terça-feira, agosto 04, 2009

O INACTUAL 38

"Il grido" - Michelangelo Antonioni (1957)



O principal assunto desenvolvido por M. Antonioni neste seu filme razoavelmente esquecido é a perda da evidência: quando Irma acaba a relação amorosa que mantém com Aldo, este perde o motivo aglutinador do sentido da sua vida. Não se trata apenas do sentido sentimental: a dedicação a um trabalho também vê o seu carácter de evidência diminuído (e em paralelo, o realizador filma a dissolução da própria vida rústica, a despeito da beleza ainda intocada da paisagem do Vale do Rio Pó).

"Il grido" torna-se, por isso, um road movie cujas paragens temporárias acabam por configurar o processo falhado de identificazione di una donna. Com um rigor inatacável (só na aparência há fios soltos nesta narrativa), Antonioni proporciona ao seu personagem o convívio com os dois extremos a que a estrada o pode levar. Por um lado, a possibilidade de um regresso à estabilidade: a despeito das dificuldades da existência, as mulheres estão mais disponíveis para construírem novas relações do que os homens (infantilmente presos à evidência). Toda a sequência em que Aldo permanece na companhia da proprietária de uma bomba de gasolina produz uma inversão (quase demonstrativa) do road movie: a narrativa prossegue dentro do género, mas os seus protagonistas estão parados, estando o movimento entregue às personagens secundárias (que param para abastecerem os seus veículos com combustível).

No extremo oposto, encontra-se a possibilidade da dissolução. Já por aqui anda o nevoeiro que há-de conduzir o cineasta a alguns dos momentos maiores da sua obra posterior. Mas o fantasma da ausência assombra sobretudo a personagem de Rosina, a filha de Aldo que o acompanha no seu périplo: a uma dada altura a criança desaparece, e mais tarde o próprio pai provoca o seu eclipse quando a manda de regresso para a companhia de Irma.

Na falta de evidência (que é o principal escolho da contemporaneidade), estes extremos acabam por tocar-se: quando Aldo se livra de Rosina, de imediato quebra a relação com a rapariga da bomba de gasolina que motivara esse abandono; quando, no princípio do filme, morre o marido de Irma na Austrália, possibilitando finalmente o casamento entre esta e o seu amante Aldo, é a própria Irma que termina a relação. A perda do laço castrador acaba por revelar a artificialidade daquele que se supunha ser um laço com futuro.

Os cenários de autoria humana servem sobretudo para dar uma forma visual à separação psicológica entre os elementos dos diversos pares (verificar nesta imagem). Quando os habitantes da aldeia desaparecem de cena num protesto contra aquilo que se entende por progresso, provocam um esvaziamento emotivo do espaço para que os (ex) amantes fiquem entregues à sua verdade. No cimo da torre da refinaria onde trabalhara, Aldo vê (câmara subjectiva em plongée) Irma no chão. A abolição da distância entre os dois já só pode ser feita através da queda do corpo de Aldo, de um suicídio trágico. Não se vê, contudo, o corpo a cair (isso seria realismo): apenas Irma a gritar. Com toda a precisão que lhe é característica, Antonioni inventou aqui a imagem-grito.

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