quarta-feira, dezembro 30, 2009

Partilha 69

listen very carefully
i shall say this only once




follow that car
e não sei dizer mais nada
na vossa língua

....................................

presumo que me vão falar da vida
como se ela fosse
uma anedota sobre bêbados
mas eu já soube tantas tantas coisas

até já soube o que era a matéria clara
e fui eu que lancei a teoria
de que nenhum clima aguentaria
uma subida de mais de dois graus

descobri que, para a lua, as marés
são algo menos que escalas tonais
e aprendi a distinguir os homens
entre venenosos
comestíveis
ou medicinais

chamava à andorinha jocasta
não fosse o frio tornar-se enigmático
era doutor na arte de escandir
hoje sirvo pinga amoris causa

e é quando a matrícula da pedra
se torna finalmente discernível
(porque a morte se aliou ao inimigo)
que eu percebo que só eu remo
na direcção que está correcta

Cadernos Péretianos 1

"Souvent, mes amis s'amusaient à lui citer un passage ou deux tirés de ses recueils et qu'il n'identifiait jamais, appréciant vaguement d'un sourire perplexe, cherchant à deviner l'auteur, comme si le courant le mettait en présence d'un bois flotté venu des antipodes."

Robert Benayoun

Cadernos Llansolianos 1

"- É triste [luminoso] precisar de dinheiro para vibrar. Mas tu vibras com o menor impulso de dinheiro possível. O que é ainda mais luminoso."

("Femme en robe bleu" de Balthus para) Maria Gabriela Llansol

Fala do suicida

Quero ser encontrado, morto ou vivo.

domingo, dezembro 27, 2009

Saltando por cima

O que se opõe ao individualismo não é o colectivismo, mas sim o indivíduo.

sábado, dezembro 26, 2009

Cravos-ferraduras (mais alguns)

1. Nas últimas páginas de "O homem livre" (ver este post), Filipe Verde fornece ao seu leitor a seguinte citação: "Devemos portanto estudar a excelência do carácter, tentar descobrir o que o constitui e como é que ele se forma e evitar enredar-nos em discussões sobre epistemologia moral ou de fundamentação da ética" - Gisela Striker.

Para todo o moralista céptico da moral, estas palavras são preciosas. Aliás, estou cada vez mais convicto de que os grandes pensadores éticos são os romancistas, e não os filósofos. Precisamente porque não escondem o relativismo do seu ponto de vista, porque analisam a irredutibilidade de cada carácter e a tirania das circunstâncias em que ele tem de evoluir (Herberto Helder afirma não se interessar pela prosa de ficção por causa da pretensão moral que os seus cultores ostentam; contudo, dada a irrisória quantidade de romancistas que o grande poeta madeirense tolera, eu acho que será mais justo dizer que, sendo a ética um assunto privilegiado do romance, a maior parte dos exemplares relevantes dessa arte não são propriamente moralistas).

Não me incluo no grupo acima mencionado: para além de ter mais curiosidade pelos dilemas éticos do que expectativas punitivas sobre as actuações concretas, eu sou tão céptico da moral como céptico do cepticismo. Considero, claro, que a dúvida é um dos fundamentos nobres daquilo a que chamamos humanidade. Já Descartes demonstrou que nada consegue ser mais ético do que o questionamento da autoridade do edifício cultural que cada indivíduo herda. Em qualquer altura da história da civilização, podemos assumir o exaltante direito-dever de tudo pôr em causa. É a pergunta eleita da criança: porquê?

Ora, essa prerrogativa traz consigo uma fatalidade: para não cedermos por completo à pulsão de morte, é preciso que o momento da dúvida seja sempre seguido de um passo de construção. É preciso fundamentarmos, para nós mesmos, a possibilidade de um caminho. E essa fundamentação acaba por ser, em grande parte, racional.

