quarta-feira, julho 01, 2009

O INACTUAL 36

"Edvard Munch" - Peter Watkins (1974)


Os cineastas ou têm vergonha por não serem artistas, ou têm vaidade por pensarem que o são. Aliás, se a palavra artista é confundida com uma forma de estatuto, mais vale que a abandonemos por completo. Certo é que a relação entre cinema e pintura é dada a todo o tipo de equívocos. Não só os cineastas preferem citar pintores (João Botelho) em vez de pintarem eles mesmos (Godard), como se põe em bicos de pés sempre que o assunto é a pintura. Seja Minnelli, irremediável provinciano (mas fez alguns filmes que eu adoro!), que filma Van Gogh como se ele pertencesse a um domínio da humanidade que o transcende (ou Milos Forman com Mozart). Seja Rivette que mistifica toda a aventura associada à pintura (e já tremo pelo que Jane Campion fez com John Keats...). Os cineastas, como os pintores, músicos ou escritores, são fazedores. E o que os pode distinguir é o empenho (político e estético) com que vivem esse seu fazer. O resto é assunto para os Ministérios da Cultura.

Por isso surpreende, nesta obra de Peter Watkins, a seriedade com que a biografia e obra do pintor norueguês Edvard Munch são tratadas. É quase a seriedade de um universitário: o filme providencia a devida contextualização sócio-histórica da actividade do artista, faz efectiva análise pictórica, o seu rigor narrativo e expositivo equivale ao de uma monografia responsável.

Claro que o filme é um mock documentary (os personagens do século XIX falam de frente para uma câmara de cinema que não existia então, a encenação está constantemente a fingir reenquadramentos e refocagens para criar a ilusão de uma filmagem não planificada), o que desde logo confere uma agilidade lúdica à seriedade do ensaio. Ao mesmo tempo, Watkins constrói o seu pseudo-documentário a partir de um tom evidentemente bergmaniano (que funciona aqui como sinédoque da psicologia nórdica) e através de um tratamento verdadeiramente pictórico da imagem cinematográfica. À excepção do filme "O sol do marmeleiro" de Victor Erice, não conheço, na história do cinema, um outro método tão eficaz e justo para abordar a vida e a obra de um pintor.

Watkins tem, claramente, uma tese sobe Munch, a saber: ao homem que genuinamente valoriza o papel do Amor, não lhe serve nem o mundo conservador com as suas regras hipócritas e o seu exibicionismo virtuoso, nem o mundo dito revolucionário que surge como reacção a este, com todas as suas liberdades cruéis e todo o seu cinismo imprevisto. É este o drama do pintor norueguês, e é daí que a sua pintura adquire toda a força-de-um-grito (e é aí que estamos ainda hoje em dia...). Claro que, ao drama munchiano, também se acrescentam a constante contaminação do amor pela morte (cada nova mulher da sua vida é minada pelo retorno das imagens dos vários casos de tuberculose na sua família) e a constante tensão que o pintor viveu entre o legado familiar (nomeadamente no que concerne a uma suposta pureza protestante) e as necessidades individuais verídicas que a vida acaba sempre por trazer a um adulto. Mas o essencial da sua pintura (aquilo que faz dele um artista) é a incapacidade da política em sentido convencional (e superficial) responder a uma espécie de cidadania profunda a que aspira o homem que se mantém fiel a si mesmo.

De resto, Peter Watkins não filma propriamente os quadros de Munch (a paragem do tempo) mas o processo de pintar. Daí o seu recurso àquilo que poderíamos chamar de montagem-pincelada (o obsessivo regresso de algumas imagens) que vai propondo, corrigindo, retocando, desviando, confirmando um retrato que acaba por ser mais clássico (no sentido positivo do termo) do que o trabalho do próprio retratado. Watkins não grita: edita o grito.

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