terça-feira, novembro 24, 2009

O INACTUAL 43

"Det sjunde inseglet" - Ingmar Bergman (1957)


Em "O sétimo selo", Bergman dá-nos a ver diversos tipos de espectáculo: o entretenimento inocente do trio de saltimbancos, a convencionada cena de género (uma discussão matrimonial entre o ferreiro e a esposa), o esplendor horrível da procissão religiosa, etc. O filme, contudo, é bastante claro: só este último espectáculo (o da tragédia) é capaz de convencer os espectadores medievais.

Bergman é, definitivamente, o cavaleiro sisudo e angustiado: nunca se cansou de filmar o triunfo da pulsão de morte sobre a pulsão de vida (desse ponto de vista, "O sétimo selo" é o reverso do maravilhoso "O sabor da cereja" de Kiarostami, no qual a realidade só parece fornecer argumentos convincentes para a sobrevivência).

No entanto, deriva daqui uma questão que me parece mais eloquente. O pai de Bergman era um pastor protestante, ríspido e seco como só algumas personagens do cinema do filho iriam ser. A relação do cineasta com a religião terá sido tão complexa quanto os seus conflitos edipianos. Foi ele próprio que confessou só ter perdido definitivamente a fé durante a produção do muito austero e muito belo "Luz de inverno" (1962). O que quer dizer que, quando fez "O sétimo selo", a sua cultura seria ainda a da angústia do crente.

Bergman contou também que, durante a rodagem deste filme, toda a gente tinha medo de que o público se desatasse a rir das figurações que estavam a propor (por exemplo, um actor com a cara besuntada de branco e um xailinho preto que chega e diz: "Eu sou a Morte"). Ou seja, Bergman estava ciente do risco do espectáculo que estava a construir. Se o filme resulta (e se tornou mesmo um dos clássicos mais famosos da sétima arte), é precisamente porque Bergman assumiu o lado esplendorosamente circense da representação alegórica.

Ora, quer-me parecer que todo esse circo (mistura de desejo e paródia) sinaliza, conscientemente ou não, a própria fragilidade da crença bergmaniana, e a sua futura dissolução. Se compararmos "O sétimo selo" com um filme muito mais simples e ao mesmo tempo muito mais sofisticado como "A palavra" de Dreyer, perceberemos o quão postiça, ou pelo menos frágil, era a religiosidade do realizador sueco.

Há muitos aspectos notáveis neste filme célebre: a construção de um poderosíssimo imaginário medieval, o aparente erro de casting de Gunnar Björnstrand (que traz ao seu bobo um cinismo frio completamente deceptivo), a sugestão de que a única vantagem de prolongar a vida é adquirir memórias felizes (e não atingir o Conhecimento místico), etc. Mas o que mais me toca é toda esta genialidade de encenação estar ao serviço de mais indefesa e humilde das dúvidas.

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