quarta-feira, agosto 12, 2009

O coleccionador 14

Em "The force that through the green fuse", Dylan Thomas confessa-se inepto para formular a sua concepção algo panteísta da fertilidade. É uma técnica de retórica antiga e frequentemente abusada pelos escritores de poesia.

No entanto, o poeta de Swansea inunda o seu texto de pequenos detalhes que dão um corpo fértil a essa mudez. O mais sedutor é aquele que resulta do recurso a um idioma distinto do inglês para tentar exprimir uma ideia radical precisamente em inglês: é o que acontece no verso "How time has ticked a heaven round the stars".

Segundo explicação de Ralph Maud, "amser" é, na língua galesa, a palavra usada para designar "tempo". No entanto, se dividirmos essa palavra em duas partes ("am" e "ser"), obtemos a formulação "ao redor das estrelas". Quer-me parecer que isto não é uma brincadeira gratuita do poeta, mas a sua sujeição voluntária a um panteísmo linguístico: se o Céu do tempo está ao redor das estrelas, é porque o redor das estrelas é de facto feito da mesma matéria (verbal) do tempo.

Mas se Thomas foi buscar isso a um idioma marginal ao que usou no seu poema (ainda que mais próximo da sua geografia mítica), tal deveu-se à marginalidade processual a que a inépcia expressiva o levou. Como se Babel fosse um território de imanência guardando as nossas mais profundas capacidades de pensamento e de expressão.

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