domingo, agosto 09, 2009

Il cinema

Em "Il grido", Antonioni parece ter (inadvertidamente?) posto um ponto final numa determinada concepção do mundo (talvez a sua). O facto do protagonista se suicidar assim o indicia.

Revi "La notte" no meu LCD, e fiquei ligeiramente desapontado (em especial porque me lembrava de ter gostado muito do filme, quando o vira numa sala de cinema). Mas penso que isso tem uma explicação.

Em primeiro lugar, o filme é tão sumptuoso (no bom sentido da palavra) que grande parte do seu efeito se perde quando ele fica aprisionado num ecrã doméstico. Mas, de qualquer modo, "La notte" parece exigir uma predisposição crítica muito diferente da que "Il grido" pressupunha. Tenho a vaga sensação de que Antonioni não é o cineasta choramingas (e congelado e vazio e entediado) com que a fama o estigmatizou. Ele próprio disse uma vez, numa entrevista, que, em "Il deserto rosso", pretendia mostrar como as construções dos homens eram tão belas quanto as dádivas da natureza. Desconfio, portanto, que encerrar o realizador num pessimismo superficial seja pouco rigoroso.

O que me parece é que, tendo Antonioni pressentido que as evidências do mundo antigo se tinham esboroado, o seu percurso criativo se tenha norteado no sentido de procurar, através do cinema, algumas evidências novas para a sua contemporaneidade (evidências nas quais se inclui, isso sim, o sofrimento). Repare-se que "grito" é um conceito negativo (e a narrativa desse filme assim o confirma), mas o mesmo não se pode dizer de "aventura", "noite" ou mesmo "eclipse". A profunda estranheza dos seus filmes (já Fellini é um cineasta a cuja família toda a gente quer pertencer...) resulta, portanto, desse acto (desesperado?) de tentar fazer IL CINEMA a partir de uma humanidade que já não é a mesma que existia no início da história dessa arte.

De qualquer modo, "La notte" não será o melhor dos Antonionis. E "L'eclisse" ou "Il deserto rosso" já levam a proposta do realizador até às suas mais refinadas consequências. Obrigo-me por isso a não continuar o meu discurso sobre este autor até poder rever "L'avventura" (que é, obviamente, a obra seminal). Espero, então, que um dia o mercado de DVD se digne a editar o filme, ou, o que seria bem melhor, que ele regresse aos ecrãs da cidade do Porto.

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