ser pobres para se tornarem competitivos).

Acima de tudo, ser de esquerda é ter a certeza, ao contrário do que dizem os militantes de direita, de que outras sociedades são possíveis. Dizem-nos que não, que só há o capitalismo, e que só o capitalismo funciona, mas essas outras sociedades existiram, e funcionaram, e bem. Geralmente, a devoção assanhada ao capitalismo deve-se ao medo do comunismo. Meus caros, eu não enfio tal carapuça: os comunistas são copinhos de leite perante a intuição de liberdade que eu trago no meu pensamento.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Partilha 102

não se deite logo após a ceia


diz-se
que por causa da grécia
(é sempre a mesma desculpa)
nos vão tirar o décimo terceiro mês
e o subsídio de férias
mas eu preferia perder o natal
(ou as agências de viagem)

não sei
se a associação americana de psiquiatria
já considera uma doença mental
o desejo de beber água
quando há quarenta graus à sombra
mas é mais dia
.............................menos âncora



Nota: como é óbvio, este texto foi esboçado há vários meses atrás.

segunda-feira, outubro 18, 2010

A partir de agora...

... vou animar um terceiro site pessoal: três escrínios.

Será o espaço de pré-publicação de um livro de poesia composto por uma série de cem variações a partir de um poema em prosa de Jean-Arthur Rimbaud.

Embora pressinta que esteja a abusar da disponibilidade dos meus eventuais leitores, agradeço desde já as visitas que possam fazer ao texto.

sábado, outubro 16, 2010

My Darling Clementine (Barber & Church Dance Scenes)

"My darling Clementine" - imagem

O INACTUAL 53

"My darling Clementine" - John Ford (1946)



Fala-se mais do 25 de Abril que do 26 de Abril, mais do 27 que deste último, e assim sucessivamente, até chegarmos aqui sem sabermos por que aqui estamos. John Ford, fazedor de westerns, optou por contrariar a podridão que sempre se apodera de um estado de coisas burguês precisamente através do recuo até aos momentos fundadores da sua nação.

Shakespeare in Tombstone significa uma cirurgia médica realizada nos aposentos de um saloon, ou os esqueletos de uma igreja e de um baile montados sobre a aridez de um descampado. Estou certo de que qualquer anarquista compreenderá, mesmo que com isso não concorde, este poder de evidência que os primeiros esforços de uma ordem trazem consigo. O desejo rimbaldiano de dilúvio só difere no timing da esperança de civilização.

"My darling Clementine" é um filme em que os personagens têm de aprender a distinguir os duelos aparentes (entre Wyatt e Doc, entre Clementine e Chihuahua) daqueles que, de facto, implicam uma oposição (a família Earp contra a família Clanton). Os primeiros resolvem-se à conversa, os outros, não. De qualquer modo, a crueldade épica de Ford é tanta que todo o negativo que existe na pequena cidade desejosa de urbanismo tem de ser erradicado, mesmo que esse negativo esteja destituído de um dolo: Doc Holliday, o fascinado pela morte, tem de falhar e tem de morrer. A construção, a caminhada não pode parar.

A mais bela cena do filme é a caminhada do ainda-não-par Wyatt e Clementine em direcção ao baile no adro da ainda-não-igreja. Só isso: caminhada que tanto revela uma convicção firme como a inaptidão para a solenidade. Aliás, o humor fordiano não funciona como mero comic relief, antes sinaliza a resistência do humano a toda a institucionalização. São pessoas que ali estão, pessoas de verdade, tão imperfeitas quanto disponíveis.

O filme apoia-se na magistral composição de Henry Fonda, muito mais expressivo do que todos os John Waynes: rudeza sem maldade, timidez, sageza não literata, ética sem vacilação. O outro trunfo de "My darling Clementine" é o virtuosismo do cineasta na construção de cenas de género. Mesmo que este seja um dos seus filmes de argumento mais clássico (como "Stagecoach" ou "The man who shot Liberty Valance"), a sua poesia deve muito mais à indulgência que Ford mostrou naquelas obras em que quase só acumula, de forma semi-invertebrada, as acções antropológicas que o apaixonam (desde a cena de pancadaria até ao cortejo fúnebre). Tudo se resolve na força da encenação.

