domingo, agosto 16, 2009

O Jornal do Cabo 3

Sempre que uma pessoa critica o modelo capitalista de organização da economia, os fanáticos do mercado acusam-na logo de suspirar por um mundo de fabrico estalinista. Presumo que haja alguma insegurança em tal reacção alérgica. De resto, eu nem marxista sou (apesar de algumas das pessoas de quem mais gosto o serem).

Sou um tipo de esquerda (votando todavia em branco) apenas porque continuo a não compreender por que razão é que o único método válido de organização dos humanos é um método onde uma boa parte desses humanos têm de sofrer (e por vezes, de forma obscena) para que a sociedade funcione.

Dizem-me que o mundo não pode ser perfeito. Claro que não: a perfeição pertence ao domínio da Morte. Disso estou consciente. Mas também sei que as coisas mudam, e que o mundo tem por vezes alcançado inesperados triunfos de progresso moral (por exemplo: hoje, as mulheres podem votar). Ou seja, não é porque um problema é irresolúvel-por-completo, que temos de baixar os braços perante a realidade das coisas. O progresso está sempre previsto no big bang seja do que for.

Certos estudiosos têm provado que o pensamento humano se organiza em torno de metáforas conceptuais. E que essas metáforas (ex. "a ira é um líquido a ferver dentro de um recipiente") quase nunca são arbitrárias, mas motivadas pela experiência dos falantes/pensadores (naquele caso, a metáfora baseia-se na noção espontânea que as pessoas têm do seu aquecimento fisiológico quando uma emoção violenta as perturba).

Diz-se que "na natureza, não há almoços grátis". Mesmo que aceitemos que isso seja assim sem provas cabais dadas pela ciência, a verdade é que a Natureza tem umas costas demasiado largas. Pois se as metáforas devem ser motivadas pela experiência (se assim não acontecer, elas degeneram em poesia...), é óbvio que a história da criatividade humana se caracteriza pela construção de espaços de convivência cujo funcionamento se distingue por completo do funcionamento da natureza. Mesmo os indígenas da selva acabam por se organizar em pequenas comunidades de feição aldeã. O homem é o inventor da aldeia, sobretudo da cidade, o construtor de casas, de pontes, de veículos de locomoção. O homem não vive na selva, sujeito às leis supostamente impiedosas da natureza. Por que razão temos de aceitar uma organização do mundo que (ainda que parodicamente, mas não tanto quanto isso...) se legitima nesta metáfora?

Ou seja, o que eu pretendo dizer (com a ingenuidade que caracteriza os que não são abruptos) é que a Economia, como todas as ciências do seu género, não está isenta do uso da imaginação. E eu não quero que os economistas sejam poetas fascinados pela natureza, mas cientistas visionários.

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