quarta-feira, julho 15, 2009

O INACTUAL 37

"Accattone" - Pier Paolo Pasolini (1961)



Poder-se-ia, talvez, definir o santo como o ser puro cujo comportamento superficial é sombrio (independentemente do seu fundo psicológico acabar por ser luminoso, como é o caso da escritora Etty Hillesum, ou de, pelo contrário, se revelar igualmente sombrio, como o personagem Hipólito em "O amor de Fedra", único texto dramático de Sarah Kane que aprecio). Aliás, o santo costuma chegar à pureza após uma escolha moral e através de um árduo trabalho, que geralmente inclui a resistência às tentações.

Ao contrário, o anjo é espontaneamente puro, a sua superfície é sempre luminosa, talvez mesmo alegre. Não precisando de via sacra, o anjo simplesmente é. É a criança que, nos primeiros anos da sua vida, guarda ainda uma profundidade de luz inata, ou é este Accattone que, sob a sua vitalidade aparentemente inconsútil, esconde uma amargura sem remissão. Rossellini, por exemplo, filmou São Francisco como se ele fosse um anjo.

O encontro entre marxismo e cristianismo articula-se em torno de uma espécie de angelização do pobre. Do pobre enquanto criatura encantadora até ao Reino dos Céus que o espera como uma empresa de seguros, de alibi de discurso eleitoral até caução de obra literária, tudo se faz para não pegar o tema-touro pelos cornos. Recentemente, os irmãos Dardenne fizeram-no com "Rosetta". Mas logo logo desistiram a favor de um cinema mais tranquilador.

Ora, a angelização que Pasolini trabalha neste seu primeiro filme não tem nada a ver com estas pílulas douradas com que se curam eventuais deformações de revolta, mas assume uma humanidade profundamente ética. Estamos longe, pois, da piedade alienante de Vittorio de Sica.


Do ponto de vista do conteúdo, a angelização resulta de:

1. a denúncia do facto de que o valor trabalho não é uma evidência para todos os membros da sociedade (tanto os defensores como os detractores da figura do Rendimento Mínimo deveriam falar apenas depois de considerarem que a ausência de vontade e de realização laborais atingem preferencialmente indivíduos de classes sociais desfavorecidas. Dá mais jeito evocar a desgraça ou a preguiça do que pensar politicamente). Accattone é um puro opositor ao trabalho.

2. a relação entre classe social e orgulho (que é uma deformação psicológica). Hoje fala-se, por exemplo, da pobreza envergonhada (pois a classe média tem a sua forma de orgulho). Em "Accattone", mostra-se precisamente a monstruosidade que este traço psicológico pode atingir em alguns marginalizados de sexo masculino (e só quem vive em fechadíssimos condomínios intelectuais, é que não constata esta realidade). Accattone é um puro arrogante.

3. o contraste entre uma energia vital exuberante e o desejo latente de morrer que o personagem principal demonstra (já abordei este tópico aqui e aqui).


Do ponto de vista da forma, os processos de angelização são os seguintes:

a. uso inesperado da música de Bach.

b. recurso a vozes (sujamente pós-sincronizadas) cujo carisma advém do tom raivoso.

c. estética do sorriso (que resulta não só de uma certa concepção de beleza viril do homossexual Pasolini, como do seu conhecimento do comportamento espontâneo de uma franja social). Note-se que esta é uma estética tão difícil de gerir com sucesso (está sempre no limiar do ridículo), que a nossa civilização acabou por endeusar um quadro híper eficaz como a "Gioconda" de Leonardo.

d. amadorização interpretativa (Pasolini recorre a muitos actores amadores, como já acontecia em Itália desde o neo-realismo do pós-guerra. No entanto, uso a palavra "amadorização" por me parecer que, em futuros filmes, o realizador consegue fazer com que Maria Callas, Totó, ou Anna Magnani regressem ao mineral em bruto que foram antes de se terem tornado intérpretes).

e. sujeição da dimensão plástica da imagem (Pasolini filma, curiosamente, como se nunca tivesse conhecido a pintura a partir de Leonardo) à dimensão poética. Ou seja, mais do que imagens plásticas, o autor constrói imagens poéticas (encontros inesperados de elementos capazes de darem afecto a uma amplidão conceptual).

f. montagem algo frenética (não há aqui espaço para o refinado plano-sequência).


Pasolini não nos provoca a lágrima, mas a inquietação.

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