sábado, julho 04, 2009

Uma questão de poéticas

Uma das coisas que mais admiro no trabalho de Jorge Silva Melo é o seu desejo de comunicação política directa com o espectador, sendo este considerado na sua espeficidade cultural presente e local. É um autor que se dirige a uma polis concreta. A sua vontade de rescrever o "Édipo Rei" de Sófocles para melhor poder comunicar com um público que já não sabe nada dos estranhos deuses da mitologia grega, a sua falta de gosto pelas notas de rodapé, são exemplos dessa permanente inquietação cívica.

No entanto, se eu também me interesso, por um lado, pelo lugares comuns culturais que compõem a mitologia partilhada de uma determinada comunidade (e agora até estou mais preocupado em, por exemplo, indagar as metáforas antigas do que em criar novas metáforas), a verdade é que me apaixona igualmente todo o conhecimento que seja improvável, distante, selvagem, secreto. O deus Vertumno, um filme do Burkina Faso, uma flor excêntrica que ainda ninguém descobriu no seio da Amazónia, uma palavra dum dialecto de Itália, um rapaz entrevisto numa viagem ao Brasil, uma lua de Saturno ou o nome latino de um peixe que só existe no Lago Malawi: tudo isto me seduz tanto quanto a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a obra de Shakespeare, o rock'n roll ou a figura de Cristo. Não consigo ser apenas um elemento da comunidade. Tenho também de ser um explorador dos tesouros singulares.

Um dia destes faço um livro só com notas de rodapé.

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