sábado, julho 11, 2009

Uma leitura de "Amigo e amiga" de Llansol

"(...) Sentimentos depressivos, que me entristecem, e sentimentos figurais que me enchem de pujança, andam à minha procura.
...Ouço-o escrever, na folha de leitura permeável ao vento:

.......Esta árvore é um metrosideros.
.......Eu estou bem."



Parece que Pedro Mexia foi desajeitado quando afirmou que Maria Gabriela Llansol praticava uma espécie de mística laica. Na verdade, Llansol é, como Baudelaire, a sua melhor crítica, a pessoa que melhor fala sobre a sua própria escrita. No entanto, se não a tentarmos ler segundos os termos da nossa idiossincrasia enquanto leitores, arriscamos-nos a nunca fazermos, do seu texto, um texto que seja também nosso. Esta minha leitura não estará submetida, portanto, ao vocabulário llansoliano.

De resto, a ligação da autora à literatura mística é, não só evidente, mas fulcral para a compreensão da sua obra. Desde que entendamos essa filiação com o distanciamento enunciado pela própria Llansol, que sempre defendeu que uma leitura simplesmente religiosa dos textos místicos lhes retirava todo o seu fulgor polémico. Ora, uma das mais evidentes provocações com que a autora de Herbais confronta o cânone místico é a exaltação da vida erótica. Não a vida erótica da freirinha celebrando imaginários esponsais com uma pomba, mas o júbilo do corpo real na construção da unidade do amor.

"Amigo e amiga. Curso de silêncio de 2004" traz sobre tudo isto uma luz esclarecedora. Escrito como anotação do processo de luto que se seguiu à doença e morte do seu companheiro de uma vida inteira, Augusto Joaquim, o livro parece justificar a sua liberdade a partir da intensidade da emoção de perda. Ou seja, a dor provocada pela separação do amigo foi de tal modo maravilhosa, que só poderia ter engendrado um texto maravilhoso. Nesse sentido, o que as suas páginas oferecem será um razoável equivalente, em termos de radicalismo (mas não em ideologia), à escrita mística.

O texto construído por Llansol é o resultado (ou melhor dizendo, a análise do processo) da nova maneira de escrever que a perda do amigo veio exigir. Não é por acaso que o leitor, que pode por vezes sentir-se perdido no correr das páginas, tem a sensação de que cada texto lido é um texto mais prestes a nascer do que efectivamente escrito. Mas o suposto hermetismo da escrita llansoliana é um mito sem qualquer fundamento. É um facto que "Amigo e amiga" está organizado em cardumes de fragmentos. No entanto, note-se que o fim de cada fragmento (a sua morte) é usado como título (nascimento) do texto seguinte (procedimento que materializa a própria noção do luto). O diário incongruente (o discurso racional seria impeditivo desse mesmo luto) tem afinal muitas pontas por onde se pegar.

De resto, Llansol socorre-se de metáforas muito simples (mesmo que seja a própria autora a rebelar-se contra o uso desta figura, a verdade é que no fragmento XXXIX, por breves instantes as lagrimas são equiparadas à chuva), polissemias de igual carácter ("folha" de papel e de árvore; "nota" de música e papel-moeda), ingenuidades propositadas (os "doces de solidão"), sinestesias de fácil compreensão (a luz sonora). É claro que a invenção de palavras, de conceitos e de nomes próprios prima por nunca degenerar em evidência. É claro que há ideias que são exploradas até à exaustão, enquanto outras mal são afloradas (o que as torna menos compreensíveis). E que a montagem textual impossibilita qualquer tipo de interpretação grosseira ou unívoca. No entanto, os processos mais pueris (a passagem pela infância é fundamental no luto llansoliano) e as ousadias mais sofisticadas estão unidas no mesmo projecto: a preparação do desconhecido pelo texto.

A autora diz que pretende atingir uma escrita musical, um pensamento cantante. Não porque pretenda trabalhar a dimensão prosódica do texto, mas porque só a música (em sentido lato, como em Mallarmé) permite evocar esse desconhecido (fragmento CL: "A ligação entre céu e biblioteca fez-se, naquele momento, através do som."). Aliás, desde o início o amigo surge associado a um instrumento musical (o piano). E a mulher que escreve afirma que "nada é secreto", o que é preciso é "treinar o ouvido".

Na metamorfose que o livro sugere, o afecto llansoliano por tudo o que não é humano (a diversidade de afectos, que se estendem aos animais que a transportam na dor, às plantas, às figuras extraídas da história humana, aos livros, aos objectos) adquire uma ressonância profundamente grave: o amigo é agora, também ele, não-humano. No entanto, o papel do delírio é o de tentar criar um silêncio mais liberto. O imaginário é experimentalmente trabalhado como arma de luto. Cada fragmento textual encena a vontade do imaginário triunfar sobre a melancolia. Este é um texto curativo (uma metamorfose puramente afectiva), e por isso a leitura está constantemente a esbarrar contra a vertigem de entrar (no desconhecido após a morte, na necessidade de readquirir uma porção de júbilo para o aquém-morte).

Claro que a escritora avança e retrocede, luta contra as recordações, o fulgor da sua mística é por vezes posto em causa. O problema da solidão sexual é assumido, e a possibilidade do suicídio chega a ser (subtilmente) considerada. No entanto, o fragmento CLXXXI (quase no fim) atinge uma formulação onde, se o amigo não se torna plena figura llansoliana, pelo menos a dor parece ter atingido a transparência por que todo o livro lutou. É um fragmento estranhíssimo: a sua clareza é de tal modo grande (pelo menos assim o creio) que o futuro afectivo da autora deixa de poder ser verbalizado racionalmente. No fundo, o que aí fica registado é o próprio sonho de um texto vivo:



"...Sim, diz-me a mulher, pousando as mãos nos meus joelhos. Desejo encontrar alguém que me ame com bondade e que seja um homem.

...Alguém que queira ressuscitar para ti?

...Sim,
alguém que tenha para comigo essa memória."

1 comentário:

RAA disse...

Estou longe de ser um llansoliano,mas gostei muito de ler este seu comentário.
Um abraço.