segunda-feira, outubro 05, 2009

Perplexidades

Após ter escrito este post, dei por mim a tentar formular as razões que me levam a apreciar um cineasta tão improvável como James Ivory.

Penso que sou justo se disser que, nos melhores filmes desse americano britanizado, o espectador pode encontrar os momentos fundadores das liberdades hoje dadas como adquiridas mas, infelizmente, amplamente banalizadas.

As narrativas reportam-se sempre a uma época do passado na qual o problema da liberdade foi sofrido, discutido e combatido. Seja a liberdade da mulher ("The Bostonians"), da vivência sexual ("A room with a view"), da homossexualidade ("Maurice"), da rebeldia social ("The remains of the day"), seja todo o escopo da liberdade, expresso como uma utopia ética ("Howard's End").

Os filmes têm uma direcção de actores seriíssima (ninguém fala do casal Paul Newman/Joan Woodward em "Mr. and Mrs. Bridge"), a análise das classes sociais é manejada com o bisturi de um sábio, o lirismo consegue por vezes desmanchar o academismo-base da estratégia. Sem a demagogia de Frank Capra, James Ivory consegue voltar a fazer-nos exprimir toda a bondade das razões revolucionárias (ao cuidado de todos os partidos do Parlamento).

E assim, o cineasta menor funciona como o oposto do génio Sergei Eisenstein. Onde Ivory tem demasiado pó acumulado, o russo deu um contributo formal sem paralelo. Mas Eisenstein já não nos consegue convencer a permanecermos na vanguarda das ideias (estará a virtude, afinal, em Peter Watkins?)...

Claro que os críticos nunca reconhecerão isto. Mas, neste momento, não há nenhum crítico de cinema em quem eu confie. Nem em mim.

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