segunda-feira, setembro 28, 2009

Casting 12

Tenho um certo apreço por actores britânicos. O que, claro está, é lamentável. Mas cada um é como cada qual, e o que se leva desta vida é só o que irrita os demais.

Gosto daquele cabotinismo ajaezado com vozes-de-outro-mundo, gosto dos biquinhos de pés para vociferar o hit parade shakespeariano, da teatralidade larger than death, da latência de Sir e Dame em cada gesto de desdém, gosto da vergonha que têm do seu (subestimado) cinema.

Como se pode ser fã de Emma Thompson, matrona de sotaque posh e testa eternamente franzida? Como eu dizia anteriormente: lamentável. Penso que isso talvez se deva ao facto de ela ser uma das irmãs Schlegel no "Howard's End", um dos meus guilty pleasures da cinematografia de noventa. Melhor dizendo: o facto de ela ter ocupado, no meu imaginário, o arquétipo da mulher que esfocinha a sua inteligência na grosseria machista.

E daí, talvez não. Lembro-me de um filme insossíssimo, "Sense and sensibility" (dass), em que Thompson passa o tempo a fazer de donzela sensata (pior do que isso, só mesmo um extraterrestre de Spielberg). Ora, no fim, quando é ela, e não a tonta da irmã sensível, quem fisga um gajo, e portanto se presume que em algum momento terá dado uma capitalíssima queca cockney, Thompson consegue concentrar no rosto todo o poder do desejo por fim satisfeito. Não diz uma palavra, não encena nenhum gesto, não representa, e no entanto não engana ninguém: foi promovida de spinster a fair lady. Não me lembro de muitas outras manifestações de igual virtuosismo.

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