Não conheço ninguém, não conheço mesmo ninguém, para quem uma ideologia seja menos relevante do que a generosidade ética na execução de um pensamento. Estamos todos presos aos clubismos das nossas convicções apriorísticas. John Ford obriga-me a ser melhor: ele é um conservador, pela sua cabeça andarão Deus-pátria-família e outras fórmulas que não estimo, e, no entanto, eu preferiria que as rédeas do meu país lhe fossem entregues a ele, e não a Pier Paolo Pasolini.

Ford sabia que não há início que não seja fundado sobre uma perda, sobre uma tristeza. O amor de Wyatt e Clementine começa por uma separação.



Obs.: Sem querer branquear excessivamente a sua obra, parece-me que o racismo perante o povo índio latente em alguns dos filmes de Ford se deve essencialmente à normatividade do western e ao desejo de caracterizar com fidelidade os personagens da época desse género. De qualquer modo, o autor realizou algumas obras dedicadas à dignidade dos nativos norte-americanos.

domingo, outubro 10, 2010

Irritações

1. Um dos argumentos evocados por aqueles que pretendiam evitar a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo era o facto de a maioria dos portugueses não estar de acordo com esse passo jurídico. Curiosamente, embora esta mudança tenha, de facto, repercussões culturais de alguma dimensão (por minha parte, considero-as benéficas), a verdade é que ninguém fica obrigado a um casamento homossexual, nem a ser homossexual, nem sequer a simpatizar com homossexuais: basta uma atitude de respeito dentro dos limites da legalidade. Ora, no caso das recentes medidas de austeridade económica anunciadas pelo Primeiro Ministro, os conservadores dizem agora que elas têm de ser impostas a despeito de todas as greves gerais, por mais expressivas que elas sejam. Para além da incoerência ética desta maneira de relativizar o respeito pela suposta vontade dessa entidade de costas largas que é o povo, parece que é quando uma disposição governativa tem de facto, e de modo inequívoco, repercussões na vida das pessoas, que a vontade destas deixa de ser relevante.


2. Temos ainda hoje a impressão de que haveria alguma forma de harmonia política na Atenas mítica do passado. Nunca saberemos se tal harmonia não terá sido bem mais mítica do que real, mas temos textos (verbais e não só) suficientes para podermos reconhecer nessa civilização uma inteligência de vida em comum assaz surpreendente. Há, contudo, um dado que nunca costuma ser salientado quando se fala da Grécia antiga: é que a unidade colectiva era a cidade, e não o país. A dimensão é um problema ao qual os pensamentos não têm concedido grande relevo e, no entanto, ele parece ser mais decisivo na vida efectiva do que muitos outros factores. Numa cidade (de dimensão moderada, claro, Atenas não era as actuais São Paulo ou cidade do México), o homem é capaz de cobrir fisicamente todo o espaço público e de contactar, pelo menos a um nível visual, com todos os indivíduos que compõem a comunidade. O número reduzido de pessoas tentando viver juntas, a especificidade dos problemas que lhes são colocados, a flexibilidade ágil com que as soluções podem ser experimentadas, são factores nada despiciendos do sucesso potencial de qualquer projecto. Tente-se resolver os problemas de dez pessoas e tente-se resolver os problemas de mil... Na época da Aldeia Global, eu vou fundar um partido bizarro: o Partido das Cidades-Estado. Se ele há maluquinhos a pugnar pela monarquia, por que não hei-de eu defender um colectivo ao alcance do indivíduo?


3. As tecnologias exercem um poder de sedução rápido, brutal, tirânico mesmo. A sua utilidade é inquestionável: como pudemos alguma vez viver sem electricidade? Eu, que adoro cinema e escrevo num blogue, sou o último a poder denegrir a importância da tecnologia. Mas, francamente, parece-me hoje que o futurismo foi um movimento intelectual bem mais ingénuo do que o surrealismo. Precisamente por que a máquina é viciante, sufocante no seu apelo, como as drogas duras ou o tabaco, aderimos a cada novo passo em frente na tecnologia sem pensarmos duas vezes. Ou seja, como tudo na vida, a tecnologia só é verdadeiramente benéfica se utilizada com a devida moderação. Que o automóvel tenha feito as distâncias mais pequenas, isso é belo como a Vitória de Samotrácia! Mas que nos tenha facilitado a propensão para uma preguiça totalmente desadequada à nossa verdade biológica, que tenha poluído o mundo em níveis absolutamente escandalosos, que tenha destruído toda a noção de comunidade física (podemos hoje trabalhar, dormir e descontrair em locais que distam quilómetros uns dos outros), que nos obrigue a uma infinidade de (mais) créditos bancários, nada disso será defensável para a maioria das pessoas, se por acaso tomarem algum tempo para reflectir. Só que as distopias de ficção científica não falam do futuro: as máquinas já mandam, agora, em todos nós. Gostaria de ouvir o que o Marinetti teria hoje para dizer...

