sábado, dezembro 19, 2009

Give away the ending

Comecei, há já alguns anos, a escrever pequenos ensaios avulsos sobre poesia. Com o passar do tempo, os ensaios começaram a pedir uma articulação recíproca (a armarem-se em livro, portanto). Penso que precisarei de bastante tempo ainda para concluir a obra que configurará uma espécie de teoria poética pessoal. O imenso tempo decorrido não terá correspondência no número de páginas: como sempre acontece comigo, o livro (intitulado "Orfeu de corpo inteiro") ostentará uma dimensão modesta.

Os ensaios já escritos são: uma leitura improvável do "Dom Quixote", uma teoria da enumeração a partir de poemas de Yeats e Christina Rossetti, uma leitura de "L'invitation au voyage" de Baudelaire, uma teorização do sublime em oposição à sua formulação romântica, uma análise de um poema de Alberto Caeiro, uma análise de um poema de João Cabral de Melo Neto.

Recentemente apercebi-me de que a teorização está a caminhar a passos largos para uma ideia aglutinadora, que eu resumiria na fórmula: o princípio de desvalorização da transcendência. Basicamente é isto: se nada podemos conhecer da única e verdadeira Transcendência que é o (não)mundo após a morte, é preciso que todas as manifestações de transcendência que perturbam este mundo sejam reconduzidas até à evidência POÉTICA da sua cognoscibilidade. Dito de outro modo, se aquilo a que se chama realidade é transcendente ao domínio da linguagem, a poesia é o domínio dessa mesma linguagem que oferece a certeza intuitiva de que ela pode tocar a realidade. O poeta olha para trás, para o real, e este não desaparece.

Os três ensaios que precisam de ser escritos (sobre a metáfora, a musicalidade da poesia, e a poética de Rimbaud) serão agora conscientemente organizados de modo a caminharem nesta direcção.

Sem comentários: