sexta-feira, novembro 20, 2009

O sétimo harmónico

Uma das propriedades físicas dos sons produzidos por um instrumento musical é o facto de cada uma das suas vibrações se multiplicar por um conjunto de frequências secundárias, fenómeno a que se dá o nome de "série de harmónicos". Quando alguém produz o som DÓ, ele vem acompanhado de ondas que o projectam num sem-fim de sons que são seus múltiplos quase inaudíveis, mas que na verdade têm um papel decisivo na definição acústica de todo o processo musical.

De certa maneira, a série de harmónicos explica a teoria e a prática da Harmonia desenvolvida no ocidente. Veja-se: o harmónico que se segue ao som fundamental DÓ é outro DÓ (reforçando assim o poder de uma nota protagonista na definição de uma tonalidade), seguido por um SOL (ocupando a posição da dominante que, como o nome indica, é a segunda nota mais importante a seguir à tónica), ao que se segue novo DÓ, depois um MI (a chamada mediante, essencial para a definição do modo), novo SOL, etc. Saindo do excesso de tecnicidade, pode dizer-se que a série de harmónicos revela uma rigorosa hierarquia sonora (quanto mais distante está o harmónico, menos relevante ele é) que o sistema harmónico tonal do ocidente de forma semi-consciente tomou como modelo da sua organização (sistema esse que ainda hoje é usado na música popular).

A harmonia tonal parece estar assim caucionada por uma evidência da Natureza. No entanto, há um pequeno detalhe: o sétimo harmónico (se atribuirmos o número um ao som fundamental da série) não equivale a nenhuma das doze notas que conhecemos no sistema temperado (que Bach tanto ajudou a definir). É uma sonoridade estranha à matemática da música que, na nossa cultura, ocupou uma posição hegemónica. Num piano, por exemplo, é impossível reproduzir essa nota através do mero uso das teclas.

Ora, esse harmónico não é menos natural que os restantes. Ele deriva exactamente do mesmo fenómeno acústico. O que a história da música fez foi ocultar a sua verdade, de modo a atingir um sistema matematicamente inconsútil, um sistema conveniente à racionalidade. Só as vanguardas a partir do fim do século XIX começaram a explorar outros mundos que o mundo da música havia deixado abandonados.

Eu diria, então, que um pensamento de direita (aceito uma designação mais elegante) é aquele que oculta e marginaliza a naturalidade inquestionável de tudo o que constitua um elemento minoritário. Por exemplo: a heterossexualidade apresenta-se como uma evidência maioritária (dada a sua faculdade de reprodução de vida), mas a homossexualidade, que também existe na natureza, é subtilmente considerada contra-natura (mesmo que isso não seja vociferado frontalmente por receio do politicamente correcto). Um bissexual com comportamento de direita é aquele que assume socialmente um casamento heterossexual e vive a sua outra orientação como um hobby secreto.

Continuando na senda dos exemplos, o pensamento de direita é aquele que produz leis que impedem as migrações no Mediterrâneo em direcção à Europa (gabando-se de assim salvar vidas), mas que assume total indiferença perante o desespero absoluto que provoca a pulsão migratória: o problema não é realmente equacionado, é jogado para debaixo do tapete. O pensamento de direita é aquele que celebra o triunfo do homem de mérito, mas nunca assume que os indivíduos estão condenados a pontos de partida completamente desiguais e que a corrupção é talvez o elemento essencial na ascensão social. É aquele que, por razões de segurança, encerra homens em prisões, mas que nada quer saber sobre a verdade trágica que leva um indivíduo até ao crime. E etc.

Em compensação, o pensamento de esquerda apressa-se geralmente a entrar em conceptualizações que pouco ou nenhum eco encontram na natureza (quanto mais não seja, na natureza humana). O problema da modernidade filosófica foi ter suposto que era possível elaborar sistemas revolucionários a despeito das características do Homem para o qual teriam sido construídos (note-se como o marxismo muitas vezes andou de mãos dadas com o puritanismo sexual). O erro de Schonberg não foi, portanto, a invenção de um sistema de composição em que as doze notas musicais não têm uma hierarquia a priori que as constranja (o dodecafonismo), mas o ter suposto que um sistema tão marginal poderia servir de base universal à música do futuro. Toda esta ciência das utopias levou a uma reacção histérica: o relativismo vazio (e levou também aos miseráveis socratismos políticos).

A vocação da modernidade deveria ter sido aquela que deriva do sétimo harmónico. O que Schonberg inventou foi, na verdade, um sétimo harmónico, inventou a sua própria natureza, pessoal e minoritária, uma natureza imanente à sua imaginação. E que bela música compôs. O pensamento de direita exalta o individualismo, o pensamento de esquerda propõe o colectivismo (usando uma racionalidade mais castradora que as próprias leis da natureza...). O sétimo harmónico assinala o papel irredutível do Indivíduo.

O sétimo harmónico é a poesia, é a física sexy de Einstein, é a generosidade, é a vastidão ainda inexplicada do Universo. É a anarquia que não precisa de violência, o triunfo das humanidades sobre a arrogância da lógica, o mundo proposto pelos loucos (clinicamente falando). Mundos iniludivelmente naturais (harmónicos-de-nós-mesmos) que questionam aqueles que têm o poder de definir as ortodoxias grosseiras.

O sétimo harmónico é a pergunta, a respiração, a dúvida. A elegância. O manguito.

4 comentários:

bushmills (sem gelo) disse...

"No entanto, há um pequeno detalhe: o sétimo harmónico (se atribuirmos o número um ao som fundamental da série) não equivale a nenhuma das doze notas que conhecemos no sistema temperado (que Bach tanto ajudou a definir)."

Na realidade, nenhum dos harmónicos naturais equivale a qualquer dos intervalos do sistema "temperado", excepto a oitava que equivale ao racio 2:1.

pedroludgero disse...

Sim, claro, de qualquer modo ainda hoje a série de harmónicos é ensinada recorrendo a um esquema "simplificador". No fundo, a sua observação abona a favor do meu discurso anti-diktat.

Obrigado pela visita e pela contribuição.

pedroludgero disse...

Desculpa, Pedro, não sabia que eras o bushmills (sem gelo)... :)

ab.

bushmills (sem gelo) disse...

Claro, devia ter começado por dizer que esse pequeno detalhe não abalava a beleza e verdade da alegoria que criaste.

Sim, o bushmils sou eu :)