Eu também desconfio profundamente da atitude de Platão. Os disparates de Descartes são assinaláveis. Kant foi tão brilhante que acabou por ocupar demasiado espaço na cultura ocidental. No entanto, continuo a achar que a formulação do conceito de imperatico categórico é colossal. Se podemos defender que uma cultura da vergonha, como a dos índios Bororo, é uma cultura ética (na medida em que, nas próprias palavras de Filipe Verde, o outro que impede o acto pernicioso para a comunidade é um outro imaginário, interno portanto, e imaginado enquanto entidade especificamente moral), não sei se podemos defender que os indíviduos que a assumiam eram homens completamente livres. Eram livres na medida em que viviam de acordo com os "direitos da natureza" (aí estou completamente de acordo), mas já não o eram se tivermos em conta que a sua cultura, para ser eficaz, nunca era propriamente questionada.

Basicamente, o que estou a tentar dizer é que a razão pode ser (ou deve ser) um dos instrumentos privilegiados da construção da liberdade, e não há liberdade enquanto não questionarmos mesmo aquilo que é, supostamente, bom. Não é por acaso que Espinosa construiu a sua "Ética" segundo o modelo da geometria, que Freud construiu as suas teorias a partir de uma (hoje questionável) pretensão científica, e que o próprio Filipe Verde se pode assumir herdeiro desses moralistas cépticos da moral na sua especulação de base antropológica. Se nem todos os meios justificam os fins, é porque o meio de chegar ao fim não pode ter menos valor do que este tem. Se é pela razão que conseguimos admirar a ética do mundo Bororo, é porque a razão terá os seus méritos.



2. A razão é um instrumento. Mas não é o único, e não é necessariamente o principal.

Conforme vou lendo o que Paul Ricoeur escreveu sobre a metáfora, vou-me apercebendo do seu desprezo pela capacidade que essa figura de estilo tem de fascinar o receptor de uma mensagem verbal. Critica-se a metaforização quando ela é um mero ornamento. Claro que tudo aquilo que for gratuito na construção de um texto, tudo aquilo que nele não tiver uma pertinência, acaba sempre por enfraquecer a sua possibilidade de comunicação. Ovídio, por exemplo, foi useiro e vezeiro na criação de metáforas para romano ver (aliás, Ricoeur reconhece que a teorização retórica dos latinos foi medíocre, e que constituiu logo um passo atrás em relação aos escritos de Aristóteles).

No entanto, é bem curioso este ódio contemporâneo ao ornamento. Voltando aos índios Bororo, saúdo o seu respeito religioso pela ornamentação (a começar pela ornamentação do próprio corpo humano). Mas não é preciso ir para tão longe, basta reconhecer a sua importância na configuração de uma liberdade improvisadora (de composição em tempo real, portanto) ao intérprete de música barroca (algo que em grande parte se perdeu a partir do classicismo com resultados empobrecedores para a cultura musical).

Mas estou a incorrer no preconceito de Ricoeur, estou a tentar dar uma legitimidade racional àquilo que não tem, nem precisa de ter, uma pertinência racional. Pois há outros tipos de pertinência. A começar pela pertinência sexual.

Se hoje vivemos num mundo onde a sexualidade strictu sensu veio cobrar os seus merecidíssimos direitos, a criação artística perdeu alguma da sumptuosidade que a esse nível sempre a marcara. O triunfo do conceptualismo é um sinal (note-se que não estou a defender o conceito de beleza de uma época em particular, estou a lamentar a relativa indiferença de algum pensamento estético em relação à comunicabilidade das formas). Sinal também é a cisão que alimenta a história do cinema: assistimos ao triunfo do chamado cinema de entretenimento (que tem uma clara dimensão sexual, disso sou solidário, mas que depende por completo de um sistema de calculismo financeiro, e por isso configura um caso evidente de prática de prostituição) perante aquilo que seria um cinema de conteúdo (cuja dimensão sexual ou é minimizada pelos autores com vontade de respeitabilidade, ou é trabalhada com tanto amor que não pode por definição convencer a totalidade de uma audiência, o que é mal visto pela racionalização económica).

Já alguém fez o estudo sociológico do público que se arrasta com apatia ou ironia pelo sucesso de Serralves?

Podemos deixar de lado palavras como ornamento, beleza ou até mesmo fascínio (cuja ligação a determinadas ideologias estéticas é susceptível de provocar equívocos). Mas se, no âmbito da criação artística, acolhêssemos sem complexos os "direitos da natureza", talvez nenhuma das "perversões" acima descritas pudessem vingar.

Há monstros do sono da razão, mas igualmente há monstros da razão. Talvez o poeta deva ser também pensador, e o pensador deva ser também poeta.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Nota de leitura

No fundo de toda a investigação que o anima, o excelente ensaio "O homem livre" de Filipe Verde (Angelus Novus, 2008) interroga a possibilidade da mera consciência intuitiva da morte poder servir como fundamento de uma inteligência moral.

A cosmologia dos índios Bororo (do Mato Grosso, Brasil) previa a existência de dois mundos transcendentes a este em que nos encontramos: o mundo dos aroe (livre da metamorfose libidinosa da vida) e o mundo dos bope (todo ele anarquia vital, mas livre do corolário da vitalidade, que é a morte). A especificidade do homem vivente não seria, portanto, a anarquia da sua dimensão natural (como acontece na mundividência cristã), mas o facto desse seu eros estar fatalmente associado ao desgaste, à extinção. E bastaria isso para que o índio adulto aceitasse refrear voluntariamente o seu desejo, sem necessidade de conhecer o conceito de culpa (que é tão opressivo que nem requer a concretização de um ilícito para se fazer sentir) e sem necessidade de qualquer punição socialmente organizada. Por exemplo, bastavam as evidências patológicas resultantes da reprodução consanguínea, para que o incesto fosse raro na sociedade Bororo.

Filipe Verde diz-nos que todos os observadores desse mundo supostamente primitivo foram unânimes em reconhecer a sua imensa paz social e a grande liberdade de cada indivíduo no seio dessa harmonia. Era quase um manifestação da Utopia. Mas diz-nos também que o drama da antropologia é que as sociedades que definiram o seu objecto estavam a desaparecer precisamente no momento da sua constituição enquanto ciência. Ou seja, apesar do rigor de todos os relatos (dos salesianos a Lévy-Strauss) a partir dos quais o autor especula, a verdade é que a sua hipótese não pode ser verificada vivencialmente. E nenhuma ética pode ser sentida como ética sem ser vivenciada (aliás, o ensaista é o primeiro a reconhecer a preponderância humanista do seu assunto, sobre qualquer veleidade de positivismo).

A este livro podemos então atribuir o encanto de serem mais os horizontes que abre do que aqueles que fecha. É como quando conhecemos uma pessoa de meia idade que nos dizem ter sido muito bela numa juventude que não pudemos presenciar: que valor atribuir às fotografias que registaram esse passado?

sábado, dezembro 19, 2009

Convite

Filo-Café : Descoberta/Invenção
16 Janeiro 2010, 21h30m
Taberninha do Manel
Av. Diogo Leite, 308
(Ribeira de Gaia)
Vila Nova de Gaia

Apresentação do livro Sonetos Para-Infantis de Pedro Ludgero

Estão abertas as inscrições para este filo-café. As inscrições, gratuitas, devem ser formalizadas enviando um email para arditura@gmail.com indicando nome, proveniência e área de intervenção.

Nota "Les parapluies de Cherbourg"

Revi "Les parapluies de Cherbourg", que terá sempre um lugar na história do cinema na medida em que é o seu primeiro filme integralmente cantado. Curiosa- mente, a música parece-me um pouco enjoativa. Mas a verdade é que a abstracção causada pelo cantar constante (e pelo cromatismo irrealista) cria as condições ideais para que o sentimentalismo da narrativa resista incólume à passagem do tempo.

Não me parece que a obra só possa ser lida enquanto elegia do principal mito da "Odisseia": Catherine Deneuve seria uma espécie de Penélope incapaz de esperar pelo seu guerreiro. Pois se há filme com grandes esperas é este: o pretendente da jovem grávida de outrem espera meses pela sua decisão (como se fosse ele que estivesse numa situação socialmente periclitante), a discreta Madeleine mantém-se celibatária até que regresse o homem que nunca a amou, a tia deste espera que ele chegue para poder morrer.

É como se Demy nos quisesse dizer que é preciso ser um secundário para aguentar uma ausência afectiva. Se a personagem de Deneuve não tivesse na cabeça a ideia tonta de que se pode morrer de amor, talvez tivesse aguentado a solidão com muito mais músculo. Shakespeare reinventou o mito. Mas foi Camilo quem teve a intuição da personagem Mariana.

Give away the ending

Comecei, há já alguns anos, a escrever pequenos ensaios avulsos sobre poesia. Com o passar do tempo, os ensaios começaram a pedir uma articulação recíproca (a armarem-se em livro, portanto). Penso que precisarei de bastante tempo ainda para concluir a obra que configurará uma espécie de teoria poética pessoal. O imenso tempo decorrido não terá correspondência no número de páginas: como sempre acontece comigo, o livro (intitulado "Orfeu de corpo inteiro") ostentará uma dimensão modesta.

Os ensaios já escritos são: uma leitura improvável do "Dom Quixote", uma teoria da enumeração a partir de poemas de Yeats e Christina Rossetti, uma leitura de "L'invitation au voyage" de Baudelaire, uma teorização do sublime em oposição à sua formulação romântica, uma análise de um poema de Alberto Caeiro, uma análise de um poema de João Cabral de Melo Neto.

Recentemente apercebi-me de que a teorização está a caminhar a passos largos para uma ideia aglutinadora, que eu resumiria na fórmula: o princípio de desvalorização da transcendência. Basicamente é isto: se nada podemos conhecer da única e verdadeira Transcendência que é o (não)mundo após a morte, é preciso que todas as manifestações de transcendência que perturbam este mundo sejam reconduzidas até à evidência POÉTICA da sua cognoscibilidade. Dito de outro modo, se aquilo a que se chama realidade é transcendente ao domínio da linguagem, a poesia é o domínio dessa mesma linguagem que oferece a certeza intuitiva de que ela pode tocar a realidade. O poeta olha para trás, para o real, e este não desaparece.

Os três ensaios que precisam de ser escritos (sobre a metáfora, a musicalidade da poesia, e a poética de Rimbaud) serão agora conscientemente organizados de modo a caminharem nesta direcção.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Confissão 27




Recentemente, tenho tido alguns escrúpulos em considerar-me pura e simplesmente ateu. Prefiro a palavra agnóstico, pela sua maior humildade, pelo seu menor grau de risco. Continuo (e espero continuar até ao Fim) a não acreditar em nenhuma possibilidade de comunicação efectiva com a transcendência (tenho fé na ciência). Muito menos aceito a possibilidade de livros divinos, homens iluminados, dogmas institucionais ou moralismos sem fundamento racional. Baseio o meu agnosticismo, então, nos seguintes três critérios:

1. Acho estranho que o conceito de sentido tenha um alcance tão modesto. Se, por exemplo, eu inquirir qual o sentido da existência do meu pâncreas, eu consigo facilmente encontrar uma resposta satisfatória, talvez mesmo uma resposta cabal. O mesmo vale para a seiva da árvore, para a bolsa do canguru, para a régua e o esquadro, para a porta e a janela, para a legislação do trabalho, para o avião. No entanto, quanto mais me distancio do âmbito restrito de uma funcionalidade clara, menos consigo definir o sentido dos seres inquiridos. Posso saber qual o sentido do pâncreas, mas dificilmente atingirei igual sapiência em relação à necessidade de comer (pois posso sempre perguntar por que razão é que a vida tem de ser assegurada através da ingestão de alimentos). Daí até perguntar qual o sentido da vida, é um saltinho. Ora, ninguém, ninguém mesmo, sabe responder a isto.

