sábado, dezembro 19, 2009

Nota "Les parapluies de Cherbourg"

Revi "Les parapluies de Cherbourg", que terá sempre um lugar na história do cinema na medida em que é o seu primeiro filme integralmente cantado. Curiosa- mente, a música parece-me um pouco enjoativa. Mas a verdade é que a abstracção causada pelo cantar constante (e pelo cromatismo irrealista) cria as condições ideais para que o sentimentalismo da narrativa resista incólume à passagem do tempo.

Não me parece que a obra só possa ser lida enquanto elegia do principal mito da "Odisseia": Catherine Deneuve seria uma espécie de Penélope incapaz de esperar pelo seu guerreiro. Pois se há filme com grandes esperas é este: o pretendente da jovem grávida de outrem espera meses pela sua decisão (como se fosse ele que estivesse numa situação socialmente periclitante), a discreta Madeleine mantém-se celibatária até que regresse o homem que nunca a amou, a tia deste espera que ele chegue para poder morrer.

É como se Demy nos quisesse dizer que é preciso ser um secundário para aguentar uma ausência afectiva. Se a personagem de Deneuve não tivesse na cabeça a ideia tonta de que se pode morrer de amor, talvez tivesse aguentado a solidão com muito mais músculo. Shakespeare reinventou o mito. Mas foi Camilo quem teve a intuição da personagem Mariana.