quarta-feira, agosto 12, 2009

Actualidade cinematográfica

1. "Home" - Ursula Meier
Ursula Meier parece ser muito talentosa. A exemplaridade clássica do argumento do seu filme, o formalismo não gratuito que nele é trabalhado (ou seja, um trabalho das formas cujo efeito é sempre semântico), a eficácia hitchcockiana da ameaça visual e sonoramente materializada nos automóveis, tudo isso é grandemente promissor.
Eu diria, contudo, que "Home" tem um problema. Quando um autor escolhe a parábola como meio de expressão, acaba muitas vezes por ter de assumir essa condição parabólica através de um salto qualitativo na narrativa. É o que acontece em "Os canibais" de Manoel de Oliveira, quando o filme se transforma em Carnaval, ou em "Bug", precisamente quando os protagonistas desta obra de Friedkin se isolam numa casa. Ora, esse salto em direcção ao simbólico, abre a narrativa a uma plenitude de sentidos.
Enquanto via o filme de Meier, pensei que ela estava a dar uma imagem do progresso (aquilo que obriga todos os seres a seguirem na mesma direcção), do idílio (que só se mantém em condições de isolamento), do crescimento (a necessidade de assumir o movimento contra o estatismo da célula familiar), e etc, e etc. No entanto, quando "Home" assume o seu carácter simbólico (toda a sequência final do isolamento), em vez de se abrir semanticamente, fecha-se: afinal, esta era apenas uma parábola sobre a resistência à mudança.



2. "Les plages d'Agnès" - Agnès Varda
"Les glaneurs et la glaneuse" era ao mesmo tempo um filme mais original (já alguém tinha abordado cinematograficamente o tema da actividade respigadora?) e mais universal. Mas "Les plages d'Agnès" tem o humor e a leveza suficientes para evitar os escolhos do hermetismo ou do narcisismo que a autobiografia pode trazer.
Acima de tudo, esta é uma estética em que se respira uma enorme liberdade. "Les plages d'Agnès" não é apenas um filme, mas um conjunto de filmes: uma auto-encenação, um documentário com disponibilidade para o acaso, um jogo de surrealismo light, a reconstituição ficional de algumas cenas da biografia de Varda, a remontagem de cenas de filmes pré-existentes, e o making of de tudo isto! Os filmes não alternam só através da montagem, mas acumulam-se mesmo dentro de cada plano (por exemplo, há cenas que são o making of da reconstituição). Para além de conseguir tornar tudo coerente, Varda demonstra uma frescura e uma independência de espírito que, na sua idade, só podem fazer corar os jovens candidatos ao cinema mercenário.



3.
"The limits of control" - Jim Jarmusch
Descontando a tonalidade Lynchiana do filme (que não aprecio), e esta moda recente que o cinema de autor adoptou de construir argumentos em constante processo de autofagia (narrativas fechadas, onde tudo se repete e reflecte, sem qualquer respiração), continuo a achar que Jarmusch é um bom urdidor de parábolas. Com certeza que ele me permitirá uma leitura pessoal (ficando desde já aqui garantido que essa leitura não pretende ser exclusiva).
Eu diria que a personagem do assassino contratado é a personificação directa da morte (quem, se não a morte, conseguiria penetrar o colosso defensivo onde se esconde o alvo a abater?). E como essa personagem-em-função se funde com o filme (quando acaba o serviço, a câmara balança como se tivesse perdido o controlo e a obra termina abruptamente), o próprio filme acaba por se reduzir à exemplaridade parabólica. Repara-se que o assassino rejeita a ideia de vingança. O vilão (convenientemente yankee) é aniquilado apenas porque se julga importante em demasia: não sabe que "a vida não vale nada" (como o filme está sempre a repetir). O caminho do assassino é um caminho por um determinado tipo de cultura (cinema, música, pintura, boémia, erotismo, experimentação alucinogénia) que apenas vai dar, à morte personificada, as deixas correctas para ela calar a vaidade do seu alvo. O underground jarmuschiano confunde-se com uma profunda lucidez.
A originalidade do filme reside no facto de que toda essa cultura do descontrolo (a obra começa com uma citação do "Bateau ivre" de Rimbaud) é filmada do ponto de vista do seu des-limite: Isaach de Bankolé, caminhando imperturbável até à plena rarefacção do seu simbolismo.



4. "Two lovers"
- James Gray
Este será um dos realizadores mais ferozes a trabalharem actualmente no contexto cinematográfico anglo-saxónico. Exactamente como no seu filme anterior, faz-se aqui a exaltação do sacrifício necessário para que se dê a aceitação da evidência familiar. Repare-se: Gray não exalta a família. A família parece ser um valor absoluto, porventura inquestionável, mas certamente de autoridade profunda. O que ele exalta é o sacrifício (algo muito americano, de resto).
O filme (muito bem narrado e muitíssimo bem representado - toda uma escola de virtuosismo realista que radica em Elia Kazan) começa com uma tentativa de suicídio da personagem interpretada por Joaquin Phoenix. Ora, a sequência final funciona como o paralelo perfeito desse início: Phoenix foi outra vez abandonado por um grande amor, e confronta-se com a possibilidade de afogamento (desta vez no mar). Não importa se ele parece aliviado quando regressa a casa (Gray é fabulosamente ambíguo). A verdade é que o regresso do filho pródigo tem o peso idêntico ao de um suicídio. Assustador, mas notável.

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