Podemos dizer que a vida tem um sentido hedonista (dançar, foder), e/ou ético (política, generosidade). Mas isso são apenas métodos de vida, possibilidades de viver o melhor possível, não respondem realmente à inquietação profunda a que a palavra sentido convoca. Também podemos desistir, e dizer que o sentido da vida é viver. Mas isso é recusar a dimensão de espanto que está na base de toda a cultura humana (e muito especificamente da metafísica). Daí até ao cinismo, é um saltinho.

Resposta, não há. Mas há pelo menos a palavra sentido, a que os homens antigos deram uso ingénuo e que nós agora recebemos como um apêndice aparentemente inútil mas que, mesmo em caso de dor aguda, não podemos de nós mesmos extrair. É tão estranho saber qual o sentido do intestino, mas não saber o sentido de algo ligeiramente menos merdoso... Qual o sentido da palavra sentido? Se as palavras são erros, imprecisões, por que têm algumas uma inteligência tão exuberante? Mais vale reduzir-me à minha ignorância.


2. Também me parece estranho que toda a minha riqueza psicológica esteja destinada a uma aniquilação prosaica (eu gosto muito do corpo, claro, mas isso deve-se essencialmente à minha mente; a comida e o sexo são bons; mas se é o corpo que os sente, a verdadeira satisfação é sempre psicológica).

Este argumento não tem a menor chance perante o rigor técnico do mestre em filosofia. Mesmo assim, eu acho muito, muito estranho que a pungência, a profundidade, a verdade dos meus sentimentos de amor, esperança, desejo, medo, dos meus sonhos, da minha imaginação, da minha sede de conhecimento, que toda essa riqueza a que nenhum capitalismo tem acesso, seja uma manifestação fisiológica equivalente à produção de glóbulos brancos ou à fotossíntese. Eu diria mesmo que este é um argumento lírico. Dizem-me que a alma é apenas uma variação sofisticada da materialidade do mundo... Está bem, está: digam isso à minha psicologia quando eu me apaixonei pela primeira vez, quando eu contemplo o fracasso da minha vida, quando um dia eu estiver perante o corpo morto da minha mãe.

Resposta, não há. Mas há pelo menos esta desconfiança de que algo na minha humanidade parece ter ultrapassado a mera competência neuronal. Mais vale reduzir-me à minha ignorância.


3. E, na continuidade deste argumento, o que fazer da alegria? Se não formos abusados e violentados na mais tenra infância, a verdade é que os primeiros anos da nossa vida são tutelados pela evidência da alegria. Aliás, a comida e o sexo (que há-de chegar mais tarde) são meros avatares dessa evidência. Ao contrário, toda a nossa vida adulta é construída como uma reacção ao facto da busca da plenitude ser sempre traída pela realidade. O mais amargo, pessimista e cínico dos homens talvez seja aquele que viveu mais intensamente (e menos pragmaticamente) essa promessa da alegria. Espinosa, príncipe dos filósofos, construiu a sua ética a partir de uma ideia semelhante. Freud terá andado pelas mesmas bandas (e os surrealistas, claro).

A vida é, de facto, decepção. Mas por que continuamos a viver em função da alegria? Pois é em função de uma alegria em sentido lato que vivem o cliente da prostituição, o consumista, o depressivo, o viajante, o ambicioso, o filantropo, o grevista de fome. Mera evolução do impulso de conservação vital? Talvez, mas era preciso o mundo exagerar?: a música de Bach, o dente-de-leão, o chocolate, Alice in Wonderland, as cidades de Calvino, a Utopia, o corpo de Jesus Luz... Uma tão profunda consciência da alegria parece excessiva para caber na modéstia de todas as leis (físicas, sociais) que nos limitam.

Resposta, não há. E se o suposto Deus (personagem de mau romancista, de resto) quisesse que eu soubesse alguma coisa, teria sido claro nessa didáctica. Assim não sendo, nada quero saber sobre um eventual universo que transcenda este em que agora me encontro. Não o confirmo, mas também não o desminto. Mais vale reduzir-me à minha ignorância.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

O jardim de Pã



Imagem de Edward Burne-Jones

Tradução 19

Poema "O palácio de Pã"
de Algernon Charles Swinburne,
traduzido por mim:





Setembro, glorioso com ouro, qual rei
.....No brilho do triunfo ataviado,
Mais claro que o estio, mais doce que Abril,
Os bosques incuba com asa infinita,
.....Presença querida do humano.

As terras pintadas p'lo sol posto e nado
.....Sob quente sorriso sorriem;
Mais nobre que um templo por mão levantado,
Coluna a coluna, o santuário se apruma
.....Das naves sem fim dos pinhais.

Um culto eloquente, sem prece ou louvor,
.....O espírito ocupa com paz,
Preenchida co'o sopro do fúlgido ar,
O odor, os silêncios, as sombras tão claras
.....Quais raios crescendo e cedendo.

Pilar's angulosos que coram longe e alto,
.....Com ramo nenhum para um ninho,
Sustêm o tecto sublime e cabal,
À prova do sol, do tufão, colossal,
.....Como águas paradas terrível.

Mão de homem jamais a sua altura mediu;
.....Razão também não, nem temor;
A trama do bosque em tal sombra é tecida;
O sol como um pássaro cai na armadilha,
.....E espalha, nevando, os seus flocos.

Plumagem só de ouro, tais flocos de sol
.....Repousam na terra aos montões,
Quais pétalas soltas de rosas sem c'roa
No chão da floresta sombrosa e dourada,
.....Corada tão perto e tão longe.

As mãos insondáveis de turvas idades
.....Ergueram o templo em retiro
P'ra deuses ignotos, e na ara queimaram
Os anos em pó, e as areias que o frasco
.....Do tempo esqueceu como indício.

Um templo que em milhas calcula os transeptos,
.....Que tem como padre a manhã,
Que livra o seu chão do pisar dos ineptos,
Sua música é a música só dos silêncios,
.....Bem mais que espectác'lo é a festança.

Sucedem-se as horas litúrgicas, nunca
.....O ofício nos vela ou revela,
Nas rampas das terras sem flor's nem verdura,
O encalço de um fauno, uma pista de ninfa
.....Até ao deus Pã em dormência.

O espírito, ateado p'lo pasmo e p'lo culto
.....Num êxtase sacro em braveza
Perante os tais rastos que fendem o rumo,
Só ele discerne se em torno dos quais
.....Existe uma prova do deus.

Com rubro temor mais profundo que o pânico
.....A mente rendida e inconcussa
Escuta a terrena e titã divindade
Nos passos sentidos em brechas vulcânicas
.....De abismos já sem o seu lume.

Por artes mais calmas que as negras magias
.....Da morte, da noite e de antanho,
Que o vil frenesi que assombrava o mei'-dia
Onde o Etna se forma dos membros gigantes
.....De deuses sem trono e sem vida,

Nossa alma fundida co' aquel' cujo sopro
.....Sublima o mei-dia do bosque
Suporta o fulgor da presença que fala
De coisas além, mais serenas que a morte,
.....De um Tempo que vence e que cala.



(o original pode ser lido aqui)

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Uma leitura de "Metamorfoses" de Ovídio

Não se conhece a razão pela qual Octávio Augusto enviou Ovídio para o seu famoso exílio. A cena parece ainda mais bizarra quando, no fim de "Metamorfoses", lemos a bajulação descarada que o poeta faz ao seu imperador. No entanto, a verdade é que esse livro tem a ambição de narrar simbolicamente a intuição do devir (a impermanência de todas as formas), e o seu autor vê-se obrigado a sugerir um desajeitadíssimo "fim da História" (com os deuses a perderem o poder de provocar novas metamorfoses), para caucionar a ideia de uma Roma eterna. Já vimos semelhante argumentação a propósito de um império mais próximo no tempo... Ora, se Augusto destruiu Ovídio por se aperceber da incongruência perigosa, mas eloquente, que coroa o fim de "Metamorfoses", então tenho de reconhecer que era, de facto, um soberano esclarecido.