quarta-feira, outubro 06, 2010

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"L'avventura" - imagem

O INACTUAL 52

"L'avventura" - Michelangelo Antonioni (1960)



Uma das motivações que estão por trás da originalidade visual do trabalho de Antonioni é a necessidade que ele sentiu de problematizar a relação do humano com o seu cenário de digressão, qual figure in a landscape. Ao contrário da sensibilidade clássica de John Ford ou da mise en scène alegórica de Theo Angelopoulos, o cineasta italiano não pretende atingir imagens de harmonia. Muito pelo contrário, o que se pretende destacar é a especificidade frágil do homem em contraste com as maciças evidências das construções que o circundam. Daí a célebre inventividade dos enquadramentos (comparável à de um Godard), constantemente obrigando o espectador a tomar consciência da dissonância antropológica.

Em "L'avventura", os personagens deambulam por entre as construções de e para Deus. Na localidade de Noto, Sandro menciona que os edifícios religiosos do passado eram levantados com o propósito de durarem séculos. Mas a magnífica ilha selvagem onde aporta o grupo de ociosos em cruzeiro é uma construção divina destinada a durar ainda mais tempo do que a própria arquitectura devocional (noutros filmes, Antonioni falará da paisagem contemporânea). Ora, a modernidade que o realizador pretende registar caracteriza-se pela extrema efemeridade de todas as ambições e concretizações humanas. A pintura antonioniana retira assim a sua razão generativa desta décalage temporal.

Mas por que motivo já não conseguem os homens erigir catedrais? A ficção que o filme desenvolve revela a impossibilidade do presente dar resposta à questão do desaparecimento. É claro que, meio século passado sobre esta obra-prima, o cinema continua a anacronicamente resolver todos os mistérios policiais para os quais o empurram os seus ditames mercantis. Mas Antonioni não explica o que aconteceu a Anna. O seu desaparecimento, apesar de se confundir metaforicamente com a magnificência da já mencionada ilha, não tem qualquer solução à vista.

Ora, a partir do momento em que os homens deixam de considerar metafisicamente o conceito de ausência, a presença adquire um poder de persuasão tirânico. A quase felliniana cena em que dezenas de homens tresloucados perseguem uma prostituta de luxo demonstra de forma exemplar esta forma de ignorância profundamente nova. Perdida a ciência da ausência, o amor torna-se impossível: o filme atinge uma espécie de surrealismo discreto ao mostrar, de forma absurda, como bastam uns instantes sem o corpo supostamente amado, para que o corpo supostamente amante encontre novo interesse relacional.

Não quer isto dizer que Antonioni advogue um regresso à fé religiosa. A sua ideologia impediria esse saudosismo. A sua vaga proposta de solução surgirá no filme "Blow up", na deslumbrante cena da partida de ténis sem bola, em que o autor defende que o sentido deve ser, acima de tudo, vontade de sentido. A ausência pode ser, portanto, um instrumento de trabalho. Como Rimbaud, talvez Antonioni tenha pressintido que o amor precisa de ser reinventado. No fim de "Identificazione di una donna", uma nave espacial parte em aventura: poderemos descobrir-inventar um artigo que não seja definido nem indefinido?

sábado, outubro 02, 2010

Partilha 101

teia de aranha



gostava
que a minha poesia suasse
como melodia de nino rota
tocada numa tiorba
durante o lento banho
da imperatriz
yang kwei-fei

eu e a adília lopes
escrevemos poesia
de grande teor sexual
mas desconfio
(embora não tenha a certeza)
de que em ambos os casos será mais a viuvez branca
do que a pândega real

Partilha 100

em obras (setembro)



com essa caixa de ressonância
pareces uma puta sem patrão
da rua de betelgeuse

(tr)
ah, não fosse eu estar num desconserto
e preparava-te essa cona

como manda a lei de titius-bode

p'ra a manuela araújo
(professora do conservatório)
tocar cravo
era o mesmo que bater punhetas a grilos
ora, segundo a minha poética
estes chistes são menos cómicos
do que líricos


