domingo, setembro 20, 2009

No escrínio 49

Poema "Casamento de Bangkok", de Miguel-Manso:



"disse-me

aprendi o essencial de tailandês
para não me perder na rua
saber o que vou comer nos restaurantes
dizer-lhe que a amo

mas não o suficiente para
lhe explicar o porquê

por isso
aponto com o olhar as árvores do pomar
são o nosso pequeno resguardo
de beleza

seguimos o perfume
ela sabe"




No momento histórico em que a instituição do "casamento" está a ser colocada sob o fogo cruzado das ideologias, Miguel-Manso dá a sua contribuição para a discussão com uma delicadeza sábia a que ninguém consegue pedir meças.

Começa logo por colocar o discurso poético na boca de outrem (alguém lhe disse o conteúdo do texto). Isso não se deve a uma razão especificamente autobiográfica (apesar de não me constar que o autor mantenha uma esposa na Tailândia), mas à noção de que o amor é a forma plena de cisão do eu na alteridade: o casamento é uma coisa tão forte que só os outros o parecem conseguir OU para discorrer sobre o amor, o poeta tem de colocar um alter-ego a falar por si.

O próprio facto de tudo isto se passar no estrangeiro prolonga esta ideia (facilitada pela evidência simbólica a que os heterossexuais têm acesso imediato: a mulher é um outro chapado). De qualquer modo, Manso coloca o casamento fora da perspectiva de uma domesticidade armadurada. O que ele sabe de tailandês permite-lhe orientar-se nas ruas (fora do espaço casa, portanto), consultar as ementas nos restaurantes (não precisa de uma fada do lar para sobreviver) e dizer à rapariga que a ama. A palavra, o texto verbal, permitem assim enunciar o limite negativo do projecto. Ou seja, o essencial que ele sabe de tailandês não lhe permite afinal formular o essencial da questão.

Pois é, Miguel-Manso é um sonhador de textos (já o defendi aqui). A domesticidade alternativa tem de ser expressa num poema (num resguardo de beleza) que ultrapasse qualquer tique de inefabilidade: o perfume das árvores do pomar. Ao dizer que o par segue esse perfume, ele enuncia agora o potencial positivo do projecto: seguir o perfume dos frutos é orientar-se, encontrar alimento (e, claro, explicar o enigma da paixão).

A domesticidade deixa de pertencer ao domínio da cabana que dá realismo ao amor, e passa a realizar-se ao nível da partilha de um entendimento criador da sua própria realidade. Percebe, Dra. Manuela?

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