Mas o capítulo final dessa obra célebre contempla também a metamorfose do narrador na figura do sábio Pitágoras. Talvez aqui Ovídio seja mais sincero, ao defender a teoria da imutabilidade da alma em contraste com a evolução constante que todos os corpos sofrem (nada se perde, tudo se transforma). Haverá um fundo metafísico a animar a colectânea de mitos. Nada disso, contudo, é propriamente novo...

Do ponto de vista da justificação do clássico, é que claro que "Metamorfoses" contém em si preocupações transversais a toda a História humana: o medo do aniquilamento da espécie, a submissão da mulher, o racismo (explica-se o surgimento dos negros com base num erro do percurso do sol...), o adultério, o parricídio, o incesto, a homossexualidade, a condenação social baseada no preconceito e não na culpa, a prostituição, a fome, a incapacidade de concepção por parte do homem, etc. Aliás, o livro sugere conteúdos que só hoje fazem parte de um quotidiano verosímil: defendo que estes mitos inconscientemente prevêem a noção científica de que a sexualidade é acima de tudo psíquica, o vegetarismo, a possibilidade cirúrgica da mudança de sexo, a inevitabilidade de uma globalização.

Mais interessante ainda é o profundo conhecimento do humano que a narração das histórias encantadas dá a ver. Para quem esteja à espera de falta de sofisticação, "Metamorfoses" responde com a consciência de que a morte é o único produtor de igualdade que existe, com a constatação de que essa mesma morte pode não conseguir acabar com a ameaça que um indivíduo constitui, com a fatalidade do fascínio humano pelo céu, com o desejo latente que os amantes têm de uma morte simultânea, com a imperfeição da prece (os homens não sabem o que é o melhor para eles), com a autoridade da sedução física. A cultura mítica permitia que os homens soubessem sem saberem que sabiam.

O próprio conceito de metamorfose revela em si todo um conjunto de inquietações caras à nossa espécie (e é a este propósito que o autor me parece mais moderno e notável). Pois se é certo que a operação de mudança formal equivale sempre a um exílio de si mesmo, ela é também uma espécie de prova da ressurreição (os seres nunca morrem propriamente, mas transformam-se noutros seres). Ao mesmo tempo, Ovídio parece querer protestar, através da sua cultura simbólica, contra a fatalidade das leis físicas que nos foram dadas: por exemplo, por que não podemos nós voar? Por que não podemos ser, nós mesmos, divinos? Aqui começamos a entrar no lirismo singular deste livro: todos os seres que a epopeia celebra são o resultado da metamorfose de um profundo sofrimento. É como se a dor fosse o constante subtexto da beleza, e a mera cor de uma amora vermelha não pudesse ser por nós intelectualmente fruída sem a latência de um sentido trágico. O sofrimento, isso sim, é divino. E transforma. E todos seres são uma metáfora da nossa humanidade.

Sim, "Metamorfoses", ao funcionar como um projecto de falsa literalidade (as pedras de Deucalião e Pirra transformam-se mesmo em seres humanos), acaba por ser um livro essencial para entendermos o fenómeno semântico da metáfora. O livro ensina-nos que a metáfora é a encenação do número dois (a primeira metamorfose é a criação de elementos distintos a partir de uma massa informe original), ensina-nos que o que justifica esse tropo não é propriamente a noção de semelhança entre dois conceitos mas a continuidade de conteúdo entre eles (a raça humana é dura na continuidade da dureza das pedras), revela-nos a dimensão intuitiva desse procedimento criativo (o julgamento metafórico nunca se engana), e coloca-o no centro desse império último que nos resta, o único que é válido aliás, o império do verbo Ser.