(tr - abreviatura de "assobio segundo a estilística do trolha")

Partilha 99

menu de degustação



certos rapazes são relíquias
aqui deixadas por heróis, por santos ou por deuses
(dada a solar proximidade
uma madeixa site specific,
rebentação do céu no olhar,
um sexo ao alto que convida
a uma promessa em genuflexão)

como é difícil
a arte de fazer lacinhos
sempre admirei aquelas mulheres
que com recurso a uma simples tesoura
fazem, das fitas, ornamentos
das fugalaças
paramentos

quarta-feira, setembro 29, 2010

Galeria 51



Emily Dickinson

Fragmentário de Miss Dickinson

"I dwell in Possibility -
A fairer House than Prose -

More numerous of Windows -

Superior - for Doors -"


"I lost a World - the other day!

Has Anybody found?

You'll know it by the Row of Stars

Around its forehead bound."


"It was given to me by the Gods -

When I was a little Girl -
They give us Presents most - you know -

When you are new - and small."



"Parting is all we know of heaven,
And all we need of hell."


"Success is counted sweetest
By those who ne'er succeeded.

To comprehend a nectar

Requires sorest need."


"That Love is all there is,

Is all we know of Love;"


"The Grass so little has to do -

A Sphere of simple Green -
With only Butterflies to brood

And Bees to entertain -"



"The Soul selects her own Society -

Then - shuts the Door -

To her divine Majority -

Present no more -"



"Why - do they shut Me out of Heaven?

Did I sing - too loud?"

segunda-feira, setembro 27, 2010

Dickinson, um pouco mais complexa

Emily Dickinson não encontrou, neste mundo, uma satisfação capaz de se comparar à intuição que a Natureza dá de um Paraíso. No entanto, não era uma mulher de fé. Não posso jurar pelo seu ateísmo ou por um eventual agnosticismo, mas tenho pelo menos a certeza de que uma firme crença religiosa não era compatível com o seu tipo de orgulho intelectual. O que fazer, então, com a convicção do absoluto, com esse presságio sensório de uma Inteireza que talvez não passe de mitologia colossal? Compreendo-a como ninguém.

A sua resposta biográfica a este problema (decidiu, a partir de certa idade, não mais abandonar a sua casa - literalmente!) não me parece isenta de alguma patologia psíquica. A sua poesia, contudo, quase não pactua com essas zonas de sombra. Ao contrário do que acontece com Rimbaud, para quem o inferno quase constante foi também uma estação por comparação com, não há imundície nem vagabundagem no lirismo da celibatária de Amherst. Apenas uma rebeldia de criança lúcida, uma imaginação espontânea e inesgotável, e um conhecimento ignorante da vida que nos abala até à mais desarmada sinceridade.



"This is my Letter to the World,
That never wrote to Me -
The simple News that Nature told -
With tender Majesty"

sábado, setembro 25, 2010

domingo, setembro 19, 2010

"Design for living" - imagem

O INACTUAL 51

"Design for living" - Ernst Lubitsch (1933)


Exactamente ao contrário de "Angel", este filme do expatriado alemão em Hollywood propõe um retrato de mulher a partir dos retratos que ela pretende traçar. A obra começa, aliás, com a tentativa de Gilda esboçar desenhos dos dois desconhecidos cuja vida ela em breve revolucionará. Ora, quem é na verdade retratado é a própria Gilda (uma divertidíssima Miriam Hopkins), já que os dois homens não passam de clichés. E é o retrato de uma mulher que pretende viver a sexualidade contra os pressupostos da moral convencional. Com uma leveza de puro júbilo.

Também como no anterior Lubitsch programado pelo Teatro do Campo Alegre, o que aqui se encena é a fantasia do ménage à trois. No entanto, o que releva em "Design for living" é a constatação de que não se pode mudar de contexto social mantendo o mesmo esquema de moralidade. Note-se que não digo "classe social", porque esta é apenas parte do contexto a que me refiro. A verdade é que também há uma alta sociedade debochada e uma miséria puritana. Mas o que Lubitsch sinaliza é que cada conjunto de valores está directamente dependente do ecossistema que o produziu, e por isso não pode ser levianamente transportado sem se diluir: logo que um dos homens tem sucesso, o trio deixa de ser possível.

O grande interdito do filme é, claro, o casamento. Naquela que será uma das mais brilhantes cenas da fita (que não deve pertencer ao texto dramático de Noel Coward que está na base do argumento, de tal modo ela é típica do realizador), vemos Gilda e o seu futuro marido entrarem numa montra e decidirem da compra de uma cama após terem medido a largura de cada um dos seus corpos. Haverá maior ausência de erotismo do que esta pantomima, e no entanto, não é ela que cria no espectador a convicção de que um matrimónio está na calha?

Lubitsch é um propagandista. Um propagandista da amoralidade no prazer ("Ninotchka" ridiculariza a União Soviética precisamente por causa do seu cinzentismo sensual). Recentemente vi o muito interessante filme "Go get some rosemary" dos irmãos Safdie, e nele, a ausência de comportamento burguês por parte do protagonista masculino era vista como um interdito à possibilidade de levar uma vida satisfatória. Tratava-se de um personagem encantador, é certo, mas com o qual era praticamente impossível conviver. O que teremos perdido desde o cinema anterior aos anos quarenta? O que terá mudado? Ter-nos-emos tornado todos conservadores, ou este mundo de democracia liberal nos mantém encerrados numa armadilha invisível? Enfim, no presente estamos condenados a ver "Design for living" como uma brincadeira leve, quando, na verdade, o filme contém uma proposta experimental, de verdadeiro design da vida.

Partilha 98

voz de bruno ganz



(e=76)

e então, deus teve de cobrir o mundo



mas como deus é um senhor
quis cobri-lo com método e elegância
e perguntou deus:
o mar, como hei-de cobri-lo................................
com hijab ou com niqab?................................
(e viu deus que a pergunta era boa
e que era bom dizer aquelas palavras)
é o mar só cabelo e pescoço................................
ou rosto inteiro à excepção do olhar?................................

e como há-de deus cobrir a imagem
de mademoiselle caroline rivière
a olhar para nós há mais de dois séculos
desde as galerias do musée du louvre?
(assunto bem sério, este)
talvez um chador de ar puro e fresco
para adiar a burqa durante um ano mais...

[e hei-de eu deixar que me cubram a alma
como se ela fosse carne para canção?
ou tenho o rasgo de um anti-christo
e dou à luz a revelação?]


quarta-feira, setembro 15, 2010

I had not thought song had undone so many

Espero conseguir escrever este post sem cair na misantropia do Vasco Pulido Valente ou no puritanismo do Diácono Remédios. Não o garanto.

Quando a cabeça me pede um descanso radical numas termas de vazio, vejo televisão. E como nada do que é televisivo é estranho ao humano, também já passei os olhos pelo fenómeno "Ídolos".

A primeira impressão que me sobressalta é a de haver tanta, mas tanta gente, cujo sonho é o estrelato pop. Se eu já acho que há demasiadas baratas a andarem de volta da tontice da poesia, actividade com tão fraco prestígio, estas inesgotáveis multidões de arrivistas da voz criam em mim a convicção de que o tão celebrado acto de sonhar está sujeito às mesmas enfermidades que as suas muito menos consensuais realizações.

Depois há toda aquela aura de autoridade que nimba as mediáticas cabeças dos quatro cavaleiros da selecção. Não faço a menor ideia se eles têm autoridade ou não (até porque nada sei sobre música pop, e por isso não me posso arrogar o papel de crítico da crítica). Dizem-me que Laurent Philippe é um excelente músico, e eu acredito. Agora o que eu sei é que, mais do que representarem uma autoridade à qual as pessoas parecem sentir prazer em se submeter, o que eles representam é o mito da autoridade, em versão televisiva (e como eu gostava de ter o talento de Roland Barthes para dizer isto de maneira mais sisuda).

Não me incomoda em demasia que a maioria das pessoas não conviva com poesia-de-tesão, já passei a fase do proselitismo. Mas tenho algumas inquietações a morderem-me a cabeça. Será que aquelas hordas de adolescentes cheios de vida e encanto pactuam conscientemente com o engano instituído? Ou é mesmo gente enganada? Não saberão eles que, independentemente da voz, do palmo de rosto, dos ensinamentos de qualidade que lhes sejam doados, que independentemente até da inteligência e cultura que julguem possuir, se a vida não fizer deles cantores (e é meter bastante corno, cotovelo e demais severidades na palavra vida), eles não o serão?

quinta-feira, setembro 09, 2010

Alguém traduziu um texto meu

montaña


cohete desactivado
por ser demasiado antiguo
pero se mantiene apuntando
al cielo
como un castigo

***

la montaña
es de tal modo celeste
avant la lettre
que antes mismo de perder
la gravedad de la nieve
ya de sus hangares
se desprenden imágenes:
paisages
lunares


***


si la montaña
no va al sol
se desliza el sol en la montaña
con una auténtica profecia:
Es finita la fuga
de luz


(Tradução de Joan Navarro de um poema do livro sonetos para-infantis)


O original e uma tradução para catalão podem ser lidos aqui.

