terça-feira, dezembro 15, 2009

Confissão 27




Recentemente, tenho tido alguns escrúpulos em considerar-me pura e simplesmente ateu. Prefiro a palavra agnóstico, pela sua maior humildade, pelo seu menor grau de risco. Continuo (e espero continuar até ao Fim) a não acreditar em nenhuma possibilidade de comunicação efectiva com a transcendência (tenho fé na ciência). Muito menos aceito a possibilidade de livros divinos, homens iluminados, dogmas institucionais ou moralismos sem fundamento racional. Baseio o meu agnosticismo, então, nos seguintes três critérios:

1. Acho estranho que o conceito de sentido tenha um alcance tão modesto. Se, por exemplo, eu inquirir qual o sentido da existência do meu pâncreas, eu consigo facilmente encontrar uma resposta satisfatória, talvez mesmo uma resposta cabal. O mesmo vale para a seiva da árvore, para a bolsa do canguru, para a régua e o esquadro, para a porta e a janela, para a legislação do trabalho, para o avião. No entanto, quanto mais me distancio do âmbito restrito de uma funcionalidade clara, menos consigo definir o sentido dos seres inquiridos. Posso saber qual o sentido do pâncreas, mas dificilmente atingirei igual sapiência em relação à necessidade de comer (pois posso sempre perguntar por que razão é que a vida tem de ser assegurada através da ingestão de alimentos). Daí até perguntar qual o sentido da vida, é um saltinho. Ora, ninguém, ninguém mesmo, sabe responder a isto.

Podemos dizer que a vida tem um sentido hedonista (dançar, foder), e/ou ético (política, generosidade). Mas isso são apenas métodos de vida, possibilidades de viver o melhor possível, não respondem realmente à inquietação profunda a que a palavra sentido convoca. Também podemos desistir, e dizer que o sentido da vida é viver. Mas isso é recusar a dimensão de espanto que está na base de toda a cultura humana (e muito especificamente da metafísica). Daí até ao cinismo, é um saltinho.

Resposta, não há. Mas há pelo menos a palavra sentido, a que os homens antigos deram uso ingénuo e que nós agora recebemos como um apêndice aparentemente inútil mas que, mesmo em caso de dor aguda, não podemos de nós mesmos extrair. É tão estranho saber qual o sentido do intestino, mas não saber o sentido de algo ligeiramente menos merdoso... Qual o sentido da palavra sentido? Se as palavras são erros, imprecisões, por que têm algumas uma inteligência tão exuberante? Mais vale reduzir-me à minha ignorância.


2. Também me parece estranho que toda a minha riqueza psicológica esteja destinada a uma aniquilação prosaica (eu gosto muito do corpo, claro, mas isso deve-se essencialmente à minha mente; a comida e o sexo são bons; mas se é o corpo que os sente, a verdadeira satisfação é sempre psicológica).

Este argumento não tem a menor chance perante o rigor técnico do mestre em filosofia. Mesmo assim, eu acho muito, muito estranho que a pungência, a profundidade, a verdade dos meus sentimentos de amor, esperança, desejo, medo, dos meus sonhos, da minha imaginação, da minha sede de conhecimento, que toda essa riqueza a que nenhum capitalismo tem acesso, seja uma manifestação fisiológica equivalente à produção de glóbulos brancos ou à fotossíntese. Eu diria mesmo que este é um argumento lírico. Dizem-me que a alma é apenas uma variação sofisticada da materialidade do mundo... Está bem, está: digam isso à minha psicologia quando eu me apaixonei pela primeira vez, quando eu contemplo o fracasso da minha vida, quando um dia eu estiver perante o corpo morto da minha mãe.

Resposta, não há. Mas há pelo menos esta desconfiança de que algo na minha humanidade parece ter ultrapassado a mera competência neuronal. Mais vale reduzir-me à minha ignorância.


3. E, na continuidade deste argumento, o que fazer da alegria? Se não formos abusados e violentados na mais tenra infância, a verdade é que os primeiros anos da nossa vida são tutelados pela evidência da alegria. Aliás, a comida e o sexo (que há-de chegar mais tarde) são meros avatares dessa evidência. Ao contrário, toda a nossa vida adulta é construída como uma reacção ao facto da busca da plenitude ser sempre traída pela realidade. O mais amargo, pessimista e cínico dos homens talvez seja aquele que viveu mais intensamente (e menos pragmaticamente) essa promessa da alegria. Espinosa, príncipe dos filósofos, construiu a sua ética a partir de uma ideia semelhante. Freud terá andado pelas mesmas bandas (e os surrealistas, claro).

A vida é, de facto, decepção. Mas por que continuamos a viver em função da alegria? Pois é em função de uma alegria em sentido lato que vivem o cliente da prostituição, o consumista, o depressivo, o viajante, o ambicioso, o filantropo, o grevista de fome. Mera evolução do impulso de conservação vital? Talvez, mas era preciso o mundo exagerar?: a música de Bach, o dente-de-leão, o chocolate, Alice in Wonderland, as cidades de Calvino, a Utopia, o corpo de Jesus Luz... Uma tão profunda consciência da alegria parece excessiva para caber na modéstia de todas as leis (físicas, sociais) que nos limitam.

Resposta, não há. E se o suposto Deus (personagem de mau romancista, de resto) quisesse que eu soubesse alguma coisa, teria sido claro nessa didáctica. Assim não sendo, nada quero saber sobre um eventual universo que transcenda este em que agora me encontro. Não o confirmo, mas também não o desminto. Mais vale reduzir-me à minha ignorância.

Sem comentários: