quarta-feira, dezembro 02, 2009

Uma leitura de "Metamorfoses" de Ovídio

Não se conhece a razão pela qual Octávio Augusto enviou Ovídio para o seu famoso exílio. A cena parece ainda mais bizarra quando, no fim de "Metamorfoses", lemos a bajulação descarada que o poeta faz ao seu imperador. No entanto, a verdade é que esse livro tem a ambição de narrar simbolicamente a intuição do devir (a impermanência de todas as formas), e o seu autor vê-se obrigado a sugerir um desajeitadíssimo "fim da História" (com os deuses a perderem o poder de provocar novas metamorfoses), para caucionar a ideia de uma Roma eterna. Já vimos semelhante argumentação a propósito de um império mais próximo no tempo... Ora, se Augusto destruiu Ovídio por se aperceber da incongruência perigosa, mas eloquente, que coroa o fim de "Metamorfoses", então tenho de reconhecer que era, de facto, um soberano esclarecido.

Mas o capítulo final dessa obra célebre contempla também a metamorfose do narrador na figura do sábio Pitágoras. Talvez aqui Ovídio seja mais sincero, ao defender a teoria da imutabilidade da alma em contraste com a evolução constante que todos os corpos sofrem (nada se perde, tudo se transforma). Haverá um fundo metafísico a animar a colectânea de mitos. Nada disso, contudo, é propriamente novo...

Do ponto de vista da justificação do clássico, é que claro que "Metamorfoses" contém em si preocupações transversais a toda a História humana: o medo do aniquilamento da espécie, a submissão da mulher, o racismo (explica-se o surgimento dos negros com base num erro do percurso do sol...), o adultério, o parricídio, o incesto, a homossexualidade, a condenação social baseada no preconceito e não na culpa, a prostituição, a fome, a incapacidade de concepção por parte do homem, etc. Aliás, o livro sugere conteúdos que só hoje fazem parte de um quotidiano verosímil: defendo que estes mitos inconscientemente prevêem a noção científica de que a sexualidade é acima de tudo psíquica, o vegetarismo, a possibilidade cirúrgica da mudança de sexo, a inevitabilidade de uma globalização.

Mais interessante ainda é o profundo conhecimento do humano que a narração das histórias encantadas dá a ver. Para quem esteja à espera de falta de sofisticação, "Metamorfoses" responde com a consciência de que a morte é o único produtor de igualdade que existe, com a constatação de que essa mesma morte pode não conseguir acabar com a ameaça que um indivíduo constitui, com a fatalidade do fascínio humano pelo céu, com o desejo latente que os amantes têm de uma morte simultânea, com a imperfeição da prece (os homens não sabem o que é o melhor para eles), com a autoridade da sedução física. A cultura mítica permitia que os homens soubessem sem saberem que sabiam.

O próprio conceito de metamorfose revela em si todo um conjunto de inquietações caras à nossa espécie (e é a este propósito que o autor me parece mais moderno e notável). Pois se é certo que a operação de mudança formal equivale sempre a um exílio de si mesmo, ela é também uma espécie de prova da ressurreição (os seres nunca morrem propriamente, mas transformam-se noutros seres). Ao mesmo tempo, Ovídio parece querer protestar, através da sua cultura simbólica, contra a fatalidade das leis físicas que nos foram dadas: por exemplo, por que não podemos nós voar? Por que não podemos ser, nós mesmos, divinos? Aqui começamos a entrar no lirismo singular deste livro: todos os seres que a epopeia celebra são o resultado da metamorfose de um profundo sofrimento. É como se a dor fosse o constante subtexto da beleza, e a mera cor de uma amora vermelha não pudesse ser por nós intelectualmente fruída sem a latência de um sentido trágico. O sofrimento, isso sim, é divino. E transforma. E todos seres são uma metáfora da nossa humanidade.

Sim, "Metamorfoses", ao funcionar como um projecto de falsa literalidade (as pedras de Deucalião e Pirra transformam-se mesmo em seres humanos), acaba por ser um livro essencial para entendermos o fenómeno semântico da metáfora. O livro ensina-nos que a metáfora é a encenação do número dois (a primeira metamorfose é a criação de elementos distintos a partir de uma massa informe original), ensina-nos que o que justifica esse tropo não é propriamente a noção de semelhança entre dois conceitos mas a continuidade de conteúdo entre eles (a raça humana é dura na continuidade da dureza das pedras), revela-nos a dimensão intuitiva desse procedimento criativo (o julgamento metafórico nunca se engana), e coloca-o no centro desse império último que nos resta, o único que é válido aliás, o império do verbo Ser.

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