domingo, julho 05, 2009

Tradução 13

















Ode ao concreto (tradução minha)


Meu bom velho cimento, durarás para além da minha vida,
como eu durei, assim consta, para além de alguma gente
que me tinha tomado, também, por uma espécie de via,
citando a cor dos olhos, ou o semblante.

Por isso eu louvo a tua porosa e inânime feição
não por inveja mas por ser um bem directo
parente - menos durável, em aflição
desconjuntado, ainda assim grato aos arquitectos.

Aplaudo a tua humilde - para ser mais exacto,
insignificativa - origem, um rugir penetrante,
contudo condizente, na íntegra, com o abstracto
destino, fora do meu alcance.

Não é que o nada gere o seu género
mas que o futuro é por opção o pretendente
de um encontro tão às cegas quanto cego
e envolto em saia petrificada e ingente.



Notas:

1. Brodskii escreveu o seu texto a partir da polissemia associada à palavra "concrete" (que em inglês significa, ao mesmo tempo, "concreto" e "cimento"). Decidi então traduzir o título do poema como "Ode ao concreto". Em primeiro lugar porque, estando o poema escrito em inglês dos Estados Unidos (basta atentar na grafia de "color" e na expressão "blind date"), pareceu-me subtil empregar a palavra "concreto" num sentido mais usado no Brasil do que em Portugal (o sentido de "cimento armado"). Mas essa opção foi sobretudo motivada pela capacidade que o leitor tem para juntar, na mesma imagem que faz do poema, o conceito de "concreto" ao qual o meu título promete uma ode e o objecto "cimento" a que a ode, na verdade, faz louvor. Mesmo sem recorrer à polissemia, a duplicidade das intenções do poeta podem ser transmitidas.

2. A última estância do poema é de difícil tradução, na medida em que o autor joga com as especificidades da língua inglesa. Insisti na ideia de cegueira, não só dada a importância que o sentido da visão tem na mundividência de Brodskii, mas porque ela me parece essencial à compreensão deste texto em particular (como explico neste post). Usando as expressões "às cegas" e "cego", tento evocar as diversas camadas de sentido latentes em toda a quadra: a ideia do encontro às cegas com o futuro (do "blind date", bela expressão para a qual não há, infelizmente, uma tradução idiomática eficaz em português), a ideia de que a rapariga que vai a esse encontro é cega (e portanto não pode ler a ode) e, por fim, a tradução de "resolutely". É uma proposta polémica da minha parte, mas parece-me mais concreta do que a tradução do passo em causa como "encontro imprevisível".

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