"Angel" - imagem

O INACTUAL 50

"Angel" - Ernst Lubitsch (1937)



Nada será tão prejudicial a um realizador de cinema como a sua capacidade para filmar tudo, ou seja, para funcionar como um excelente profissional. O que normalmente faz a diferença numa obra é precisamente aquela sua porção que o autor, por não a conseguir dominar, contorna através de uma afirmação excessiva das suas verdadeiras competências. Claro que essa incompetência parcial é sempre fruto de uma opção, ainda que se trate de uma opção apenas semi-consciente e usualmente descoberta de forma bastante gradual. É uma vaidade que, de resto, o falsário desconhece.

Ao longo da evolução da sua carreira, Ernst Lubitsch foi-se tornando mestre da incapacidade para mostrar. Tudo o que em "Angel" é putativa exibição de sinceridade redunda em diálogos de um sentimentalismo assaz medíocre. Em compensação, quando o realizador mostra os bastidores, os reflexos, os ecos ou os contracampos da acção principal, o seu cinema atinge um grande nível de intocada originalidade.

Quero crer que o "Lubitsch's touch" não se refere tanto à sofisticação geralmente atribuída ao cineasta (equívoco que se deve ao seu virtuosismo na encenação das classes sociais mais altas), mas a este sistema plenamente dominado de apenas filmar a tangente de um filme, mais do que o filme em si. De qualquer modo, a referência à alta sociedade é essencial para entender estes personagens que só se conseguem exprimir realmente através de um sistema de códigos tão ritualizados quanto resistentes ao confronto efectivo.

Em "Angel", a estratégia está ao serviço de uma leitura de Marlene Dietrich. A obra prolonga a imagem que Josef von Sternberg havia criado no seu ciclo com esta vedeta, que é a imagem da mulher dupla, ou mesmo dúplice, a mulher que destrói a rigidez das evidências morais entre as quais balança. Faz parte da cultura do homem religioso e/ou burguês a profunda falta de imaginação e de liberdade para lidar com uma tensão eterna: a necessidade de construir uma relação sentimental estável e a violência da fidelidade sexual. O binómio puta/virgem terá sido a resposta mais imbecil que foi encontrada. No seu glorioso último filme, "Cet obscur objet du désir", Luis Buñuel ironiza este preconceito ao ponto de fazer a sua personagem feminina ser representada por duas actrizes diferentes. Ora, "Cet obscur objet du désir" é uma releitura do mesmo romance que inspirou "The devil is a woman", de von Sternberg, com a Dietrich.

Muito antes da ousadia do surrealista espanhol, Lubitsch assume não filmar a mulher (Marlene é apenas um ícone de cinema) e cinde a projecção da sua moralidade nos dois personagens masculinos que a olham. Um dos homens entende a mulher em questão como sendo uma esposa sem contencioso, o outro vê-a como um anjo de perfeição. Na verdade, trata-se de uma mulher negligenciada pelo marido que recorre a bordéis chiques para tentar compensar a frustração. Estão ambos errados, e o erro em que ela tem de viver tem a autoria plena dos homens que a inventam contra a sua própria vontade.

Há um momento no filme em que a personagem de Marlene pede ao seu marido para ele não querer saber a verdade toda sobre o enredo em que ambos se ensarilharam, de modo a poderem continuar a viver a mentira do casamento. Mas não é bem isso que Lubitsch pretende. Ele quer fazer-nos aceitar uma saudável amoralidade, para que o casamento não seja uma mentira mas sim uma tolerância sem ilusão. No último plano do filme, Marlene avança para junto do marido, sem ouvirmos o som da a porta que ela teve de abrir e fechar, e sem ouvirmos os seus passos. Ela tornou-se, de facto, um anjo, porque os anjos têm sexo para o amor.